sábado, 23 de maio de 2009

A Construção Social da Realidade ( I I )

Resumo do livro
A Construção Social da Realidade ( II )

Autores: Thomas Luckman; Peter Berger
Editora: VOZES
Assunto: CIENCIAS SOCIAIS-SOCIOLOGIA
ISBN : 8532605982
ISBN-13: 9788532605986
Livro em português
26ª Edição - 2006 - 247 pág.


Os fundamentos do conhecimento na vida quotidiana

2.1) A realidade da vida quotidiana
O mundo da vida quotidiana é objecto de uma interpretação dos homens que lhe conferem sigificado e sentido;

Análise fenomenológica dos pressupostos do conhecimento na vida quotidiana

a) Intencionalidade da consciência
A consciência dirige-se sempre para objectos (físicos ou interiores) de forma intencional.

b) Os diferentes níveis da realidade
A consciência participa de de esferas diferentes da realidade - ex. a transição do sonho para o despertar.

c) A realidade predominante - a vida quotidiana
Esta realidade aparece à consciência geograficamente determinada e simbolicamente ordenada pela linguagem;
A presença imediata, espácio-temporalmente enquadrada, na realidade da vida quotidiana constitui o centro de atenção da consciência;
A consciência experimenta a vida quotidiana em graus diferentes de aproximação e distância.

d) A intersubjectividade da realidade
A realidade existe para várias consciências ao mesmo tempo;
A existência de conceitos e significados nessa realidade tornam-na inteligível para um conhecimento comum a várias consciências ;
As perspectivas pessoais acerca dessa realidade divergem de uma consciência para a outra.

e) A imposição da realidade da vida quotidiana
A realidade da vida quotidiana impõe-se a si mesma, isto é, ela é independente da consciência que a atinge;
Esta realidade afirma-se perante a consciência como real, ou seja, existente de facto;
A consciência é envolvida numa rotina dentro da vida quotidiana;
A interrupção dessa rotina abre um sector problemático na reallidade de uma consciência;
O senso comum procura integrar esses sectores problemáticos na realidade da vida quotidiana.

f) As realidades secundárias
A consciência, apesar de envolvida numa só realidade, insere-se noutros níveis ou campos finitos dessa realidade;
A atenção foca-se num aspecto particular e como que entra noutro mundo - ex. cinema, teatro, sonhos;
A consciência retorna sempre à realidade predominante (vida quotidiana).

g) A estrutura espácio-temporal do real
Em termos espaciais, o facto mais relevante é a inter-relação social entre as várias consciências;
A estrutura temporal articula-se em tempo universal, estabelecido socialmente no calendário humano, e o tempo interior e subjectivo de uma consciência.

2.2) A interação social na vida quotidiana

O relacionamento social
O face a face com o outro é a principal forma de relacionamento social, em que duas consciências se apreendem mutuamente através de uma reciprocidade de expressões subjectivas;
A presença do outro é uma realidade que se impõe por si mesma e é contínuamente acessível a uma consciência;
As formas de relacionamento consistem em esquemas tipificados - vendedor/comprador, aluno/professor;
O interesse e a intimidade determinam o grau de anonimato ou proximidade da relação entre consciências, podendo essa relação ser tipificada em termos abstractos - "opinião pública" - ou de acção recíproca face a face - o circulo interior de uma pessoa;
A estrutura social corresponde ao conjunto de relações tipificadas da vida quotidiana, bem como à relação estabelecida entre os contemporãneos e os seus antepassados e os seus sucessores.

2.3)A linguagem e o conhecimento na vida quotidiana

A objectivação da expressividade humana
As atitudes subjectivas de uma consciência podem ser expressas directamente na relação face a face - ex. quando alguém exterioriza um comportamento agressivo - ou indirectamente através da objectivação desse sentimento por meio de um produto da actividade humana - ex. uma faca é um indício de intenção subjectiva violenta;

Os sinais e os sistemas de sinais
Podem simbolizar um determinado tipo de sentimento, sem estarem relacionados com a intenção do sujeito, ou então, expressar concretamente uma intenção subjectiva -linguagem;
Numa conversa entre duas consciências, estas subjectividades tornam-se recíprocamente acessíveis;
A objectivação linguística é a principal forma de apreensão de uma consciência por outra, ou até mesmo de uma consciência por si mesmo (auto-reflexão).

