quarta-feira, 8 de abril de 2009

Sociologia e Religião - II


Outro autor clássico da Sociologia,Karl Marx,também analisa a importância da religião para as sociedades,mas de uma outra forma:

A religião é o suspiro da criatura oprimida,o coração de um mundo sem coração,assim como é o espírito de uma situação sem espiritualidade,ela é o ópio do povo.

Para Marx,a religião não faz o homem,mas é o homem que faz a religião.A religião é a expressão de um sofrimento real dos homens,ou seja, eles têm necessidade de acreditar em algo para aliviar seus sofimentos,como o ópio.Por outro lado,segundo Marx, as classes dominantes utilizam-se da religião como ideologia para dominar os oprimidos e explorados.Portanto, a religião é vista como ilusão, ideologia que contribui para justificar uma dominação de classe. Marx e os marxistas fornecem exemplos disso: quando as igrejas afirmam que os pobres devem se conformar com sua condição de pobreza,pois o mundo foi criado por Deus e assim sempre será.

Max Weber,foi outro sociólogo que também estudou as religiões. Para ele, é na compreensão dos comportamentos religiosos que podemos entender melhor a atividades humanas, pois a religiosidade influencia também outras atividades humanas como a ética, a economia, a política ou as artes. Em seus estudos, por exemplo, ele tentou provar que houve uma mudança na concepção de trabalho a partir da ética protestante. Se na Antiguidadeo trabalho era visto pelos homens como uma coisa penosa e vil, na Idade Média, como fruto do pecado original e como tortura, com o aparecimento do capitalismo, combinando com a nova ética protestante, o trabalho passa a ser visto como êxito da vida mundana,expressão das bençãos divinas, pois, assim, se cumprirá uma vocação e a garantia da graça divina. Segundo Weber, essa concepção de trabalho, protestante e puritana, servirá perfeitamente para o aparecimento do capitalismo, que necessitava de trabalhadores para gerar capital e lucros para a burguesia.

Sociologia para jovens do século XXI- Luiz Fernandes de Oliveira e Ricardo Cesar Rocha da Costa

terça-feira, 17 de março de 2009

Sociologia e Religião- I



Comida

Titãs

Composição: Arnaldo Antunes / Marcelo Fromer / Sérgio Britto

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte...

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer...

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...

A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Prá aliviar a dor...

A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade...

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...


Diversão e arte
Para qualquer parte
Diversão, balé
Como a vida quer
Desejo, necessidade, vontade
Necessidade, desejo, eh!
Necessidade, vontade, eh!
Necessidade...



Émile Durkheim,um dos fundadores da Sociologia,escreveu no século XIX:

Diz-se que a ciência,em princípio,nega a religião.Mas a religião existe.Constitui-se num sistema de fatos dados.Em uma palavra:como poderia a ciência negar tal realidade?

Para Durkheim,toda religião tem como característica separar o mundo em coisas profanas e coisas sagradas.Nas coisas profanas os indivíduos têm atitudes utilitárias,ou seja,objetos,idéias e coisas que,quando não servem mais,podem ser descartados,pois só têm valor na medida em que são úteis.Nas coisas sagradas ocorre o contrário,objetos,idéias e coisas assumem um valor superior ao homem,é reverenciado.O homem não é mais o centro do universo,nem a origem das coisas:

Sente-se dominado e envolvido por algo que dele dispõe e sobre ele impõe normas de comportamento que não podem ser transgredidas,mesmo que não apresentem utilidade alguma.

(Alves,1984).

Estas características,para Durkheim,revelam que a religião é uma das fontes na qual se criam regras de comportamento,normas e garantias de harmonia entre os homens.


Sociologia para jovens do século XXI-Luiz Fernandes e Ricardo Cesar Rocha da Costa


domingo, 1 de março de 2009

Sociologia e objectividade III



ir para:Texto anterior


  • I A perspectiva da sociologia
  • II Sociologia e perspectivação científica
  • a) O objecto de estudo da Sociologia
  • III Sociologia e objectividade





  • III. Sociologia e objectividade
    1. O sociólogo deve tentar evitar juízos de valor que ameacem a qualquer momento irromper na sua análise
    O sociólogo alemão Max Weber insistiu particularmente neste ponto distinguindo juízo de valor e referência aos valores: o juízo de valor, que consiste em expor os seus a prioris e em avaliar as acções de outrem a partir dos seus próprios princípios, é de proscrever em sociologia, ao passo que a referência aos valores pode, pelo contrário, guiar o sociólogo na sua actuação. Trata-se de seleccionar certos aspectos de um fenómeno em função das interrogações prévias do sociólogo: este, com efeito, recorta a realidade social que escolhe estudar em função dos seus próprios centros de interesse.
    Para Weber, o sociólogo deve principalmente esforçar--se por obter a significação que um indivíduo dá à sua acção. É a razão pela qual a actuação que ele preconiza é chamada «compreensiva»: visa compreender os motivos que levam o indivíduo a adoptar um tipo de comportamento. Weber distingue assim quatro formas de acção social, isto é, vários modelos de acção possíveis para um indivíduo.
    A acção tradicional apoia-se nos costumes e nos hábitos adquiridos e caracteriza o conjunto das actividades familiares ao indivíduo: obedecer ao seu pai é uma acção tradicional.

    A acção afectiva é orientada por pulsões tais como o amor ou o ódio sentido em relação a outrem.
    A acção racional referente a valores visa a conformidade com as convicções sem dar importância às suas consequências práticas: o militar que, após uma derrota, se mata fornece disso uma ilustração.
    A acção racional em termos de finalidades consiste em avaliar os meios disponíveis a fim de atingir um objectivo previamente fixado: o engenheiro que manda construir uma ponte procede dessa maneira.
    Estas categorias de acção não pretendem enumerar precisamente as actividades sociais em toda a sua extensão, posto que Weber assinala que a maioria de entre elas relevam, na prática, de formas mistas. Elas derivam do método do ideal-tipo segundo a definição que dele dá Weber, isto é, um «quadro de pensamento» ou um modelo abstracto elaborado a partir de certos traços voluntariamente salientados de um fenómeno: o sociólogo aprecia então o desvio existente entre a «realidade» que observa e o quadro imaginário que constrói. Esta abordagem não está muito afastada da análise do economista (o que não é surpreendente, pois Max Weber foi economista antes de se virar para a sociologia) que confronta o modelo do mercado de concorrência pura e perfeita com os diferentes tipos de mercados existentes. O ideal-tipo permite assim a Weber entregar-se a uma tarefa de sociologia comparativa, pondo à prova a sua definição ideal-típica da cidade, da burocracia, do capitalismo ... em situações observáveis nas diversas sociedades e em diferentes épocas.

    2. Se o sociólogo não faz prova de uma «objectividade perfeita» que permanece ilusória, deve, contudo, esforçar-se por analisar com precisão a sua relação com o objecto
    Max Weber preconizava a neutralidade axiológica, isto é, a separação nitída entre os juízos morais próprios do investigador e a sua análise científica. Esta louvável intenção é, no entanto, frequentemente difícil de aplicar: não basta que o sociólogo proclame não agir senão en função da sua «ética» científica para que o problema desapareça. O sociólogo não «flutua no ar», não está separado de toda a trama prática, uma vez que ocupa necessariamente uma posição específica no espaço social, é originário de um meio social, possui «gostos» e «repulsas» particulares ... Este agente social tem a «missão» singular de compreender o que fazem os agentes sociais e de dar conta disso mesmo. Ele não pode, por conseguinte, apresentar a sua «ciência» e adoptar uma posição «de superioridade», cara ao analista que se pronuncia «com toda a objectividade», isto é, em nome da ciência, para dar solução a debates cujas tramas nem sempre têm que ver com questões de ordem científica («Quais são as prioridades dos Franceses?», dando apenas um exemplo).

    O sociólogo ganha em esclarecer a distância ou a proximidade — obstáculos que aliás se podem sobrepor — que mantém com o seu objecto de estudo. Dito de outra maneira, deve renunciar a fazer crer que os seus «títulos» constituem um passaporte suficiente para a compreensão sem dificuldade de uma situação social. Segundo a fórmula do sociólogo francês Pierre Bourdieu, o sociólogo tem todo o interesse em objectivar a objectivação, isto é, em encarar o mundo social como um objecto (como preconizava Durkheim) e, do mesmo passo, em incluir-se na análise sociológica. Se um olhar neutro sobre o objecto parece efectivamente impossível, uma socioanálise permite levar em conta o «olhar» particular que o sociólogo lança sobre o seu objecto e o incita a redobrar a vigilância perante as prenoções que ameaçam sempre imiscuir-se na análise.


    terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

    O objecto de estudo da sociologia foi determinado por Émile Durkheim em As Regras do Método Sociológico (1895)




    Ler capítulo anterior:

    Sociologia e perspectivação científica( capítulo II )



    PRIMEIRAS LIÇÕES DE SOCIOLOGIA
    por: Philippe Riutort

    tradução de: Eduardo de Freitas
    Nº de páginas 140
    Ano de edição 1999
    ISBN: 972-662-692-7
    Editora Gradiva



    2. O objecto de estudo da sociologia foi determinado por Émile Durkheim em As Regras do Método Sociológico (1895)
    No seu difícil empreendimento de construção da sociologia como disciplina de corpo inteiro (durante muito tempo titular de uma cadeira de Ciências da Educação, não é, com efeito, senão em 1913 que ele obtém o título de professor de Sociologia e Ciências da Educação na Sorbonne), Durkheim dedica-se a conferir um objecto próprio à sociologia, que, segundo ele, se deve demarcar das outras disciplinas existentes, tais como a Psicologia, a História, a Economia ...


    Para Durkheim, a singularidade da sociologia reside no estudo do facto social, irredutível, em virtude das suas características próprias, ao facto psicológico e que exige uma investigação específica. Ao escolher estudar o suicídio, Durkheim recusa assim globalmente as abordagens psicológicas e afirma que (contrariamente às aparências) este fenómeno constitui na verdade um facto social, isto é, o contexto social exerce uma influência mensurável através da análise das variações da taxa de suicídio. O suicídio preenche os critérios do facto social enunciados em As Regras do Método Sociológico: um facto social consiste, segundo Durkheim, «em maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo dotadas de um poder de coerção por força da qual se impõem àquele». Dito de outra maneira, o facto social apresenta as características seguintes: trata-se de um fenómeno colectivo, anterior e exterior à consciência individual sobre a qual aquele exerce um constrangimento. Durkheim insiste em As Regras no facto de o indivíduo, enquanto ser social, interiorizar um conjunto de princípios que influenciam as suas acções sem que disso se dê necessariamente conta.


