terça-feira, 28 de abril de 2009
domingo, 1 de março de 2009
Sociologia e objectividade III

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III. Sociologia e objectividade
1. O sociólogo deve tentar evitar juízos de valor que ameacem a qualquer momento irromper na sua análise
O sociólogo alemão Max Weber insistiu particularmente neste ponto distinguindo juízo de valor e referência aos valores: o juízo de valor, que consiste em expor os seus a prioris e em avaliar as acções de outrem a partir dos seus próprios princípios, é de proscrever em sociologia, ao passo que a referência aos valores pode, pelo contrário, guiar o sociólogo na sua actuação. Trata-se de seleccionar certos aspectos de um fenómeno em função das interrogações prévias do sociólogo: este, com efeito, recorta a realidade social que escolhe estudar em função dos seus próprios centros de interesse.
Para Weber, o sociólogo deve principalmente esforçar--se por obter a significação que um indivíduo dá à sua acção. É a razão pela qual a actuação que ele preconiza é chamada «compreensiva»: visa compreender os motivos que levam o indivíduo a adoptar um tipo de comportamento. Weber distingue assim quatro formas de acção social, isto é, vários modelos de acção possíveis para um indivíduo.
A acção tradicional apoia-se nos costumes e nos hábitos adquiridos e caracteriza o conjunto das actividades familiares ao indivíduo: obedecer ao seu pai é uma acção tradicional.
A acção afectiva é orientada por pulsões tais como o amor ou o ódio sentido em relação a outrem.
A acção racional referente a valores visa a conformidade com as convicções sem dar importância às suas consequências práticas: o militar que, após uma derrota, se mata fornece disso uma ilustração.
A acção racional em termos de finalidades consiste em avaliar os meios disponíveis a fim de atingir um objectivo previamente fixado: o engenheiro que manda construir uma ponte procede dessa maneira.
Estas categorias de acção não pretendem enumerar precisamente as actividades sociais em toda a sua extensão, posto que Weber assinala que a maioria de entre elas relevam, na prática, de formas mistas. Elas derivam do método do ideal-tipo segundo a definição que dele dá Weber, isto é, um «quadro de pensamento» ou um modelo abstracto elaborado a partir de certos traços voluntariamente salientados de um fenómeno: o sociólogo aprecia então o desvio existente entre a «realidade» que observa e o quadro imaginário que constrói. Esta abordagem não está muito afastada da análise do economista (o que não é surpreendente, pois Max Weber foi economista antes de se virar para a sociologia) que confronta o modelo do mercado de concorrência pura e perfeita com os diferentes tipos de mercados existentes. O ideal-tipo permite assim a Weber entregar-se a uma tarefa de sociologia comparativa, pondo à prova a sua definição ideal-típica da cidade, da burocracia, do capitalismo ... em situações observáveis nas diversas sociedades e em diferentes épocas.
2. Se o sociólogo não faz prova de uma «objectividade perfeita» que permanece ilusória, deve, contudo, esforçar-se por analisar com precisão a sua relação com o objecto
Max Weber preconizava a neutralidade axiológica, isto é, a separação nitída entre os juízos morais próprios do investigador e a sua análise científica. Esta louvável intenção é, no entanto, frequentemente difícil de aplicar: não basta que o sociólogo proclame não agir senão en função da sua «ética» científica para que o problema desapareça. O sociólogo não «flutua no ar», não está separado de toda a trama prática, uma vez que ocupa necessariamente uma posição específica no espaço social, é originário de um meio social, possui «gostos» e «repulsas» particulares ... Este agente social tem a «missão» singular de compreender o que fazem os agentes sociais e de dar conta disso mesmo. Ele não pode, por conseguinte, apresentar a sua «ciência» e adoptar uma posição «de superioridade», cara ao analista que se pronuncia «com toda a objectividade», isto é, em nome da ciência, para dar solução a debates cujas tramas nem sempre têm que ver com questões de ordem científica («Quais são as prioridades dos Franceses?», dando apenas um exemplo).