O enquadramento social da linguagem
A linguagem é um sistema de sinais objectivos cujo significado está intimamente ligado ao senso comum;
Os padrões da linguagem e as suas categorias impõem-se à consciência, já que ela tipifica comportamentos e experiências conferindo-lhes um conteúdo comum a todos os indivíduos.

A transcendência da linguagem
A linguagem, apesar de estar relacionada com o contexto social, transcende a dimensão espacial, temporal e social da realidade;
A linguagem torna presentes realidades que estão ausentes do presente e do espaço ocupado por uma consciência;
As diferentes esferas da realidade são abordadas por sistemas de linguagem simbólica - arte, filosofia, ciência, religião, etc. -que afloram regiões inacessíveis à experiência quotidiana.

A objectivação linguística
A linguagem qualifica os objectos e ordena as experiências sociais mediante o seu campo específico;
A objectivação linguística permite conservar e acumular expriências que representam um acrescentamento ao conhecimento comum da vida quotidiana;
O conhecimento receitado procura dar respostas às questões pragmáticas da vida corrente.

O capital social do conhecimento
O conhecimento diferencia a realidade de acordo com o envolvimento de um sujeito na sua área de ocupação específica ou geral;
A rotina da vida quotidiana é tipificada em esquemas resultantes das experiências sociais e naturais, aceites como certos;
O conhecimento da vida quotidiana é instrumento de orientação do indivíduo, quer no dia-a-dia, quer na multiplicidade de realidades com que é confrontado.

As conveniências do conhecimento e a sua distribuição social
O conhecimento é determinado por estruturas da consciência relativamente a interesses pragmáticos;
Os indivíduos cruzam-se na sociedade em função destas conveniências - médico/ /paciente, advogado/cliente;
O conhecimento encontra-se socialmente distribuido em sistemas complexos e especializados - ex. medicina;
O conhecimento da distribuição social do conhecimento constitui também um elemento do conhecimento da vida quotidiana.

A Construção Social da Realidade ( I )

Resumo do livro
A Construção Social da Realidade ( I )

Autores: Thomas Luckman; Peter Berger

Editora: VOZES
Assunto: CIENCIAS SOCIAIS-SOCIOLOGIA
ISBN : 8532605982
ISBN-13: 9788532605986
Livro em português
26ª Edição - 2006 - 247 pág.


O problema da sociologia do conhecimento

Introdução
1.1) Sociologia, filosofia e senso comum - a relatividade social
A sociologia, a filosofia e o senso comum ocupam-se da interpretação dos factos de acordo com um determinado ponto de vista predominante;
O senso comum ocupa-se com questões práticas do dia-a-dia;
A sociologia procura interpretar estas concepçoês e compreender a sua relatividade e mutabilidade de sociedade para sociedade.

1.2) Panorâmica histórica da sociologia do conhecimento
O termo "sociologia do conhecimento" foi utilizado pela primeira vez por Max Scheler, filósofo Alemão, na década de 1920;
A interpretação da natureza e âmbito da sociologia do conhecimento difere de autor para autor, mas podemos reconhecer-lhes em comum o facto de a disciplina ocupar-se das relações entre o pensamento e o contexto social em que se insere;
O contexto cultural alemão foi de importância crucial no desenvolvimento da disciplina.

1.3) A influência Marxista, Nitzcheneana e historicista
Independentemente da controvérsia em redor da interpretação da obra de Marx, podemos dizer que o seu contributo mais importante diz respeito aos conceitos de infra-estrutura e superestrutura, bem como a teoria que afirma que a conciência do homem é determinada pelo seu ser social;
O anti-idealismo de Nietzche introduziu novas perspectivas à sociologia do conhecimento, principalmente pelas suas teorias de sobrevivência e poder, assim como as ideias relativas à falsa consciência e ao ressentimento;
O historicismo (Wilhelm Dilthey) insere a concepção do necessário enquadramento histórico do pensamento humano, ou seja, do situamento social e histórico do pensamento.