    "Quando me entrego à minha tarefa de irmão, de cônjuge ou de cidadão, quando realizo os compromissos que contraí, cumpro os deveres que estão definidos, exteriores a mim e aos meus actos, no direito e nos costumes."

    Se a sociologia tem por domínio o estudo dos factos sociais que devem ser apreendidos como «coisas», então o sociólogo deve aplicar-se a «explicar o social pelo social» e afastar assim todo o tipo de explicação «extra-social» que não é do seu foro. Em O Suicídio, Durkheim examina uma a uma as explicações de ordem psicopatológica que imputam o suicídio, nomeadamente, à loucura, às considerações assentes na hereditariedade, ao clima, à imitação, explicações que ele tem o cuidado de ir invalidando sucessivamente. Seguidamente, com o apoio das estatísticas, vem mostrar uma tipologia de suicídios pela qual distingue três tipos principais: o suicídio egoísta, o suicídio altruísta, o suicídio anómico e, em esboço, um quarto: o suicídio fatalista. Existe para Durkheim uma relação entre a taxa de suicídio verificada e o nível de integração e de regulação sociais.


    • O suicídio egoísta é a manifestação de uma integração social demasiado fraca (quando a sociedade não exerce senão um fraco controlo sobre o indivíduo, aparece uma «indivualização desmesurada») e observa-se em diferentes domínios da vida social: a taxa de suicídio é, por exemplo, sensivelmente mais elevada nos protestantes do que nos católicos e mais alta nos católicos do que nos judeus. A ex-plicação reside, para Durkheim, no grau de individualismo próprio a cada religião: este é muito fraco nos judeus, onde o sentimento de pertença a uma comunidade é muito elevado, é mais considerável nos católicos, que conhecem não obstante uma integração social forte ligada à influência da Igreja, enquanto é entre os protestantes que o «livre arbítrio» está mais desenvolvido e o clero menos presente na vida social. Durkheim pode daí concluir que a religião preserva do suicídio, não porque o dogma religioso condene esse acto, mas porque ela participa na integração social dos indivíduos, inserindo-os num grupo, o que tem por efeito reforçar as suas relações sociais.

    O suicídio altruísta caracteriza-se, ao invés do suicídio egoísta, por uma integração social demasiado forte. Como escreve Durkheim: «Quando o homem está desvinculado da sociedade, mata-se facilmente, e mata-se também quando está fortemente integrado nela». Este caso de suicídio é característico das sociedades primitivas onde o individualismo é muito fraco. Subsiste também como forma de sobrevivência nas sociedades modernas, como na sociedade militar (Durkheim nota que a taxa de suicídio é mais elevada nos militares do que nos civis), quando a pressão da hierarquia se impõe fortemente ao indivíduo.
    • Durkheim define enfim o suicídio anómico (este tipo de suicídio é aquele ao qual ele concede mais importância), que corresponde a uma falta de regulação social e se opõe directamente ao suicídio altruísta relacionado com uma regulação social excessiva. O suicídio anómico representa assim a forma mais corrente de suicídio nas sociedades modernas. As desregulações sociais sobrevêm quando à sociedade se deparam mutações profundas: os indivíduos encontram-se por isso numa situação inédita, visto que as suas referências habituais já não são operantes, o que significa que os seus desejos já não são socialmente circunscritos (são ilimitados), enquanto os objectivos que lhes são oferecidos, vulgarmente definidos de modo claro, se tornam indeterminados. Durkheim observa sobre este assunto um facto que, à primeira vista, poderia parecer surpreendente: os suicídios progridem durante os períodos de transformações económicas, tanto nos momentos de crise como nos de forte crescimento. De facto, nestas situações de mudança social rápida, a influência moderadora da sociedade, que habitualmente modela os desejos dos indivíduos, afrouxa, enquanto as aspiraçõe tendem a aumentar bruscamente sem que possam necessariamente ser satisfeitas.
    "Porque a prosperidade aumentou, os desejos estão exacerbados. A presa mais rica que lhes é oferecida estimula-os, torna-os mais exigentes, mais impacientes a respeito de qualquer regra, justamente quando as regras tradicionais perderam a sua autoridade."


    Durkheim considera em consequência que o suicídio anómico é particularmente preocupante nas sociedades modernas, visto estar estreitamente ligado à falta de controlo que nelas a sociedade exerce sobre o indivíduo. Ele nota, a este propósito, que as funções industriais e comerciais, que são objecto de uma fraca regulamentação, são igualmente as mais tocadas pelo suicídio.
    Durkheim demonstrou assim magistralmente no seu estudo, contrariando o «senso comum», para o qual o suicídio não pode resultar senão de uma decisão individual, que as lógicas sociais podem influenciar as variações das taxas de suicídio de uma população.


    Admitindo-se, na sequência de Durkheim, que o suicídio constitui um facto social, pode-se então perguntar até onde o sociólogo deve prosseguir a sua pesquisa a fim de «cercar» a presença do social nos diversos comportamentos humanos. O «social», efectivamente, não tem limites, posto que se manifesta pelo conjunto de acções do indivíduo na sociedade, mesmo através das que parecem a priori «íntimas» e «pessoais».




    • Os sociólogos puderam assim demonstrar que a «escolha do cônjuge», longe de resultar apenas do «acaso», obedece a regularidades sociais, visto que, com efeito, o que quer que pensem os implicados, «a ‘faísca’, quando cai, não cai em qualquer lado». A homogamia, isto é, o facto de se escolher o cônjuge no mesmo meio social, constitui assim uma tendência afirmada no seio da sociedade francesa, já que, por exemplo, perto de 8 em cada 10 agricultores casam com uma agricultora, enquanto menos de 2 % de quadros partilham a sua existência com uma operária. O casamento mais frequente em França é o de um operário e uma empregada (abrange perto de 60 % dos operários, os outros desposando maioritariamente operárias, menos numerosas do que os operários na população activa).
    Como explicar a regularidade deste facto social, já assinalado nos finais dos anos 50 pelo sociólogo francês Alain Girard, quando o sentimento amoroso se substituiu progressivamente à influência familiar, cuja pressão sobre os cônjuges já não se exerce senão de forma indirecta? Primeiro elemento: para casar com alguém é preciso primeiro tê-lo encontrado! É assim possível estabelecer relações entre os lugares de encontro dos (futuros) cônjuges e as suas propriedades sociais. Os membros dos meios populares travam maioritariamente conhecimento nos lugares públicos (festa, baile, rua, café, centro comercial), os quadros do sector privado em lugares privados (festas de família ou entre amigos), ao passo que as categorias fortemente escolarizadas se encontram na maior parte das vezes em lugares reservados (universidade, associação, clube desportivo). Os lugares de sociabilidade diferem sensivelmente em função do meio social, mas por si sós não poderiam explicar a homogamia. As qualidades procuradas no cônjuge revelam-se, com efeito, variáveis em função da posição ocupada no espaço social e fornecem assim uma ilustração da diversidade de princípios do juízo amoroso. As mulheres dos quadros superiores, inter-rogadas sobre as suas expectativas, dão prioridade ao lado «securizante» e à «inteligência» dos seus cônjuges, enquanto as mulheres de operários apreciam particularmente o lado «sério» e o facto de os seus maridos serem «trabalhadores». Os juízos sociais referentes aos parceiros são portanto indissociáveis do conjunto de juízos de «gosto» e, a este título, informam sobre a identidade social da pessoa que os enuncia. À maneira da senhora de Quesnay ao invocar o casamento das suas filhas sem ter necessariamente consciência do que estava a dizer: «Para todas foi o jogo do acaso, o acaso total. A mais velha, que casou com um d’Arsonval, família que conhecemos desde sempre, foi convidada para uma caçada, mas não tinha meio de transporte para lá se deslocar. E muito simplesmente alguém lhe disse ‘mas telefonai a Hubert d’Arsonval’, e pronto!»

    sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

    Trabalho e religião andam juntos

    Nossa vida cotidiana é social.Estabelecemos relações com outros indivíduos,criamos regras de convivência,inventamos moda,fala e discursos.Os direitos e deveres do indivíduo estão garantidos na Constituição.As pessoas são incentivadas à competitividade no mundo do trabalho,de forma quase agressiva.São tantas metas a cumprir,que muitas vezes não há tempo para falar em religião.
    quem quer crescer profissionalmente,na maioria das vezes se pergunta ou se questiona se a espiritualidade deve ser mantida à parte do exercício do trabalho,para que suas crenças não influenciem no que fazem.Como viver as convicções espirituais e exercer a carreira profissional ao mesmo tempo,nessa "luta de gladiadores"que se tornou o mundo do trabalho?
    Eis a questão.Mas,será que o papel que a fé desempenha no exercício da profissão não é fator primordial para manter o equilíbrio em meio a tormentas,lutas por melhores salários etc?O indivíduo que sabe que suas crenças espirituais e convicções pessoais não andam separadas do profissional,sabe também que deve administrar sua vida guiado pelos valores morais como ética,justiça,compromisso.Ele é transparente,não nega sua identidade,não vai mentir ou prejudicar colegas de profissão,nem viver de acordo com seu próprio código moral,pois tem na religião um dos pilares que o mantém em pé,ao lado da família e do trabalho.

    sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

    Sociologia e perspectivação científica



    Ler capítulo anterior: O Que é a Sociologia? ( capítulo precedente )


    PRIMEIRAS LIÇÕES DE SOCIOLOGIA
    por: Philippe Riutort
    tradução de: Eduardo de Freitas
    Nº de páginas 140
    Ano de edição 1999
    ISBN: 972-662-692-7
    Editora Gradiva

    II. Sociologia e perspectivação científica
    1. A constituição da sociologia como disciplina científica está estreitamente ligada à obra de Émile Durkheim, que define os princípios do método sociológico
    De formação filosófica, Durkheim vira-se rapidamente para o estudo da vida social e procura dotar a sociologia de uma metodologia própria.