O sociólogo ganha em esclarecer a distância ou a proximidade — obstáculos que aliás se podem sobrepor — que mantém com o seu objecto de estudo. Dito de outra maneira, deve renunciar a fazer crer que os seus «títulos» constituem um passaporte suficiente para a compreensão sem dificuldade de uma situação social. Segundo a fórmula do sociólogo francês Pierre Bourdieu, o sociólogo tem todo o interesse em objectivar a objectivação, isto é, em encarar o mundo social como um objecto (como preconizava Durkheim) e, do mesmo passo, em incluir-se na análise sociológica. Se um olhar neutro sobre o objecto parece efectivamente impossível, uma socioanálise permite levar em conta o «olhar» particular que o sociólogo lança sobre o seu objecto e o incita a redobrar a vigilância perante as prenoções que ameaçam sempre imiscuir-se na análise.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
O objecto de estudo da sociologia foi determinado por Émile Durkheim em As Regras do Método Sociológico (1895)

Ler capítulo anterior:
Sociologia e perspectivação científica( capítulo II )
por: Philippe Riutort
Ano de edição 1999
ISBN: 972-662-692-7
Editora Gradiva
2. O objecto de estudo da sociologia foi determinado por Émile Durkheim em As Regras do Método Sociológico (1895)
No seu difícil empreendimento de construção da sociologia como disciplina de corpo inteiro (durante muito tempo titular de uma cadeira de Ciências da Educação, não é, com efeito, senão em 1913 que ele obtém o título de professor de Sociologia e Ciências da Educação na Sorbonne), Durkheim dedica-se a conferir um objecto próprio à sociologia, que, segundo ele, se deve demarcar das outras disciplinas existentes, tais como a Psicologia, a História, a Economia ...
Para Durkheim, a singularidade da sociologia reside no estudo do facto social, irredutível, em virtude das suas características próprias, ao facto psicológico e que exige uma investigação específica. Ao escolher estudar o suicídio, Durkheim recusa assim globalmente as abordagens psicológicas e afirma que (contrariamente às aparências) este fenómeno constitui na verdade um facto social, isto é, o contexto social exerce uma influência mensurável através da análise das variações da taxa de suicídio. O suicídio preenche os critérios do facto social enunciados em As Regras do Método Sociológico: um facto social consiste, segundo Durkheim, «em maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo dotadas de um poder de coerção por força da qual se impõem àquele». Dito de outra maneira, o facto social apresenta as características seguintes: trata-se de um fenómeno colectivo, anterior e exterior à consciência individual sobre a qual aquele exerce um constrangimento. Durkheim insiste em As Regras no facto de o indivíduo, enquanto ser social, interiorizar um conjunto de princípios que influenciam as suas acções sem que disso se dê necessariamente conta.
"Quando me entrego à minha tarefa de irmão, de cônjuge ou de cidadão, quando realizo os compromissos que contraí, cumpro os deveres que estão definidos, exteriores a mim e aos meus actos, no direito e nos costumes."

• O suicídio egoísta é a manifestação de uma integração social demasiado fraca (quando a sociedade não exerce senão um fraco controlo sobre o indivíduo, aparece uma «indivualização desmesurada») e observa-se em diferentes domínios da vida social: a taxa de suicídio é, por exemplo, sensivelmente mais elevada nos protestantes do que nos católicos e mais alta nos católicos do que nos judeus. A ex-plicação reside, para Durkheim, no grau de individualismo próprio a cada religião: este é muito fraco nos judeus, onde o sentimento de pertença a uma comunidade é muito elevado, é mais considerável nos católicos, que conhecem não obstante uma integração social forte ligada à influência da Igreja, enquanto é entre os protestantes que o «livre arbítrio» está mais desenvolvido e o clero menos presente na vida social. Durkheim pode daí concluir que a religião preserva do suicídio, não porque o dogma religioso condene esse acto, mas porque ela participa na integração social dos indivíduos, inserindo-os num grupo, o que tem por efeito reforçar as suas relações sociais.