1.4) Scheller - o aproveitamento filosófico da sociologia do conhecimento
Scheller introduz de forma tacteante a sociologia do conhecimento quando procura fundamentar uma antropologia filosófica através da identificação dos ideais de uma determinada formação económica;
É um método negativo já que, apesar de identificar essas ideias, não as relaciona com o seu contexto sócio-histórico e nega assim a possibilidade de investigação sociológica.

1.5) Mannheim - a extensão do campo da sociologia do conhecimento
Este autor acrescenta, em relação a Scheller, a validade da sociologia do conhecimento na compreensão do contexto social da formação das ideias;
O fundamento social das ideias (superestrutura) constitui uma extensão do campo de estudo da sociologia do conhecimento.

1.6) Crítica à concepção da sociologia do conhecimento
A sociologia do conhecimento ocupou-se principalmente de questões epistemológicas dentro da esfera das ideias;
Independentemente da pertinência e validade destas questoês, elas enquadram-se no campo da metodologia das ciências sociais;
As questões metodológicas e epistemológicas devem ser excluidas da análise da sociologia do conhecimento.

1.7) Redefinição da sociologia do conhecimento
A sociologia do conhecimento deve estudar todo o tipo de conhecimento;
Para além do plano ideológico o seu campo de estudo deve ser fundamentalmente o conhecimento dos homens acerca da realidade do dia-a-dia;
O tratamento deste conhecimento (senso comum) deve constituir a principal tarefa da sociologia do conhecimento

Conclusão
A sociologia do conhecimento é o estudo da construção social da realidade;
Compreender os factos sociais na sua vertente objectiva e subjectiva constitui o propósito da investigação da maneira pela qual uma determinada realidade é construida.


terça-feira, 19 de maio de 2009

A Representação do EU na vida cotidiana



Do título original, "The Presentation of Self in Everyday Life" de Erving Goffman, aparecem em português traduções diferentes, como a que aqui é apresentada neste clip, "A Representação do Eu, na Vida Cotidiana", que aparece em edições brasileiras, e " A Apresentação do Eu, na vida de Todos os Dias" que aparece em edições portuguesas. A segunda está mais correcta, porque efectivamente "presentation" é "apresentação" e não "representação".

Relativamente a este vídeo clip, considero que é bom o propósito dado que transmite a mensagem pretendida, embora a qualidade do som seja fraca, os autores estão de parabéns pelo trabalho. Segundo o autor este vídeo representa o drama de Wellington, que deseja ser aceite pelo grupo e o drama que o mesmo passa para adaptar a sua vida para entrar no referido grupo de amigos! Wellington passa por momentos de rejeição, mas vai fazer tudo e encontrar maneira de ser aceite e não ser rejeitado. Observando a aceitação do individuo perante as exigências de definição do grupo, percebe-se a importância da apreensão de informação, na leitura e interpretação dos sinais que esse mesmo individuo, vai obter dos demais, é com base nesta capacidade de interpretar os sinais, que o indivíduo projecta as suas acções. A sua postura inicial, a sua apresentação impossibilita-o de ser próximo e de se integrar, com o continuar da interação, este estado inicial é alterado e o individuo, vai de encontro às expectativas do grupo.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Goffman, Erving (1929 - 1982 )