    Na sua obra As Regras do Método Sociológico (1895) afirma que «os factos sociais devem ser tratados como coisas», o que significa que o sociólogo deve conservar uma certa distância relativamente ao seu objecto de estudo, a fim de afastar sistematicamente todas as prenoções, isto é, os preconceitos e as falsas evidências que ameaçam, em cada instante, introduzir-se na sua análise. O sociólogo, como todo o cientista, deve assim desconfiar da ilusão do saber imediato, visto que não é senão após ter construído previamente com rigor o seu objecto de estudo que se encontra em condições de fazer uma «descoberta».
    De uma certa maneira, os obstáculos parecem mais consideráveis em sociologia e, em geral, nas ciências sociais (psicologia, antropologia, economia, ciência política ...) do que nas ciências da natureza. O estudo dos fenómenos sociais não constitui senão raramente um «monopólio» de facto para o sociólogo: a sua análise toma lugar entre um conjunto de intervenções (de homens políticos, de jornalistas, de administradores ... ou mesmo de todos em conjunto) que visam determinar quais são os «problemas sociais» do momento. Se o sociólogo não pode refugiar-se numa torre de marfim a fim de se isolar do mundo social que é suposto estudar, não pode também retomar à sua conta, sem crítica prévia, as questões colocadas por outros, com preocupações muito frequentemente afastadas do exclusivo intento de conhecimento científico.


    Perguntar se «a classe operária está em vias de desaparecimento» ou circunscrever as causas do «mal-estar das áreas suburbanas» pode parecer legítimo, mas estes assuntos, encarados de um ponto de vista sociológico, necessitam de ser colocados de outro modo, posto que a linguagem empregue para descrever estas «realidades» sociais transporta já em si mesma todo um conjunto de «problemas» que o sociólogo se deve esforçar por desenredar. A questão do «fim da classe operária» obriga, com efeito, a uma interrogação prévia sobre as transformações desencadeadas no seio do mundo operário desde — pelo menos — a crise económica de 1974 (evolução numérica, transformação dos empregos operários, aparecimento durável de um desemprego de massa e mudanças na maneira de «viver» a condição operária). Convém igualmente focar retrospectivamente a diversidade do mundo operário francês (diferenças de estatuto, de qualificação, mas também particularidades ligadas às tradições locais, aos tipos de profissões), a fim de fazer voar em estilhaços a imagem de Épinal de uma «classe operária unida», a qual se precipitaria num «inexorável declínio» que impediria nomeadamente a captação das recomposições em curso. Quanto à «doença das áreas suburbanas», é preciso lembrar tudo quanto esta questão deve à encenação jornalística que estabelece demasiado frequentemente uma comparação «selvagem» entre a situação francesa e a situação americana, sendo suposto a primeira reproduzir o «modelo» da segunda. Se é verdade que certos «factos objectivos» se encontram tanto nas «áreas suburbanas francesas» como nos «guetos americanos» (forte presença de minorias étnicas, aumento sensível e rápido da população, nomeadamente juvenil, taxa de desemprego elevada), vários traços distinguem nitidamente os dois universos: uma diferença de dimensão de mais de um para dez que faz do gueto americano uma verdadeira «cidade», ao passo que o subúrbio francês permanece um bairro periférico; a segregação racial, que é uma característica maior do gueto enquanto a pluralidade étnica é geralmente a regra nas aglomerações suburbanas. Por outro lado, a amplitude da pobreza e da criminalidade e a degradação do quadro de vida atingem dimensões no gueto dificilmente imagináveis nas aglomerações suburbanas. Existe pois aqui uma diferença de natureza, e não somente de grau, entre as duas situações. É preciso portanto desconfiar das comparações apressadas, cujo objectivo (inconsciente?) consiste, na maior parte das vezes, em «dramatizar» um problema, o que leva muitas vezes ao seu obscurecimento sob a capa da simplificação.


    O sociólogo arrisca pois a ver-se arrastado num terreno que não é o seu ao ceder à tentação do profetismo e, armado apenas com o «ar do tempo», acha-se transformado em arauto do futuro («A que se assemelhará a sociedade francesa no ano 2020?»). Faz então lembrar a cartomância e as suas «predições» são para apreciar com a maior prudência.
    O sociólogo deve apetrechar-se metodologicamente a fim de afastar as falsas evidências e redefinir o problema que lhe é colocado a partir das suas próprias preo-cupações, isto é, com o intuito de produzir conhecimento. Émile Dukheim alertava já contra essses perigos, visando assegurar a ruptura com as prenoções. Defendeu designadamente o uso das estatísticas, assim como o recurso ao método da definição prévia, a fim de se ganhar distância relativamente às significações ordinárias de um fenómeno. Numa obra tornada um clássico da sociologia, O Suicídio (1897), Durkheim demonstra que este acto, que tem, aparentemente, todos os atributos do acto individual, obedece, na realidade, a regularidades sociais. Ele propõe, assim, uma definição prévia do suicídio apreendido como «qualquer caso de morte que resulta directa ou indirectamente de um acto positivo ou negativo, realizado pela própria vítima que sabe que o resultado se vai produzir». Ele inclui, por exemplo, no seu objecto de pesquisa o sacrifício do combatente ou do mártir e demarca-se deste modo da definição habitual de suicídio. Durkheim interessa-se, de facto, através deste estudo, pelo que designa como taxa social de suicídio, que mede «a relação entre o número global de mortes voluntárias e a população de qualquer idade e de ambos os sexos». A utilização de estatísticas permite-lhe assim verificar a regularidade da taxa de suicídio num período longo e cingir, a partir de variáveis tais como a idade, o sexo, o lugar de residência, a religião, o estado civil ..., as características sociais dos suicidados, a fim de explicar as determinações sociais que pesam sobre este acto.


    • Uma outra via de ruptura possível com as prenoções consiste em realizar um inquérito no terreno. O sociólogo americano Samuel Stouffer, num estudo colectivo publicado em 1949 sobre o «soldado americano», faz notar um facto surpreendente: ainda que as oportunidades «objectivas» de promoção social sejam mais numerosas na aviação do que na polícia, as satisfações profissionais sentidas pelos agentes da polícia são mais importantes do que as dos da aviação. Assim, como escreveu o sociólogo americano Robert Merton, «quanto menos elevado é o ritmo de promoção, mais as pessoas têm opiniões favoráveis sobre as suas oportunidades de promoção». Este paradoxo revelado pelo inquérito suscitou o aparecimento de um novo conceito: a frustração relativa. Os analistas deram-se conta de que, na realidade, ao indivíduo não importa tanto a situação «objectiva» em que vive como as normas de seu grupo de referência, isto é, aquele com o qual o mesmo indivíduo se identifica duradouramente e que por vezes pode, de resto, diferir daquele a que realmente pertence. Uma promoção rápida não é verdadeiramente imaginável para aquele que pertence a uma organização (tal como a polícia nos Estados Unidos no momento do inquérito ao «soldado americano») no seio da qual as ascensões são habitualmente lentas e pouco frequentes. A mesma promoção é da ordem da evidência para aquele que evolui num grupo de forte mobilidade, tanto mais quanto ele for, por exemplo, fortemente escolarizado. Quando ela não se concretiza, o indivíduo sentirá uma certa frustração, posto que não serão satisfeitas as suas expectativas perante as normas em vigor no seu grupo de referência. A frustração social não está portanto necessariamente ligada a uma situação «objectiva», mas mais à percepção que dela se tem. Procede assim de um desencontro entre as esperanças forjadas pelos indivíduos e a situação que são levados a encontrar ulteriormente: esta teoria subestima o «senso comum», demonstrando que não são necessariamente os indivíduos colocados numa situação «objectivamente» mais desfavorável que vivem um sentimento de frustração e que podem ser levados, seguidamente, a manifestar o seu descontentamento.

    segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

    UMA LEITURA TEOLÓGICA DOS PROBLEMAS MODERNOS

    " À luz do mesmo carácter moral, que é essencial ao desenvolvimento, devem ser considerados também os obstáculos que a ele se opõem. Se durante os anos decorridos desde a publicação da Encíclica de Paulo VI o desenvolvimento não se verificou — ou se verificou em medida escassa, irregular, se não mesmo contraditória — as razões não podem ser só de natureza económica. Como já se fez alusão, acima, intervêm nele também móbeis políticos. As decisões que impulsionam ou refreiam o desenvolvimento dos povos, outra coisa não são, efectivamente, senão factores de carácter político. Para superar os mecanismos perversos, já recordados, e substituí-los com outros novos, mais justos e mais conformes ao bem comum da humanidade, é necessária uma vontade política eficaz. Infelizmente, depois de se ter analisado a situação, é forçoso concluir que ela foi insuficiente." (ponto 35 - uma leitura Teológica dos problemas dos tempos modernos)

    "A doutrina social da Igreja não é uma «terceira via» entre capitalismo liberalista e colectivismo marxista, nem sequer uma possível alternativa a outras soluções menos radicalmente contrapostas: ela constitui por si mesma uma categoria. Não é tampouco uma ideologia, mas a formulação acurada dos resultados de uma reflexão atenta sobre as complexas realidades da existência do homem, na sociedade e no contexto internacional, à luz da fé e da tradição eclesial. A sua finalidade principal é interpretar estas realidades, examinando a sua conformidade ou desconformidade com as linhas do ensinamento do Evangelho sobre o homem e sobre a sua vocação terrena e ao mesmo tempo transcendente; visa, pois, orientar o comportamento cristão. Ela pertence, por conseguinte, não ao dominio da ideologia, mas da teologia e especialmente da teologia moral." (ponto 41 - algumas orientações particulares )
    João Paulo II - Encíclicas com Instrumento de Estudo Sollicitudo rei socialis

    quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

    O QUE É A SOCIOLOGIA?


    PRIMEIRAS LIÇÕES DE SOCIOLOGIA
    por: Philippe Riutort


    tradução de: Eduardo de Freitas
    Nº de páginas 140
    Ano de edição 1999
    ISBN: 972-662-692-7
    Editora Gradiva
    O QUE É A SOCIOLOGIA?


    A perspectiva da sociologia
    Como se pode ser sociólogo?
    A sociologia enquanto disciplina científica teve o seu aparecimento no decurso do século XIX. É precedida por múltiplos saberes saídos de diversas correntes do pensamento que procuram explicações e sobretudo «remédios» para os «problemas» ligados às transformações sociais de grande amplitude que atingiram as sociedades europeias a partir do fim do século XVIII. A emergência de «questões sociais» de um novo género gera assim o nascimento da sociologia, que, progressivamente, ao emancipar-se da filosofia social, formula as suas próprias interrogações de alcance científico, com a ajuda de princípios enunciados desde o fim do século passado pelos seus «pais fundadores».