• O suicídio altruísta caracteriza-se, ao invés do suicídio egoísta, por uma integração social demasiado forte. Como escreve Durkheim: «Quando o homem está desvinculado da sociedade, mata-se facilmente, e mata-se também quando está fortemente integrado nela». Este caso de suicídio é característico das sociedades primitivas onde o individualismo é muito fraco. Subsiste também como forma de sobrevivência nas sociedades modernas, como na sociedade militar (Durkheim nota que a taxa de suicídio é mais elevada nos militares do que nos civis), quando a pressão da hierarquia se impõe fortemente ao indivíduo.
• Durkheim define enfim o suicídio anómico (este tipo de suicídio é aquele ao qual ele concede mais importância), que corresponde a uma falta de regulação social e se opõe directamente ao suicídio altruísta relacionado com uma regulação social excessiva. O suicídio anómico representa assim a forma mais corrente de suicídio nas sociedades modernas. As desregulações sociais sobrevêm quando à sociedade se deparam mutações profundas: os indivíduos encontram-se por isso numa situação inédita, visto que as suas referências habituais já não são operantes, o que significa que os seus desejos já não são socialmente circunscritos (são ilimitados), enquanto os objectivos que lhes são oferecidos, vulgarmente definidos de modo claro, se tornam indeterminados. Durkheim observa sobre este assunto um facto que, à primeira vista, poderia parecer surpreendente: os suicídios progridem durante os períodos de transformações económicas, tanto nos momentos de crise como nos de forte crescimento. De facto, nestas situações de mudança social rápida, a influência moderadora da sociedade, que habitualmente modela os desejos dos indivíduos, afrouxa, enquanto as aspiraçõe tendem a aumentar bruscamente sem que possam necessariamente ser satisfeitas.
"Porque a prosperidade aumentou, os desejos estão exacerbados. A presa mais rica que lhes é oferecida estimula-os, torna-os mais exigentes, mais impacientes a respeito de qualquer regra, justamente quando as regras tradicionais perderam a sua autoridade."
Durkheim considera em consequência que o suicídio anómico é particularmente preocupante nas sociedades modernas, visto estar estreitamente ligado à falta de controlo que nelas a sociedade exerce sobre o indivíduo. Ele nota, a este propósito, que as funções industriais e comerciais, que são objecto de uma fraca regulamentação, são igualmente as mais tocadas pelo suicídio.
Durkheim demonstrou assim magistralmente no seu estudo, contrariando o «senso comum», para o qual o suicídio não pode resultar senão de uma decisão individual, que as lógicas sociais podem influenciar as variações das taxas de suicídio de uma população.
Admitindo-se, na sequência de Durkheim, que o suicídio constitui um facto social, pode-se então perguntar até onde o sociólogo deve prosseguir a sua pesquisa a fim de «cercar» a presença do social nos diversos comportamentos humanos. O «social», efectivamente, não tem limites, posto que se manifesta pelo conjunto de acções do indivíduo na sociedade, mesmo através das que parecem a priori «íntimas» e «pessoais».
• Os sociólogos puderam assim demonstrar que a «escolha do cônjuge», longe de resultar apenas do «acaso», obedece a regularidades sociais, visto que, com efeito, o que quer que pensem os implicados, «a ‘faísca’, quando cai, não cai em qualquer lado». A homogamia, isto é, o facto de se escolher o cônjuge no mesmo meio social, constitui assim uma tendência afirmada no seio da sociedade francesa, já que, por exemplo, perto de 8 em cada 10 agricultores casam com uma agricultora, enquanto menos de 2 % de quadros partilham a sua existência com uma operária. O casamento mais frequente em França é o de um operário e uma empregada (abrange perto de 60 % dos operários, os outros desposando maioritariamente operárias, menos numerosas do que os operários na população activa).
Como explicar a regularidade deste facto social, já assinalado nos finais dos anos 50 pelo sociólogo francês Alain Girard, quando o sentimento amoroso se substituiu progressivamente à influência familiar, cuja pressão sobre os cônjuges já não se exerce senão de forma indirecta? Primeiro elemento: para casar com alguém é preciso primeiro tê-lo encontrado! É assim possível estabelecer relações entre os lugares de encontro dos (futuros) cônjuges e as suas propriedades sociais. Os membros dos meios populares travam maioritariamente conhecimento nos lugares públicos (festa, baile, rua, café, centro comercial), os quadros do sector privado em lugares privados (festas de família ou entre amigos), ao passo que as categorias fortemente escolarizadas se encontram na maior parte das vezes em lugares reservados (universidade, associação, clube desportivo). Os lugares de sociabilidade diferem sensivelmente em função do meio social, mas por si sós não poderiam explicar a homogamia. As qualidades procuradas no cônjuge revelam-se, com efeito, variáveis em função da posição ocupada no espaço social e fornecem assim uma ilustração da diversidade de princípios do juízo amoroso. As mulheres dos quadros superiores, inter-rogadas sobre as suas expectativas, dão prioridade ao lado «securizante» e à «inteligência» dos seus cônjuges, enquanto as mulheres de operários apreciam particularmente o lado «sério» e o facto de os seus maridos serem «trabalhadores». Os juízos sociais referentes aos parceiros são portanto indissociáveis do conjunto de juízos de «gosto» e, a este título, informam sobre a identidade social da pessoa que os enuncia. À maneira da senhora de Quesnay ao invocar o casamento das suas filhas sem ter necessariamente consciência do que estava a dizer: «Para todas foi o jogo do acaso, o acaso total. A mais velha, que casou com um d’Arsonval, família que conhecemos desde sempre, foi convidada para uma caçada, mas não tinha meio de transporte para lá se deslocar. E muito simplesmente alguém lhe disse ‘mas telefonai a Hubert d’Arsonval’, e pronto!»
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Sociologia e perspectivação científica

Ler capítulo anterior: O Que é a Sociologia? ( capítulo precedente )
por: Philippe Riutort
Ano de edição 1999
ISBN: 972-662-692-7
Editora Gradiva
II. Sociologia e perspectivação científica
1. A constituição da sociologia como disciplina científica está estreitamente ligada à obra de Émile Durkheim, que define os princípios do método sociológico
De formação filosófica, Durkheim vira-se rapidamente para o estudo da vida social e procura dotar a sociologia de uma metodologia própria.
Na sua obra As Regras do Método Sociológico (1895) afirma que «os factos sociais devem ser tratados como coisas», o que significa que o sociólogo deve conservar uma certa distância relativamente ao seu objecto de estudo, a fim de afastar sistematicamente todas as prenoções, isto é, os preconceitos e as falsas evidências que ameaçam, em cada instante, introduzir-se na sua análise. O sociólogo, como todo o cientista, deve assim desconfiar da ilusão do saber imediato, visto que não é senão após ter construído previamente com rigor o seu objecto de estudo que se encontra em condições de fazer uma «descoberta».
De uma certa maneira, os obstáculos parecem mais consideráveis em sociologia e, em geral, nas ciências sociais (psicologia, antropologia, economia, ciência política ...) do que nas ciências da natureza. O estudo dos fenómenos sociais não constitui senão raramente um «monopólio» de facto para o sociólogo: a sua análise toma lugar entre um conjunto de intervenções (de homens políticos, de jornalistas, de administradores ... ou mesmo de todos em conjunto) que visam determinar quais são os «problemas sociais» do momento. Se o sociólogo não pode refugiar-se numa torre de marfim a fim de se isolar do mundo social que é suposto estudar, não pode também retomar à sua conta, sem crítica prévia, as questões colocadas por outros, com preocupações muito frequentemente afastadas do exclusivo intento de conhecimento científico.