    I. A emergência da sociologia no século XIX

    1. A sociologia surge enquanto disciplina científica no decurso do século XIX.
    O século XIX é marcado na Europa por profundas mutações. As transformações políticas inscrevem-se no prolongamento da Revolução Francesa. O afundamento do Antigo Regime conduz a que fique em causa a ordem tradicional, fundada na monarquia absoluta, a divisão da sociedade em ordens, assim como o lugar central concedido à religião na vida social. A Revolução Francesa, ao proclamar a igualdade jurídica entre os cidadãos, põe em questão os fundamentos da ordem política. Esta não procede daí em diante da vontade do príncipe, posto que o absolutismo é recusado em nome da proclamação de novos princípios, tais como a liberdade, a razão, o progresso ... As transformações económicas e sociais estão ligadas à revolução industrial, que, do fim do século XVIII ao princípio do século XIX, com origem na Grã-Bretanha, ganha progressivamente os outros países europeus e, seguidamente, os Estados Unidos e o Japão. Caracteriza-se pela passagem de uma sociedade rural a uma sociedade urbana, o que arrasta uma profunda mudança das estruturas sociais existentes (desaparecimento progressivo, por exemplo, das solidariedades camponesas fundadas num conjunto de tradições e de práticas de sociabilidade tais como as festas populares, os ritos de passagem ...). O sociólogo alemão Ferdinand Tönnies (1855-1936) sublinha, em 1887, a oposição entre dois tipos de organização social: a comunidade e a sociedade. A primeira, dominada pelos vínculos tradicionais, a afectividade e o espírito de grupo, apoia-se principalmente na família e nas solidariedades locais, enquanto a segunda, que assenta mais no interesse individual, no cálculo e nas relações impessoais, tende a impor-se no seio da sociedade industrial.
    Em paralelo, a revolução agrícola realizada no decurso do século xviii permite progressivamente às actividades industriais beneficiar de um afluxo de mão-de-obra. O desenvolvimento da indústia acompanha-se, com efeito, de uma urbanização maciça que provém sobretudo do êxodo rural. A organização da sociedade encontra-se então profundamente transformada, o que modifica sensivelmente os «equilíbrios» estabelecidos entre grupos sociais: assiste-se, assim, no decurso do processo de urbanização, à formação da classe operária, ao crecimento contínuo da burguesia, assim como ao declínio relativo da nobreza.
    Os principais sociólogos do século XIX interrogam--se sobre a amplitude das transformações das sociedades europeias que se desenrolam sob os seus olhos no momento em que concebem as suas obras. O pensamento de três figuras centrais da sociologia do século XIX e do início do século XX estão profundamente impregnados disso mesmo.
    Émile Durkheim (1858-1917), fundador da escola francesa de sociologia, preocupado com os fundamentos da coesão social e da sua evolução, estuda assim a passagem da solidariedade mecânica, fundada na similitude, característica das sociedades tradicionais, à solidariedade orgânica, fundada na complementaridade e produzida pelo processo de divisão do trabalho, que se afirma na sociedade industrial.
    Karl Marx (1818-1883), militante revolucionário, filósofo, economista, mas igualmente sociólogo, ao tornar-se o teórico de um socialismo que anuncia como científico, interessa-se pelo processo de desenvolvimento capitalista e tenta revelar as suas contradições internas, insistindo particularmente nas oposições de classe, segundo ele, inelutáveis no seio da sociedade capitalista e que prefiguram o advento de uma sociedade sem classes: a sociedade comunista.
    Max Weber (1864-1920), um dos primeiros e dos principais sociólogos alemães, abre o caminho à sociologia comparativa ao interrogar-se sobre as particularidades da civilização ocidental, caracterizada, segundo ele, por um processo de racionalização ou, segundo a sua célebre fórmula, de «desencantamento do mundo», que é traduzido pelo recurso crescente à previsão e ao cálculo, assim como ao abandono progressivo dos impulos mágicos no conjunto dos domínios da vida social: da ciência à arte, passando pela religião, pelo poder político e pela economia.
    Se as obras dos principais sociólogos do século XIX e do início do século XX dão testemunho das preocupações sociais do seu tempo, elas sustentam-se igualmente num saber prévio, que se prende já ao desencadear de conhecimentos, a partir de uma observação minuciosa da sociedade.


    2. Um saber sobre a sociedade anterior à sociologia
    A sociologia nascente enquanto disciplina constituída não poderia emergir dos cérebros de alguns «inventores». Todo um conjunto de interrogações precedem ou acompanham o seu aparecimento. O exercício que consiste em determinar com precisão as origens da sociologia parece vão, posto que reverteria, ao lançar-se numa pesquisa interminável, em fazer surgir o seu aparecimento num passado sempre mais longínquo («Há em germe um pensamento sociológico em Platão?», com os riscos de anacronismo que esta questão recobre). É no entanto útil insistir sobre diferentes questionamentos, a maior parte anteriores à afirmação da disciplina sociológica e que, embora distintos em numerosos pontos, partilham o desejo da descoberta de princípios que regem a organização da vida em socie- dade.
    • Vários autores tradicionalistas, do escritor britânico Edmund Burke (1729-1797) aos autores franceses Joseph de Maistre (1753-1821) e Louis de Bonald (1754-1840), criticam o individualismo proclamado pela Revolução Francesa, que é tido por uma pura abstracção vazia de sentido, visto que, segundo eles, a sociedade não poderia proceder apenas da razão, insensível às redes de relações concretas que encerram o indivíduo numa comunidade de pertença. A corrente tradicionalista interessa à sociologia, pois vai dar lugar, a partir de uma visão critíca — simultaneamente da Revolução Francesa e da industrialização —, a vastos inquéritos: a obra de Frédéric Le Play (1806-1882), que foi engenheiro e senador sob o Segundo Império (1867), em particular Os Operários Europeus (1885), caracteriza-se por uma viva preocupação de descrição das condições de vida dos meios populares e desemboca na realização de monografias1.

    Trata-se, praticando-se a observação directa, de reunir um grande número de factos que dão conta das condições de existência da vida operária. O trabalho de Le Play, apoiando-se em amplos inquéritos no terreno, abre a porta ao método etnográfico, que visa a recolha de um conjunto de informações sobre uma dada população e permite realizar comparações no tempo e no espaço. Esta perspectiva não é todavia redutível à sua dimensão qualitativa, posto que tenta igualmente quantificar os dados recolhidos: Le Play procura, com efeito, por meio dos seus inquéritos, estabelecer um instrumento de medida objectivo, como o orçamento familiar, que ele utiliza como indicador do modo de vida operário e das suas transformações. A obra de Le Play permanece no entanto essencialmente preocupada com um projecto global de Reforma Social, em conformidade com o título da sua obra surgida em 1864, que preconiza o reforço das estruturas familiares, particularmente da família alargada (que reúne sob o mesmo tecto o pai, a mãe, o rapaz herdeiro, a sua mulher, os seus filhos e os outros parentes celibatários), e promove o paternalismo (a colaboração entre patrões e operários), assim como o respeito absoluto pela propriedade privada.
    • A «questão social» que designava no século XIX o conjunto de problemas ligados ao aparecimento do mundo operário dá lugar a uma corrente crítica da industrialização, o «socialismo utópico», encarnado em França por Claude-Henri de Saint-Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1837) e Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Preocupa igualmente as camadas dirigentes: a concentração de uma população miserável nas cidades desencadeia os medos relacionados com a promiscuidade. Numerosos estudos são assim realizados pelos poderes públicos e pelas sociedades científicas a fim de circunscrever essa população «com problemas»: um dos inquéritos mais importantes foi conduzido pelo Dr. Villermé, que, no Quadro do Estado Físico e Moral dos Operários Empregados nas Manufacturas de Algodão, de Lã e de Seda (1840), traça um retrato sem complacência da condição operária.
    • A sociologia nascente é igualmente influenciada por uma outra tradição que se inscreve no racionalismo saído das Luzes: concretiza-se a partir da observação de Montesquieu (1869-1755), que, no Espírito das Leis (1748), proclama não ter retirado os seus princípios dos seus preconceitos, mas da natureza das coisas, desejando consagrar-se «ao que é, e não ao que deve ser», assim como dos trabalhos de Condorcet (1743-1794), que, no seu Esboço de Um Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano (1793) introduz a «matemática social», isto é, a elaboração de leis científicas fundadas na observação das regularidades estatísticas. Os progressos realizados, a partir do início da século XIX, pela estatística, primitivamente encarregue, em nome do estado, da demografia (o recenseamento da população), permitem-lhe ganhar novos domínios. Tomando a designação de «estatística moral», estende-se tanto à economia, a fim de avaliar os recursos potenciais do estado, como às questões judiciárias: a estatística judiciária conhece assim um desenvolvimento fulgurante em França com a implantação, a partir de 1827, da Contabilidade Geral da Administração da Justiça e com os trabalhos de Gabriel Tarde (1843-1904). O matemático, astrónomo e estatístico belga Adolphe Quetelet (1796-1874) tenta igualmente analisar o que designa como «propensão para o crime» e sua distribuição na sociedade com a ajuda de séries estatísticas destinadas a medir-lhe a permanência.
    Na encruzilhada destas diferentes tradições emerge a corrente positivista, que se caracteriza, segundo os termos do seu principal representante, Auguste Comte (1798-1857), por uma recusa do «espírito metafísico». Para o positivismo, com efeito, nenhum conhecimento pode proceder a não ser da observação e da experiência. Comte, que foi o inventor do termo «sociologia», fala igualmente de «física social» para designar o estudo «científico» do mundo social, posto que, confiando nos progressos da ciência, entende que a sociologia pode atingir num futuro próximo o rigor das «ciências da natureza». Enuncia assim a lei dos três estados, segundo a qual o desenvolvimento da humanidade passaria por três fases sucessivas.
    O estado teológico é dominado pelo sobrenatural e corresponde historicamente à Idade Média.
    O estado metafísico está marcado pelo aparecimento de princípios abstractos que enunciam uma ideia geral do homem e triunfam sob a Revolução francesa.
    O estado positivo corresponde à fase de maturidade caracterizada, aquando do aparecimento da sociedade industrial, pela descoberta, graças à observação científica, dos princípios organizadores da sociedade.
    Se o pensamento de Comte, profundamente evolucionista (a humanidade é suposta evoluir por etapas, cada uma das quais constituiria um progresso relativamente à precedente), foi criticado neste ponto, a sua preocupação em dotar a sociologia de bases científicas constitui um contributo considerável, tendo sido notável a sua influência sobre a sociologia francesa nascente e em particular sobre Émile Durkheim.

    terça-feira, 2 de dezembro de 2008

    Análise Orientada do Texto “As Regras do Método Sociológico – E. Durkheim

    Descrever o “indivíduo X Colectivo” na teoria de Durkheim:

    Para Durkheim, o indivíduo - visto de maneira isolada - não pode ser considerado objecto ideal para o estudo da Sociologia, sendo, portanto, um elemento inadequado para o estudo e a compreensão apropriada do conceito de “facto social”. O que realmente interessa à vertente durkheimiana é o enfoque no indivíduo inserido no contexto de uma realidade social objectiva que, encontrando-se acima dele em termos de prioridade, caracteriza-se por ser eminentemente grupal - e, por conseguinte, colectiva. Durkheim foi um dos pioneiros na análise dos factores coercitivos que levam o indivíduo, desde cedo, a moldar-se segundo os parâmetros historicamente impostos pelo grupo social ao qual pertence, ou melhor, no qual se encontra circunstancialmente inserido.