Perguntar se «a classe operária está em vias de desaparecimento» ou circunscrever as causas do «mal-estar das áreas suburbanas» pode parecer legítimo, mas estes assuntos, encarados de um ponto de vista sociológico, necessitam de ser colocados de outro modo, posto que a linguagem empregue para descrever estas «realidades» sociais transporta já em si mesma todo um conjunto de «problemas» que o sociólogo se deve esforçar por desenredar. A questão do «fim da classe operária» obriga, com efeito, a uma interrogação prévia sobre as transformações desencadeadas no seio do mundo operário desde — pelo menos — a crise económica de 1974 (evolução numérica, transformação dos empregos operários, aparecimento durável de um desemprego de massa e mudanças na maneira de «viver» a condição operária). Convém igualmente focar retrospectivamente a diversidade do mundo operário francês (diferenças de estatuto, de qualificação, mas também particularidades ligadas às tradições locais, aos tipos de profissões), a fim de fazer voar em estilhaços a imagem de Épinal de uma «classe operária unida», a qual se precipitaria num «inexorável declínio» que impediria nomeadamente a captação das recomposições em curso. Quanto à «doença das áreas suburbanas», é preciso lembrar tudo quanto esta questão deve à encenação jornalística que estabelece demasiado frequentemente uma comparação «selvagem» entre a situação francesa e a situação americana, sendo suposto a primeira reproduzir o «modelo» da segunda. Se é verdade que certos «factos objectivos» se encontram tanto nas «áreas suburbanas francesas» como nos «guetos americanos» (forte presença de minorias étnicas, aumento sensível e rápido da população, nomeadamente juvenil, taxa de desemprego elevada), vários traços distinguem nitidamente os dois universos: uma diferença de dimensão de mais de um para dez que faz do gueto americano uma verdadeira «cidade», ao passo que o subúrbio francês permanece um bairro periférico; a segregação racial, que é uma característica maior do gueto enquanto a pluralidade étnica é geralmente a regra nas aglomerações suburbanas. Por outro lado, a amplitude da pobreza e da criminalidade e a degradação do quadro de vida atingem dimensões no gueto dificilmente imagináveis nas aglomerações suburbanas. Existe pois aqui uma diferença de natureza, e não somente de grau, entre as duas situações. É preciso portanto desconfiar das comparações apressadas, cujo objectivo (inconsciente?) consiste, na maior parte das vezes, em «dramatizar» um problema, o que leva muitas vezes ao seu obscurecimento sob a capa da simplificação.
O sociólogo arrisca pois a ver-se arrastado num terreno que não é o seu ao ceder à tentação do profetismo e, armado apenas com o «ar do tempo», acha-se transformado em arauto do futuro («A que se assemelhará a sociedade francesa no ano 2020?»). Faz então lembrar a cartomância e as suas «predições» são para apreciar com a maior prudência.
O sociólogo deve apetrechar-se metodologicamente a fim de afastar as falsas evidências e redefinir o problema que lhe é colocado a partir das suas próprias preo-cupações, isto é, com o intuito de produzir conhecimento. Émile Dukheim alertava já contra essses perigos, visando assegurar a ruptura com as prenoções. Defendeu designadamente o uso das estatísticas, assim como o recurso ao método da definição prévia, a fim de se ganhar distância relativamente às significações ordinárias de um fenómeno. Numa obra tornada um clássico da sociologia, O Suicídio (1897), Durkheim demonstra que este acto, que tem, aparentemente, todos os atributos do acto individual, obedece, na realidade, a regularidades sociais. Ele propõe, assim, uma definição prévia do suicídio apreendido como «qualquer caso de morte que resulta directa ou indirectamente de um acto positivo ou negativo, realizado pela própria vítima que sabe que o resultado se vai produzir». Ele inclui, por exemplo, no seu objecto de pesquisa o sacrifício do combatente ou do mártir e demarca-se deste modo da definição habitual de suicídio. Durkheim interessa-se, de facto, através deste estudo, pelo que designa como taxa social de suicídio, que mede «a relação entre o número global de mortes voluntárias e a população de qualquer idade e de ambos os sexos». A utilização de estatísticas permite-lhe assim verificar a regularidade da taxa de suicídio num período longo e cingir, a partir de variáveis tais como a idade, o sexo, o lugar de residência, a religião, o estado civil ..., as características sociais dos suicidados, a fim de explicar as determinações sociais que pesam sobre este acto.