    Esta estruturação do indivíduo segundo padrões pré-estabelecidos e exteriores ao próprio, perpassa pelo psicológico, pelo moral, pelos hábitos e costumes, pelo comportamento, enfim, por toda cultura. Tal processo é, até certo ponto, inconsciente, e será determinante no sentido de conferir um maior ou menor engajamento social (ou comprometimento) do indivíduo nos processos colectivos que permeiam as actividade sociais. Durkheim preocupa-se em analisar a maneira pela qual o meio social, através de aparelhos de coerção e da própria instituição educativa, contribui para regular, controlar e moldar permanentemente o comportamento individual, tornando os processos colectivos aparentemente harmónicos e estáveis. O processo de coerção (ou de conversão) do indivíduo acontece desde cedo, sendo primordial para a garantia da coexistência pacífica entre os indivíduos que, por sua vez, tornará possível uma convivência colectiva estável e pacífica.


    Segundo o autor no seu livro “As Regras do Método Sociológico”:“(...) o devoto, ao nascer, encontra prontas as crenças e as práticas da vida religiosa; as quais existindo antes dele, é porque existem fora dele. O sistema de sinais de que me sirvo para exprimir pensamentos, o sistema de moedas que emprego para pagar dívidas, os instrumentos de crédito que utilizo nas relações comerciais, (...), etc, funcionam independentemente do uso que faço delas. (...). Estamos, pois, diante de maneiras de agir, de pensar e de sentir que apresentam a propriedade marcante de existir fora das consciências individuais”. – e, portanto, independente das mesmas. Por este motivo, para Durkheim, os processos colectivos, em termos de análise académica, possuem uma incontestável primazia sobre os indivíduos que, por sua vez, são obrigados a orbitar, desde o berço, em torno de algo naturalmente imposto que se apresenta mais forte que cada um deles; algo que, regulando e moldando permanentemente as suas vontades individuais (pejorativamente tachadas de egoísmo, individualismo, etc), permite a convivência – mesmo que conflituosa - do homem em sociedade. O custo psicológico para o indivíduo resume-se basicamente ao controlo dos seus impulsos individuais – talvez algum dia ainda venha a existir uma sociedade em que valha a pena chamar este “custo” (ou perda) de “investimento natural e necessário”. Porém, cabe frisar que a análise de Durkheim é sociológica colectiva, e não psicológica individual. Para Durkheim, qualquer conflito precisa ser superado.


    2) Quando o indivíduo entra na Sociedade para Durkheim? (teoria da socialização).Segundo o autor na obra que analisamos: “Toda a educação consiste num esforço contínuo para impor às crianças maneiras [adequadas] de ver, sentir e agir às quais elas [supostamente] não chegariam espontaneamente – (...). Desde os primeiros anos de vida, são as crianças forçadas a beber comer e dormir em horários regulares; são constrangidas a terem hábitos higiénicos, a serem calmas e obedientes; mais tarde, obrigamo-las a aprender a pensar nos demais, a respeitar usos e conveniências; forçamo-las ao trabalho, etc. (...)”. E, a seguir, ainda no mesmo parágrafo:“(...) a educação tem justamente por objeto formar o ser social; pode-se então perceber, (...), de que maneira este se constitui através da história. A pressão de todos os instantes que sofre a criança é a própria pressão do meio social tendendo [permanentemente] a moldá-la à sua imagem e semelhança.” Portanto, baseado neste trecho escrito por Durkheim, pode-se observar que, segundo o próprio autor, o indivíduo ingressa na sociedade no momento em que, dentro dela, nasce. No mesmo instante de seu nascimento, ele já começa a ser moldado pelas instituições que compõem a sociedade: primeiramente, o indivíduo sofre influência da própria família(caso possua uma); depois, mais tarde, de seu bairro, município, de sua escola, etc. A partir daí, o indivíduo assimila (ou não), os hábitos, a moral, os costumes, enfim, toda forma de lei não escrita que rege a convivência do seu grupo. Geralmente, o indivíduo procura agregar as regras do grupo ao seu sistema individual de valores, procurando agir em conformidade com o grupo, pois sabe que estará às margens do mesmo se assim não o fizer. Quando o processo acima mencionado não chega a acontecer adequadamente, o indivíduo marginaliza-se em relação aos processos sociais colectivos. Para Durkheim, este facto é considerado um suicídio social, que acaba levando o indivíduo ao suicídio de facto. O autor não confere o enfoque puramente psicológico ao facto de alguém se suicidar, pois, como a sua análise dos factos é sociológica, ele busca uma fundamentação social e colectiva para as manifestações suicidas individuais: o suicida, por algum motivo dentro de seu grupo, se mata por se encontrar às margens da sociedade, por não ter encontrado identificação no seio grupal e, por isto, encontra-se solitário e isolado.


    3) O que é “facto social” e o que o caracteriza? O facto social encontra-se intrinsecamente relacionado aos processos culturais, hábitos e costumes colectivos de um determinado grupo de indivíduos ou sociedade. Tais elementos, além de conferirem unidade e identidade ao grupo social, servem de controlo e parâmetros às actividades individuais que, em princípio, não devem causar desarmonia no corpo social, ou melhor, na convivência oriunda das relações individuais.O facto social precisa pertencer ao histórico grupal, encontrando-se igualmente relacionado com a maneira de pensar, sentir e agir colectiva do homem. São justamente estes elementos - o pensar, sentir e agir peculiares a cada grupo - que irão permear a ideologia do mesmo. Isto não implica na inexistência de conflitos. Numa sociedade complexa, vários grupos podem existir e, por conseguinte, diversas ideologias diferentes podem coexistir dentro de uma mesma cultura. Daí, num ambiente complexo de pluralidade cultural, existe maior possibilidade de geração de conflitos originados de idéias antagónicas. Assim, sempre que existe o conflito, a ideologia dominante tenta (geralmente com muito sucesso) disseminar um falso ar de estabilidade, igualdade e permanente harmonia, mascarando as realidades sociais. Caso este mecanismo não funcione, tem-se a coerção policial... A ideologia dominante, vista como um conjunto de formas cristalizadas de pensa, sentir e agir das elites hegemonicas, funciona - em nível simbólico e imaginário - como uma espécie de anestésico no sentido em conter a dor da necessária repressão dos desejos individuais. Esta repressão viabilizará a convivência grupal – aparentemente harmonica. A ideologia do grupo, portanto, serve como um amortecedor para os desejos individuais, procurando conciliá-los, sempre que possível , aos interesses colectivos (ou ditoscoletivos) que, estando acima dos interesses individuais ou oligárquicos, deveriam, por sua vez, serem capazes de promover o bem comum, ou o bem geral. Como exemplo de facto social, podemos citar: a ascensão, na década de 30, no século passado, dos regimes de cunho Nacional Socialista na Alemanha de Hitler e na Itália fascista de Moussolinni; e, mais próximo ao nosso tempo e ao nosso contexto histórico: o movimento pelas “Directas Já”, em 1985, promovido por vários sectores da sociedade civil e pelo povo brasileiro, que retomou o rumo democrático de nosso país após 20 anos de ditadura militar.Portanto, outro factor que caracteriza um facto social é a sua aceitabilidade por parte da maioria, por parte do próprio colectivo dentro da sociedade. Esta aceitação é o produto de uma maneira peculiar e circunstancial de pensar, sentir e agir de um grupo, num dado momento histórico e contexto social. O acontecimento de um facto considerado social é um fenómeno colectivo que requer a aceitação do da maioria, o que não deve necessariamente ser confundido com consenso geral, posto que, em sociedades mais complexas, os conflitos e oposições de idéias devem ser considerados elementos naturais na dialética das relações interpessoais do ser humano – relações estas que permeiam nossa vida colectiva quotidiana.


    Professor Elias Celso Galvêas in A Sociologia de Émile Durkheim

    O Suicidio - trailler do filme inspirado na obra de Durkheim

    sexta-feira, 14 de novembro de 2008

    Carta aberta aos líderes mundiais que comparecerão à cimeira de 15 de Novembro na Casa Branca acerca dos mercados financeiros e a economia mundial


    por: Paul Davidson e Henry C.K. Liu


    Caros líderes do mundo:


    O Inverno de 2008-2009 provará ser o inverno do descontentamento económico global a marcar a rejeição da ideologia enviesada de que mercados financeiros globais não regulamentados promovem a inovação, a eficiência do mercado, o crescimento sem restrições e a prosperidade sem fim ao mesmo tempo que reduzem o risco através da sua difusão por todo o sistema. Durante mais de três décadas a corrente dominante de economistas neoliberais pregou, e os reguladores aceitaram, o mito da eficiência dos mercados não regulamentados, ignorando a lição crítica proporcionada pela análise de John Maynard Keynes da interconexão dos mercados financeiros e do sistema de pagamentos internacional.