• Uma outra via de ruptura possível com as prenoções consiste em realizar um inquérito no terreno. O sociólogo americano Samuel Stouffer, num estudo colectivo publicado em 1949 sobre o «soldado americano», faz notar um facto surpreendente: ainda que as oportunidades «objectivas» de promoção social sejam mais numerosas na aviação do que na polícia, as satisfações profissionais sentidas pelos agentes da polícia são mais importantes do que as dos da aviação. Assim, como escreveu o sociólogo americano Robert Merton, «quanto menos elevado é o ritmo de promoção, mais as pessoas têm opiniões favoráveis sobre as suas oportunidades de promoção». Este paradoxo revelado pelo inquérito suscitou o aparecimento de um novo conceito: a frustração relativa. Os analistas deram-se conta de que, na realidade, ao indivíduo não importa tanto a situação «objectiva» em que vive como as normas de seu grupo de referência, isto é, aquele com o qual o mesmo indivíduo se identifica duradouramente e que por vezes pode, de resto, diferir daquele a que realmente pertence. Uma promoção rápida não é verdadeiramente imaginável para aquele que pertence a uma organização (tal como a polícia nos Estados Unidos no momento do inquérito ao «soldado americano») no seio da qual as ascensões são habitualmente lentas e pouco frequentes. A mesma promoção é da ordem da evidência para aquele que evolui num grupo de forte mobilidade, tanto mais quanto ele for, por exemplo, fortemente escolarizado. Quando ela não se concretiza, o indivíduo sentirá uma certa frustração, posto que não serão satisfeitas as suas expectativas perante as normas em vigor no seu grupo de referência. A frustração social não está portanto necessariamente ligada a uma situação «objectiva», mas mais à percepção que dela se tem. Procede assim de um desencontro entre as esperanças forjadas pelos indivíduos e a situação que são levados a encontrar ulteriormente: esta teoria subestima o «senso comum», demonstrando que não são necessariamente os indivíduos colocados numa situação «objectivamente» mais desfavorável que vivem um sentimento de frustração e que podem ser levados, seguidamente, a manifestar o seu descontentamento.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
O QUE É A SOCIOLOGIA?

por: Philippe Riutort
Ano de edição 1999
ISBN: 972-662-692-7
Editora Gradiva
O QUE É A SOCIOLOGIA?
Como se pode ser sociólogo?
A sociologia enquanto disciplina científica teve o seu aparecimento no decurso do século XIX. É precedida por múltiplos saberes saídos de diversas correntes do pensamento que procuram explicações e sobretudo «remédios» para os «problemas» ligados às transformações sociais de grande amplitude que atingiram as sociedades europeias a partir do fim do século XVIII. A emergência de «questões sociais» de um novo género gera assim o nascimento da sociologia, que, progressivamente, ao emancipar-se da filosofia social, formula as suas próprias interrogações de alcance científico, com a ajuda de princípios enunciados desde o fim do século passado pelos seus «pais fundadores».
I. A emergência da sociologia no século XIX
1. A sociologia surge enquanto disciplina científica no decurso do século XIX.
O século XIX é marcado na Europa por profundas mutações. As transformações políticas inscrevem-se no prolongamento da Revolução Francesa. O afundamento do Antigo Regime conduz a que fique em causa a ordem tradicional, fundada na monarquia absoluta, a divisão da sociedade em ordens, assim como o lugar central concedido à religião na vida social. A Revolução Francesa, ao proclamar a igualdade jurídica entre os cidadãos, põe em questão os fundamentos da ordem política. Esta não procede daí em diante da vontade do príncipe, posto que o absolutismo é recusado em nome da proclamação de novos princípios, tais como a liberdade, a razão, o progresso ... As transformações económicas e sociais estão ligadas à revolução industrial, que, do fim do século XVIII ao princípio do século XIX, com origem na Grã-Bretanha, ganha progressivamente os outros países europeus e, seguidamente, os Estados Unidos e o Japão. Caracteriza-se pela passagem de uma sociedade rural a uma sociedade urbana, o que arrasta uma profunda mudança das estruturas sociais existentes (desaparecimento progressivo, por exemplo, das solidariedades camponesas fundadas num conjunto de tradições e de práticas de sociabilidade tais como as festas populares, os ritos de passagem ...). O sociólogo alemão Ferdinand Tönnies (1855-1936) sublinha, em 1887, a oposição entre dois tipos de organização social: a comunidade e a sociedade. A primeira, dominada pelos vínculos tradicionais, a afectividade e o espírito de grupo, apoia-se principalmente na família e nas solidariedades locais, enquanto a segunda, que assenta mais no interesse individual, no cálculo e nas relações impessoais, tende a impor-se no seio da sociedade industrial.