    Aqueles que não aprendem as lições da história estão destinados a repetir as suas tragédias. Os economistas neoliberais nas últimas três décadas negaram a possibilidade de uma repetição da destruição da Grande Depressão à escala mundial após o colapso da bolha especulativa criada pelos mercados financeiros sem restrições dos EUA dos "Frenéticos anos 20". Eles enganaram-se a si próprios ao pensar que a falsa prosperidade construída sobre a dívida poderia ser sustentável com complacência monetária. Agora a história está a repetir-se, desta vez com o vírus novo e mais letal que infestou os mercados financeiros globais desregulamentados: a "inovadora" titularização de dívidas, as finanças estruturadas e as operações bancárias independentes inundadas com o excesso de liquidez libertado por bancos centrais acomodatícios. Uma maciça estrutura de riqueza fantasma foi construída sobre a areia movediça da manipulação da dívida. Esta bolha da dívida finalmente implodiu em Julho de 2007 e agora está a ameaçar deitar abaixo todo o sistema financeiro global e a provocar um colapso económico a menos que liderança política esclarecida adopte medidas correctivas numa escala global.


    O problema das hipotecas sub-prime dos EUA que começou em 2007 redundou como era de esperar num pântano que provocou a falha dos mercados financeiros interconectados e ameaçou a viabilidade de instituições financeiras à escala mundial pelo contágio propagado à velocidade electrónica através de um antiquado e disfuncional sistema internacional de pagamentos.


    Para deter o colapso financeiro global, pode-se aprender muito com a visão de Keynes de como o sistema internacional de pagamentos deveria funcionar para permitir a cada país promover uma política de pleno emprego sem ter de temer problemas de balança de pagamentos ou permitir que incidentes financeiros infectem o sistema bancário interno e sistemas financeiros não-bancários.


    Uma outra Grande Depressão pode ser evitada se os líderes mundiais reconsiderarem o sistema analítico de John Maynard Keynes que contribuiu para a era dourada do primeiro quarto de século após a Segunda Guerra Mundial. Os signatários e outros há muito advogam uma nova arquitectura financeira internacional baseada numa versão actualizada para o século XXI do Plano Keynes originalmente proposta em Bretton Woods no ano de 1944.


    Esta nova arquitectura financeira internacional tem como objectivo criar (1) um novo regime monetário global que opere sem divisa hegemónica, (2) um relacionamento do comércio global que apoie o desenvolvimento interno ao invés de retardá-lo e (3) um ambiente económico global que promova incentivos a cada país para promover o pleno emprego e aumentar os salários da sua força de trabalho.


    Atentamente, Paul Davidson

    Editor,
    Journal of Post Keynesian Economics
    Visiting Scholar
    Schwartz Center for Economic Policy Analysis,
    The New School, New York

    Henry C.K. Liu
    Visiting Professor of Global Development,
    Department of Economics,
    University of Missouri-Kansas City

    Texto original em: http://henryckliu.com/page174.html e

    http://atimes.com/atimes/Global_Economy/JK08Dj06.html
    Lista parcial de apoiantes:
    Irma Adelman
    Professor in Graduate School
    University of California at Berkeley

    Olivier Allain
    Associate Professor in Economics
    Université Paris Descartes
    France

    Philip Arestis
    Director of Research
    University of Cambridge, UK

    Dr. George Argitis
    Senior Lecturer
    Dept. of Economics
    University of Athens

    Angel Asensio
    University Paris 13
    Member of the ADEK and PKSG

    H. Sonmez Atesoglu
    Professor of Economics
    School of Business,
    Clarkson University
    Potsdam, NY

    Rainer Bartel
    Associate Professor of Economics
    Johannes Kepler University
    Linz, Austria

    Renaud Bellais, Ph.D.
    Associate Professor in Economics
    French Army Academy (Saint Cyr)
    Manager for European Defence and Security Affairs
    Institutional Relations,
    EADS ASTRIUM
    Paris

    Janine Berg
    Senior Labour Economist
    International Labour Office
    Brasilia, Brazil

    Dr Dirk Bezemer
    University of Groningen
    The Netherlands

    Dr. Wolfgang Blaas
    Associate Professor
    Department of Spatial Development,br> Infrastructure and Environmental Planning,

    Centre of Public Finance and Infrastructure Policy
    Vienna University of Technology

    W. Robert Brazelton.
    Professor-Emeritus/Economics
    University of Missouri-Kansas City


    Luiz Carlos Bresser Pereira
    Professor Emérito da Fundação Getúlio Vargas
    -Brazil

    Christopher Brown
    Professor of Economics
    Arkansas State University


    Paul D. Bush
    Professor Emeritus of Economics
    California State University, Fresno


    Fernando J. Cardim de Carvalho
    Professor of Economics
    Institute of Economics,
    Federal University of Rio de Janeiro, Brazil

    Àngels Martínez i Castells
    Economist.
    Former professor of Barcelona University

    Massimo Cingolani
    Directorate for Operations in the European Union and Candidate Countries
    European Investment Bank
    Luxembourg

    Laurent Cordonnier
    Assistant Professor
    Faculty of economics and social sciences
    Lille 1 University
    France

    Eugenia Correa
    Posgrado de Economía
    Universidad Nacional Autónoma de México

    Dr. James M. Cypher
    Researcher-Professor, Economics
    Doctorate in Development Studies
    Universidad Autonoma de Zacatecas,
    Zacatecas, Mexico

    Georgios Daremas
    Senior Lecturer
    Dept of Communication and Media,
    University of Indianapolis, Athens-campus.

    Sheila C. Dow
    Professor
    Department of Economics
    University of Stirling
    Scotland, UK

    Miguel Angel Duran.
    Lecturer in Economic Theory
    University of Malaga, Spain

    Luca Fantacci
    Assistant Professor
    Department of Institutional Analysis and Public Management
    Bocconi University
    Milano, Italy

    Carmem Feijo
    Associated professor
    Fluminense Federal University in Rio de Janeiro, and
    Executive Secretary
    National Association of Postgraduates Programs in Economics.

    Marica Frangakis
    Member of the Board of the Nicos Poulantzas Institute
    Athens, Greece

    Jorge GARCIA-ARIAS
    Associate Professor of Economics
    Department of Economics
    University of Leon, Spain

    Anna Mª Garriga
    economist
    Barcelona, Spain

    Marilena Giannetti
    Department of Public Economics
    University of Rome "La Sapienza"
    Italy

    Alicia Girón
    Instituto de Investigaciones Económicas
    Universidad Nacional Autonoma de México

    Claude Gnos
    Associate Professor
    Université de Bourgogne and Cemf
    France

    Ian Gough AcSS
    Professor of Social Policy
    University of Bath
    UK


    Eric R. Hake
    Assistant Professor
    Eastern Washington University

    Han Deqiang
    Associate Research Fellow
    Beijing University of Aeronautics


    Geoff Harcourt
    Professor Emeritus
    Reader in the history of Economic Theory
    Cambridge University

    Distinguished Fellow of the History of Economics Society
    Visisting Professor Fellow, University of New South Wales.


    John T. Harvey
    Professor of Economics
    Texas Christian University


    Baban Hasnat
    Professor
    Dept. of Business Administration & Economics
    The College at Brockport
    State University of New York
    USA

    Geoffrey M. Hodgson
    Professor of Economics
    University of Hertfordshire
    Hatfield, UK

    Jörg Huffschmid
    Professor of economic policy and political economy
    University of Bremen, Germany

    Edwin le Heron
    Sciences Po Bordeaux
    France

    Bo Jonsson
    Retired economist from the Swedish LO and the ITUC (formerly ICFTU)
    Member of the administrative board of the European Institute for Asian Studies
    Brussels, Belgium

    Tadeusz Kowalik
    Professor of Economics and Humanities
    Polish Academy of Sciences
    Warsaw, Poland

    Dany Lang
    Maître de Conférences at the University of Paris


    Lena Lavinas
    Assistant Professor of Welfare Economics
    Institute of Economics at the Federal University of Rio de Janeiro
    Brazil


    Frederic S. Lee
    Professor
    Department of Economics
    University of Missouri
    Kansas City - USA


    Hoesung Lee
    Professor of Economics
    College of Environment

    Keimyung University
    Daegu, Korea


    Noemi Levy-Orlik
    Professor
    Economic Department
    National Autonomous University of Mexico (UNAM)


    Li, Chang-ping
    Hebei University-China Village
    Construction Reaserch Center Director


    Henry van Maasakker
    Economist.
    Euromemorandumgroup
    The Netherlands


    Ricardo Paes Mamede
    Professor of Economics at ISCTE
    Lisbon University Institute


    Wesley Colin Marshall
    Professor of Economics
    Universidad Nacional Autonoma de Mexico

    Brent McClintock
    Associate Professor of Economics
    Department of Economics
    Carthage College
    Kenosha, Wisconsin


    John McCombie
    Director,
    Cambridge Centre for Economic and Public Policy
    Department of Land Economy
    University of Cambridge, UK


    Sergio Cabrera Morales
    Economics Faculty
    Universidad Nacional Autónoma de México


    Tracy Mott
    Associate Professor
    Dept. of Economics
    University of Denver

    Antonio Carlos Macedo e Silva
    Instituto de Economia - UNICAMP
    Campinas (SP) Brazil

    Alcino Ferreira Camara Neto
    Dean of Law and Economics
    Federal University of Rio de Janeiro
    Brazil

    Paulette Olson
    Professor
    Department of Economics
    Wright State University
    Dayton, Ohio

    Ozlem Onaran
    Associate Professor
    Vienna University of Economics
    Austria

    Walter O. Ötsch
    Head of the Centre for Social and Cross-cultural Competency
    Johannes Kepler Universität
    Linz, Austria

    Athanasios G. Papaioannou
    Professor
    University of Thessaly
    Greece


    Jorgen Lindgaard Pedersen
    Associate Professor
    Technical University of Denmark


    Maria Cristina Penido de Freitas
    Brazilian Economist,
    Ph. D. on Economics by University Paris

    Wolfgang Polt
    Head of Vienna Office of Joanneum Research
    Institute for Technology and Regional Policy
    Vienna

    Daniela Magalhães Prates
    Professor of the Economy Institute of University of Campinas
    Brazil

    Alcino F. Camara Neto
    Professor and Dean
    Federal University of Rio de Janeiro
    Brazil

    Clyde Prestowitz
    President
    The Economic Strategy Institute
    Washington D.C.

    Dr. Werner Raza
    Austrian Chamber of Labor and
    Vienna University of Economics and Business Administration
    Austria

    Colin L. Richardson
    Internet Economist

    William Penney
    Laboratory
    Imperial College, London

    Louis-Philippe Rochon
    Associate Professor
    Laurentian University
    Canada

    Jacqueline Runje
    PRESOM Coordination Assistant
    University of Dortmund
    Faculty of Spatial Planning
    IRPUD Institute of Spatial Planning
    Germany

    Zdzislaw L. Sadowski
    Professor of Development Economics
    University of Warsaw
    Poland

    Irma Erendira Sandoval
    Social Science Research Institute
    Universidad Nacional Autónoma de México

    Prof. Dr. Thomas Sauer
    Professor für Volkswirtschaftslehre - of Economics
    FB Betriebswirtschaft - Dep. of Business Administration
    Fachhochschule Jena - University of Applied Sciences

    Jena, Germany

    Ingo Schmidt
    Labour Studies
    Athabasca University
    Canada

    Prof. Dr. herbert Schui
    Former professor of economics
    University for Economics and Policy


    Hamburg, Germany
    M.P. at the Deutscher Bundestag
    Parliamentary Group DIE LINKE Economic Spokesman


    Mario Seccareccia
    Professor of Economics,
    University of Ottawa,
    Canada
    Editor,
    International Journal of Political Economy


    Mark Setterfield
    Professor of Economics
    Trinity College, CT USA

    Anwar Shaikh
    Professor of Economics
    Department of Economics, Graduate Faculty
    New School for Social Research


    Catherine SIFAKIS,
    assistant professor of Economics
    University P. Mendès France of Grenoble
    France


    Jeffrey Sommers
    Visiting Professor
    Stockholm School of Economics in Riga


    Dr. Engelbert Stockhammer
    Dept of Economics
    Vienna University of Economics and Business
    Vienna, Austria


    Dr. Servaas Storm
    Dept of Economics,
    faculty TPM,
    Delft University of Technology
    The Netherlands


    James I. Sturgeon
    Professor of Economics & Economics Department Chair
    University of Missouri-Kansas City
    Senator Eduardo Matarazzo Suplicy (PT-SP)
    Brazil


    Prof. Dr. Claus Thomasberger
    Faculty of Economics
    University of Applied Sciences
    Berlin, Germany


    Éric Tymoigne
    Assistant Professor
    Department of Economics
    California State University, Fresno


    Cathleen Whiting
    Associate Professor of Economics
    Willamette University


    Gregorio Vidal
    Department of Economics, Posgraduate Programme
    Universidad Autónoma Metropolitana
    Mexico

    Roderich Wahsner
    Professor Emeritus of Labor Law
    University of Bremen
    Germany


    L. Randall Wray
    Research Director
    Center for Full Employment and Price Stability
    Department of Economics
    University of Missouri-Kansas City
    Senior Scholar


    Levy Economics Institute
    dr.Emiel F.M. Wubben
    Wageningen University & Researchcenter
    Business Administration/ Management Studies Group/ Bedrijfskunde
    Social Sciences Group
    Wageningen, The Netherlands

    Haibo Yan
    Associate professor
    Postdoctoral Mobile Research Station
    Institute of Economics
    Chinese Academy of Social Sciences

    Bin Yang
    Associate Research Fellow
    Institute of Industrial Economy
    Chinese Academy of Social Sciences




    domingo, 26 de outubro de 2008

    A Crise do capitalismo e a ctual importância de Marx

    "Karl Marx está de volta. Pelo menos, este é o veredito dos editores e livreiros da Alemanha, que asseguram que suas obras estão a desaparecer das estantes. A crescente popularidade é imputada, à crise económica em curso." ''Marx entrou de novo na moda'', diz Jörn Schütrumpf, da editora Karl-Dietz, que publica as obras de Marx e Engels em alemão. "
    Por Kate Connolly no jornal britânico The Guardian
    Alemães em número crescente parecem dispostos a se proclamarem fãs de Marx, numa época em que virou moda repetir a crença do filósofo, de que o capitalismo com seus excessos de cobiça terminaria por se destruir. Quando Oskar Lafontaine, líder do crescente partido de esquerda alemão Die Linke (A Esquerda), disse que incluiria a teoria marxista no manifesto da nova sigla, para sublinhar seus planos de estatização parcial das finanças e do sector energético da nação, foi taxado pelo tablóide Bild de ''maluco esquerdista'' que ''perdeu o rumo''. Mas agora o ministro das Finanças da Alemanha, Peer Steinbrück, que deve ter perdido algumas noites de sono nas últimas semanas, que se declarou também um fã: ''Em geral, é preciso admitir que certas partes da teoria de Marx na verdade não são tão ruins assim'', disse cautelosamente à revista Der Spiegel.

    A falta de crença, nos actuais modelos de gestão económica, sobretudo nas teorias neoliberais e na economia de mercado têm levado vários estudiosos, a uma análise crítica destas políticas!

    “Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão:

    “Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista”.

    domingo, 19 de outubro de 2008

    Código Deontológico dos Sociólogos

    Preâmbulo
    A actividade profissional dos sociólogos é uma prática social: desenvolve-se em sociedade e produz efeitos sociais. O reconhecimento das responsabilidades profissionais e sociais que necessariamente daqui decorrem está na base da elaboração do Código Deontológico dos sociólogos.
    Quaisquer que sejam os papéis profissionais dos sociólogos – de investigador, professor, técnico, consultor, quadro dirigente ou outros – o trabalho sociológico é uma actividade de base científica, assente em competências próprias de elevada qualificação, decorrentes de uma preparação específica em sociologia, nos planos teórico, metodológico, técnico e relacional.
    O exercício dessas competências pressupõe grande autonomia de critérios no desempenho da actividade profissional. Em contrapartida e indissociavelmente, implica consideráveis responsabilidades profissionais e sociais.
    O Código Deontológico tem como preocupação fundamental explicitar os principais tipos de responsabilidades dos sociólogos para com financiadores e clientes, alunos e colegas, inquiridos e entrevistados, grupos e instituições alvo de pesquisa ou intervenção, outras fontes de informação e contextos sociais que possam ser afectados; em termos gerais, responsabilidades para com a sociologia e a sociedade.
    A prática sociológica partilha princípios gerais da ética científica. Mas reconhece que a ciência é ela própria uma instituição social; que se tem vindo a desenvolver várias maneiras de entender a prática sociológica; e que a actividade profissional dos sociólogos inclui, a par da investigação científica, outras dimensões do relacionamento social e outros papéis profissionais, com as suas exigências deontológicas próprias.
    A pluralidade é um dado constitutivo do campo da sociologia, designadamente quanto aos quadros teóricos, métodos de pesquisa e saberes operatórios susceptíveis de orientarem a prática científica e profissional. As perspectivas e os instrumentos são diversificados e evoluem com o tempo. Os papéis profissionais dos sociólogos são vários, estão em transformação e, no respectivo desempenho, não é raro verificar-se alguma sobreposição de papéis.
    A formulação dos princípios deontológicos dos sociólogos não ignora aquisições cognitivas fundamentais da sociologia, nomeadamente quanto ao carácter relacional, socialmente construído e mutável da realidade social, quanto às assimetrias de recursos e poderes existentes na sociedade e quanto à diversidade e relatividade das culturas.
    Na investigação científica, no ensino, na acção técnica ou em qualquer outra vertente da prática profissional dos sociólogos estão sempre implicados interesses e valores. A própria sociologia tem dado ou mesmo conflituais, e de que não é possível ordená-los segundo uma escala de prioridades única e imutável.
    É possível ocorrerem situações em que interesses de conhecimento e valores da prática científica não sejam facilmente compatibilizáveis com interesses e valores predominantes noutros domínios ou sectores sociais. É também usual o sociólogo defrontar-se com discrepâncias de interesses e valores entre cliente e grupo alvo de pesquisa ou intervenção; ou, em termos latos, entre diversos segmentos da sociedade sobre os quais incida, de algum modo a sua actividade profissional.
    Um dos principais objectivos do Código Deontológico é constituir uma referência que ajude a ultrapassar potenciais situações de dúvida ou conflito ético no exercício da actividade profissional dos sociólogos, nomeadamente os decorrentes da pluralidade constitutiva da sociologia e da sociedade.
    O Conselho de Deontologia é um corolário e um complemento do Código Deontológico.
    O Código Deontológico dos sociólogos é um enunciado de princípios. Nas situações concretas da prática profissional poderão não ser sempre ou imediatamente inequívocas, à luz desses princípios as implicações deontológicas. Não é viável pormenorizar todas as circunstâncias particulares da actividade profissional. Pode acontecer que, na sua aplicação a determinados casos, diferentes princípios do Código Deontológico se revelem dificilmente conciliáveis entre si. As condições e modalidades de exercício da profissão, os conhecimentos disponíveis e a própria sociedade estão em constante mutação.importantes contributos para a compreensão de que esses interesses e valores podem ser diferentes
    Nestas condições, o Conselho de Deontologia, visando pronunciar-se sobre situações de eventual desrespeito, do Código Deontológico, tem sobretudo como incumbências a sensibilização, o esclarecimento, o aconselhamento, a arbitragem, a acumulação de exemplos e o aprofundamento das interpretações, perante problemas deontológicos que lhe sejam colocados.
    O Código Deontológico vincula os membros da A.P.S., e todos os que a ele queiram aderir enquanto referência para o exercício da actividade profissional de sociólogo. A condição mais importante para a aplicação apropriada do Código Deontológico, bem como o seu progressivo aperfeiçoamento e continuada adequação, é o compromisso para com ele e a discussão crítica das implicações deontológicas da prática profissional, por parte dos sociólogos.