Em paralelo, a revolução agrícola realizada no decurso do século xviii permite progressivamente às actividades industriais beneficiar de um afluxo de mão-de-obra. O desenvolvimento da indústia acompanha-se, com efeito, de uma urbanização maciça que provém sobretudo do êxodo rural. A organização da sociedade encontra-se então profundamente transformada, o que modifica sensivelmente os «equilíbrios» estabelecidos entre grupos sociais: assiste-se, assim, no decurso do processo de urbanização, à formação da classe operária, ao crecimento contínuo da burguesia, assim como ao declínio relativo da nobreza.
Os principais sociólogos do século XIX interrogam--se sobre a amplitude das transformações das sociedades europeias que se desenrolam sob os seus olhos no momento em que concebem as suas obras. O pensamento de três figuras centrais da sociologia do século XIX e do início do século XX estão profundamente impregnados disso mesmo.
Émile Durkheim (1858-1917), fundador da escola francesa de sociologia, preocupado com os fundamentos da coesão social e da sua evolução, estuda assim a passagem da solidariedade mecânica, fundada na similitude, característica das sociedades tradicionais, à solidariedade orgânica, fundada na complementaridade e produzida pelo processo de divisão do trabalho, que se afirma na sociedade industrial.
Karl Marx (1818-1883), militante revolucionário, filósofo, economista, mas igualmente sociólogo, ao tornar-se o teórico de um socialismo que anuncia como científico, interessa-se pelo processo de desenvolvimento capitalista e tenta revelar as suas contradições internas, insistindo particularmente nas oposições de classe, segundo ele, inelutáveis no seio da sociedade capitalista e que prefiguram o advento de uma sociedade sem classes: a sociedade comunista.
Max Weber (1864-1920), um dos primeiros e dos principais sociólogos alemães, abre o caminho à sociologia comparativa ao interrogar-se sobre as particularidades da civilização ocidental, caracterizada, segundo ele, por um processo de racionalização ou, segundo a sua célebre fórmula, de «desencantamento do mundo», que é traduzido pelo recurso crescente à previsão e ao cálculo, assim como ao abandono progressivo dos impulos mágicos no conjunto dos domínios da vida social: da ciência à arte, passando pela religião, pelo poder político e pela economia.
Se as obras dos principais sociólogos do século XIX e do início do século XX dão testemunho das preocupações sociais do seu tempo, elas sustentam-se igualmente num saber prévio, que se prende já ao desencadear de conhecimentos, a partir de uma observação minuciosa da sociedade.
2. Um saber sobre a sociedade anterior à sociologia
A sociologia nascente enquanto disciplina constituída não poderia emergir dos cérebros de alguns «inventores». Todo um conjunto de interrogações precedem ou acompanham o seu aparecimento. O exercício que consiste em determinar com precisão as origens da sociologia parece vão, posto que reverteria, ao lançar-se numa pesquisa interminável, em fazer surgir o seu aparecimento num passado sempre mais longínquo («Há em germe um pensamento sociológico em Platão?», com os riscos de anacronismo que esta questão recobre). É no entanto útil insistir sobre diferentes questionamentos, a maior parte anteriores à afirmação da disciplina sociológica e que, embora distintos em numerosos pontos, partilham o desejo da descoberta de princípios que regem a organização da vida em socie- dade.
• Vários autores tradicionalistas, do escritor britânico Edmund Burke (1729-1797) aos autores franceses Joseph de Maistre (1753-1821) e Louis de Bonald (1754-1840), criticam o individualismo proclamado pela Revolução Francesa, que é tido por uma pura abstracção vazia de sentido, visto que, segundo eles, a sociedade não poderia proceder apenas da razão, insensível às redes de relações concretas que encerram o indivíduo numa comunidade de pertença. A corrente tradicionalista interessa à sociologia, pois vai dar lugar, a partir de uma visão critíca — simultaneamente da Revolução Francesa e da industrialização —, a vastos inquéritos: a obra de Frédéric Le Play (1806-1882), que foi engenheiro e senador sob o Segundo Império (1867), em particular Os Operários Europeus (1885), caracteriza-se por uma viva preocupação de descrição das condições de vida dos meios populares e desemboca na realização de monografias1.
• A «questão social» que designava no século XIX o conjunto de problemas ligados ao aparecimento do mundo operário dá lugar a uma corrente crítica da industrialização, o «socialismo utópico», encarnado em França por Claude-Henri de Saint-Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1837) e Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Preocupa igualmente as camadas dirigentes: a concentração de uma população miserável nas cidades desencadeia os medos relacionados com a promiscuidade. Numerosos estudos são assim realizados pelos poderes públicos e pelas sociedades científicas a fim de circunscrever essa população «com problemas»: um dos inquéritos mais importantes foi conduzido pelo Dr. Villermé, que, no Quadro do Estado Físico e Moral dos Operários Empregados nas Manufacturas de Algodão, de Lã e de Seda (1840), traça um retrato sem complacência da condição operária.
• A sociologia nascente é igualmente influenciada por uma outra tradição que se inscreve no racionalismo saído das Luzes: concretiza-se a partir da observação de Montesquieu (1869-1755), que, no Espírito das Leis (1748), proclama não ter retirado os seus princípios dos seus preconceitos, mas da natureza das coisas, desejando consagrar-se «ao que é, e não ao que deve ser», assim como dos trabalhos de Condorcet (1743-1794), que, no seu Esboço de Um Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano (1793) introduz a «matemática social», isto é, a elaboração de leis científicas fundadas na observação das regularidades estatísticas. Os progressos realizados, a partir do início da século XIX, pela estatística, primitivamente encarregue, em nome do estado, da demografia (o recenseamento da população), permitem-lhe ganhar novos domínios. Tomando a designação de «estatística moral», estende-se tanto à economia, a fim de avaliar os recursos potenciais do estado, como às questões judiciárias: a estatística judiciária conhece assim um desenvolvimento fulgurante em França com a implantação, a partir de 1827, da Contabilidade Geral da Administração da Justiça e com os trabalhos de Gabriel Tarde (1843-1904). O matemático, astrónomo e estatístico belga Adolphe Quetelet (1796-1874) tenta igualmente analisar o que designa como «propensão para o crime» e sua distribuição na sociedade com a ajuda de séries estatísticas destinadas a medir-lhe a permanência.
Na encruzilhada destas diferentes tradições emerge a corrente positivista, que se caracteriza, segundo os termos do seu principal representante, Auguste Comte (1798-1857), por uma recusa do «espírito metafísico». Para o positivismo, com efeito, nenhum conhecimento pode proceder a não ser da observação e da experiência. Comte, que foi o inventor do termo «sociologia», fala igualmente de «física social» para designar o estudo «científico» do mundo social, posto que, confiando nos progressos da ciência, entende que a sociologia pode atingir num futuro próximo o rigor das «ciências da natureza». Enuncia assim a lei dos três estados, segundo a qual o desenvolvimento da humanidade passaria por três fases sucessivas.
O estado teológico é dominado pelo sobrenatural e corresponde historicamente à Idade Média.
O estado metafísico está marcado pelo aparecimento de princípios abstractos que enunciam uma ideia geral do homem e triunfam sob a Revolução francesa.
O estado positivo corresponde à fase de maturidade caracterizada, aquando do aparecimento da sociedade industrial, pela descoberta, graças à observação científica, dos princípios organizadores da sociedade.
Se o pensamento de Comte, profundamente evolucionista (a humanidade é suposta evoluir por etapas, cada uma das quais constituiria um progresso relativamente à precedente), foi criticado neste ponto, a sua preocupação em dotar a sociologia de bases científicas constitui um contributo considerável, tendo sido notável a sua influência sobre a sociologia francesa nascente e em particular sobre Émile Durkheim.

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