    A. Prática da Sociologia
    A actividade profissional dos sociólogos é uma prática social, constituindo a sociologia, na sua pluralidade paradigmática, o fundamento cientifico dessa prática. O exercício dos diversos papéis profissionais dos sociólogos implica responsabilidades para com a sociedade e para com a sociologia.
    Os sociólogos devem exercer a sua profissão de acordo com os mais elevados padrões de competência profissional ao seu alcance. Da sua conduta profissional devem fazer parte a exploração de todas as potencialidades da sociologia e uma permanente actualização de conhecimentos. Os sociólogos devem igualmente Ter presente os limites da sua disciplina e os seus próprios limites pessoais.
    No desempenho dos seus papéis profissionais, os sociólogos não devem prescindir da autonomia de critérios e de procedimentos que é inerente às suas competências específicas. Tal não impede o respeito por outras exigências decorrentes dos enquadramentos institucionais ou contratuais em que exerçam a sua actividade, salvo se colidirem com os princípios expressos neste código deontológico.
    Os sociólogos devem procurar conseguir a maior objectividade possível na análise da realidade social. Trata-se, não de considerar a produção de conhecimento sociológico como socialmente neutra, mas de evitar distorções deliberadas resultantes de interesses ou convicções, e de explicitar os pressupostos presentes nesta análise.
    O estatuto profissional do sociólogo impõe uma postura de maior isenção possível. Implica nomeadamente procurar um relacionamento equilibrado com os diversos actores sociais, individuais ou colectivos, envolvidos no contexto da sua prática. Exclui ainda quaisquer utilizações abusivas da sua posição profissional, a qual não deve ser utilizada como falso pretexto para fins alheios à profissão de sociólogo nem, em geral, para fins fraudulentos.

    B. Recolha de Informação
    No exercício dos seus papéis profissionais, os sociólogos não devem violar o principio da voluntariedade de fornecimento de informação por parte de indivíduos, populações e instituições.
    Nos processos de recolha de informação coloca-se frequentemente a questão das diferenças de estatuto entre os sociólogos e os indivíduos, populações e instituições que integram os objectos de estudo. Essas diferenças de estatuto não devem ser manipuladas pelos sociólogos no sentido da obtenção coerciva de informação, nem devem os sociólogos deixar-se manipular pelos informantes.
    É dever dos sociólogos procurar evitar que da recolha, utilização e divulgação de informação decorram prejuízos para quem a presta ou para aqueles acerca de quem a informação é prestada. Devem, nomeadamente, salvaguardar o direito das pessoas à privacidade e ao anonimato, bem como respeitar a confidencialidade de informações e resultados, em todas as situações em que ela tenha sido acordada.
    Os sociólogos têm estrita obrigação de velar pela protecção dos arquivos de informações ou bases de dados sujeitos a confidencialidade ou anonimato. Só em caso de absoluta necessidade devidamente justificada poderão esses arquivos ou bases de dados ser tramnsferidos para outros profissionais de sociologia, desde que vinculados a este código deontológico.
    Nos processos de recolha de informação, os sociólogos devem ter o cuidado de explicitar junto dos informantes a sua identidade profissional, tal como a natureza, objectivos, procedimentos e enquadramentos institucional dos trabalhos que realizam.

    C. Relações Profissionais
    No estabelecimento de relações contratuais para o exercício das suas actividades profissionais, os sociólogos devem explicitar junto de empregadores, clientes ou financiadores a sua adesão a este código deontológico, e não aceitar compromissos que o ponham em causa.
    Os sociólogos só devem assumir compromissos profissionais para cuja realização tenham competência e disponibilidade. Quando não possam corresponder a solicitações profissionais que lhes sejam dirigidas, devem procurar indicar outros sociólogos que considerem competentes para a realização desses trabalhos.
    Nas relações profissionais é dever dos sociólogos respeitar plenamente os compromissos assumidos com contratadores e financiadores.
    Quer no estabelecimento de vínculos contratuais quer na realização das actividades contratadas, os sociólogos devem salvaguardar a autonomia de critérios e procedimentos indispensável ao exercício das suas competências profissionais.
    No desempenho dos seus papéis profissionais, os sociólogos são responsáveis tanto perante os empregadores, clientes ou financiadores como perante os grupos sociais alvo de pesquisa ou intervenção.
    As preocupações deontológicas dos sociólogos devem abranger a actividade das equipas que com eles trabalhem ou das entidades que subcontratem.
    Dadas as diferenças de poderes e de estatutos, de interesses e de valores que frequentemente se verificam nos contextos da sua actividade, os sociólogos devem procurar exercê-la através de um relacionamento profissionalmente isento com os diversos sectores sociais envolvidos, guiado pelos critérios próprios da sociologia, e proporcionar-lhes um esclarecimento adequado sobre os objectivos, procedimentos e resultados do estudo ou intervenção.
    As relações de trabalho dos sociólogos com profissionais de outras especialidades devem obedecer a princípios de cooperação e integração interdisciplinar, sem desrespeito pelas competências específicas e autonomia profissional de cada um.
    Nos trabalhos que apresentem, os profissionais de sociologia devem distinguir entre resultados de análise e propostas ou recomendações que neles se possam basear.
    Sempre que no seu trabalho os sociólogos se deparem com situações que requeiram compromissos de confidencialidade ou anonimato, a produção e divulgação de análises científicas que de algum modo se lhes reportem devem situar-se no plano teórico ou metodológico e Ter um nível de abstracção que garante o respeito por aqueles compromissos.
    Os sociólogos têm a obrigação de integrar, no desenvolvimento da sua actividade profissional, a avaliação dos possíveis efeitos das suas análises, propostas e acções técnicas. Porém, uma vez concluídos estudos ou intervenções, não podem ser responsabilizados por posteriores utilizações desses trabalhos que deturpem o sentido das suas conclusões. Devem, em todo o caso, procurar evitar que entidades contratantes ou outra os utilizem de forma inadequada ou distorcida.
    Os sociólogos têm a obrigação de referir, nos documentos que elaborem, as entidades que financiaram ou apoiaram os estudos e pesquisas neles apresentados.

    D. Ensino e Orientação
    No ensino e orientação, os sociólogos devem Ter em conta a natureza específica da prática docente e as competências requeridas para o seu exercício.
    No exercício da prática docente, é dever dos sociólogos apresentar aos alunos a pluralidade paradigmática que é própria da sociologia e a diversidade de papéis profissionais em que ela se desdobra, bem como sensibilizá-los para as implicações deontológicas da prática sociológica.
    Os sociólogos que exerçam actividades de ensino e orientação não devem usar o seu estatuto para coagir alunos e orientandos com o fim de obter vantagens profissionais ou pessoais.
    Nos trabalhos que apresentem, os sociólogos que exerçam actividades de ensino e orientação têm a obrigação de reconhecer explicitamente as eventuais contribuições de alunos e orientandos, e não devem apresentar como seus trabalhos por eles realizados.

    E. Autoria e Publicações
    Nas publicações e relatórios, os sociólogos devem explicitar, de modo adequado, todos os autores que os produziram. Devem ainda mencionar as eventuais contribuições relevantes para a realização dos trabalhos a que essas publicações e relatórios digam respeito.
    A utilização em publicações, relatórios ou comunicações de partes de textos e de dados de outros documentos ou outras fontes deve ser objecto de referênciação explícita e de acordo com normas habituais de citação bibliográfica. É também obrigação dos sociólogos que utilizem no seu trabalho instrumentos específicos de pesquisa ou intervenção produzidos por outrém (tais como questionários, guiões, tipologias, dispositivos de intervenção técnica ou outros) referenciar devidamente a respectiva autoria.
    Na elaboração de recensões bibliográficas, na avaliação de artigos com fins editoriais ou noutras actividades relacionadas com a publicação de trabalhos sociológicos, é obrigação dos sociólogos respeitar a pluralidade de orientações teóricas e metodológicas. Não devem permitir que preferências próprias se convertam em formas de exclusão, mas favorecer o debate e a crítica científicas. Devem abster-se de transpor, para actividades de recensão bibliográfica ou avaliação editorial, eventuais diferendos pessoais.
    Os sociólogos devem sempre responsabilizar-se pela autoria dos documentos que produzam, não prescindindo dos direitos intelectuais correpondentes à elaboração de publicações ou relatórios, sejam quais forem os acordos estabelecidos com outras entidades a respeito dos respectivos direitos económicos.

    F. Relações entre Colegas
    Os sociólogos têm obrigação de manter uma atitude de exame crítico da sua própria actividade profissional e da dos outros sociólogos, nos planos científico, técnico e deontológico.
    É dever dos sociólogos respeitar a dignidade pessoal e profissional dos outros sociólogos. Devem, nomeadamente, respeitar a prática sociológica exercida segundo os diversos paradigmas científicos, procedimentos metodológicos e papéis profissionais constitutivos da sociologia, sem descriminar ou denegrir colegas de profissão com base nessa diversidade, em conflitos de interesses ou em questões de natureza pessoal. Estes princípios de respeito, pluralidade e isenção aplicam-se com particular acuidade ao exercício de actividades de avaliação pedagógica, científica e profissional de outros sociólogos.
    Sempre que o exercício da actividade profissional envolva equipas de que façam parte vários sociólogos, sejam essas equipas constituídas expressamente para determinados projectos ou estejam elas inseridas em contextos organizacionais mais permanentes, os termos do relacionamento profissional entre sociólogos devem estar de acordo com os princípios enunciados neste código deontológico. As responsabilidades sociais e as obrigações deontológicas nele previstas estendem-se a todos os sociólogos componentes da equipa.
    Perante situações contratuais em que possam vir a substituir outros colegas, os sociólogos devem informar-se sobre as circunstâncias que conduziram a essa substituição, e não devem assumi-la se a razão que lhe esteve na base tiver sido a recusa, por parte dos colegas substituídos, em violar o código deontológico.
    Os sociólogos devem conservar os instrumentos de pesquisa utilizados e os registos da informação recolhida, disponibilizando-os para a consulta por parte de colegas num prazo que seja compatível com os seus próprios interesses e obrigações profissionais, excepto quando os materiais em questão estiverem sujeitos a compromissos de confidencialidade ou anonimato.

    G. Conselho de Deontologia
    Conselho de Deontologia tem como incumbências gerais a sensibilização, o esclarecimento, o aconselhamento, a arbitragem, a acumulação de exemplos e o aprofundamento das interpretações perante problemas deontológicos que lhe sejam colocados.
    Cabe ao Conselho de Deontologia, em particular, pronunciar-se sobre:
    dúvidas apresentadas por sociólogos acerca da aplicação do código deontológico a situações concretas;
    reclamações, de profissionais de sociologia ou de outras entidades, acerca de eventuais incorrecções deontológicas na prática profissional de sociólogos.
    in Associação Portuguesa de Sociologia

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