Erving Goffman nasceu em Manville, Alberta – Canadá em 11 de Junho de 1922 e faleceu em Filadélfia no Estado da Pensilvânia nos Estados Unidos da América no dia 19 de Novembro de 1982. Obteve o grau de bacharel pela Universidade de Toronto em 1945, tendo obtido os graus de mestre em 1949 e o de Doutor em 1953 na Universidade de Chicago, onde estudou tanto Sociologia como Antropologia Social. Em 1958 passou a integrar o corpo docente da Universidade da Califórnia em Berkeley, tendo sido promovido a Professor Titular em 1962. Ingressou na Universidade da Pensilvânia em 1968, onde foi professor de Antropologia e Sociologia. Em 1977 obteve o prémio Guggenheim. Foi presidente da Sociedade Americana de Sociologia, em 1981-1982. Efectuou pesquisas na linha da sociologia interpretativa e cultural, iniciada por Max Weber. Em La mise en scène de la vie quotidienne, Goffman desenvolve a ideia que mais identifica a sua obra: o mundo é um teatro e cada um de nós, individualmente ou em grupo, teatraliza ou é actor consoante as circunstâncias em que nos encontremos, marcados por rituais posições distintivas relativamente a outros indivíduos ou grupos. Goffman aplicou ao estudo da civilização moderna os mesmos métodos de observação da antropologia cultural: assim como, nas sociedades indígenas, há ritualizações que permitem distinguir indivíduos e grupos, também, nas sociedades contemporâneas, a origem regional, a pertença a uma classe social ou quaisquer outras categorias se marcam por ritualizações que distinguem indivíduos e grupos, tomando por exemplo pequenos aspectos, como as formas de vestir ou de se apresentar publicamente. No contexto descrito, Goffman considera a interacção como um processo fundamental de identificação e de diferenciação dos indivíduos e grupos; de resto, os mesmos, isoladamente, não existem; só existem e procuram uma posição de diferença pela afirmação, na medida em que, justamente, são "valorizados" por outros.

Bibliografia:
Dicionário de Sociologia, (2004). 1ª ed. Porto, Portugal: Porto Editora, ISBN 972-0-05273-2
Magill's Guide to 20th Century Autores (1997) Salem Press, Pasadena, CA
Ver também:
Erving Goffman Biography

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Operário em Construção


Era ele que erguia casas
Onde antes so' havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Nao sabia por exemplo
Que a casa de um homem e' um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa quer ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.


De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pa', cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento


Alem uma igreja, à frente
Um quatel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Nao fosse eventuialmente
Um operário em contrucão.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
`A mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma subita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operario em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.


Ah, homens de pensamento
Nao sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua propria mao
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que nao havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.


Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu tambem o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele nao cresceu em vão
Pois alem do que sabia
- Excercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.


E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edificio em construção
Que sempre dizia "sim"
Comecam a dizer "não"
E aprendeu a notar coisas
A que nao dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pes andarilhjos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.


E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução


Como era de se esperar
As bocas da delação
Comecaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão nao queria
Nenhuma preocupação.
- "Convencam-no" do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.


Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se subito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!


Em vao sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porem, por imprescindivel
Ao edificio em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.


Sentindo que a violência
Nao dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobra-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ves
Sera' teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.


Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Nao ves o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Nao podes dar-me o que e' meu.


E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martirios
Um silêncio de prisão.
Um siêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silencio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperanca sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razao porem que fizera
Em operário construido
O operário em construção


Vinícius de Moraes
imagem-internet

sexta-feira, 1 de maio de 2009

CiberSexualidades

Alguns indivíduos desejam sujeitar ou reprimir fisicamente outros indivíduos para a sua própria excitação sexual ou para a excitação dos seus parceiros. Reciprocamente, outros indivíduos desejam ser fisicamente sujeitados ou reprimidos para a sua própria excitação sexual ou para a excitação dos seus parceiros. O conjunto destes desejos é chamado sexual bondage ou submissão sexual: o uso de dispositivos ou materiais fisicamente repressores no comportamento sexual que têm significação sexual pelo menos para um dos parceiros. O comportamento autocrático também pode incluir elementos de sexual bondage. Antes do advento da Internet, os indivíduos que praticavam estas práticas sexuais formavam "clubes" e "friendship networks" e algumas destas sociedades publicavam "newsletters" e magazines contendo informação, artigos típicos e anúncios pessoais. No momento presente, a Internet Sexual facilita estes contactos entre indivíduos de todo o mundo interessados na sexual bondage, bem como outras variantes de comportamento sexual relacionadas. Na linguagem da subcultura bondage, a sexual bondage é frequentemente chamada B & D (Bondage and Discipline), sendo distinguida da D & S (Dominance and Submission) e da S & M (Sadomasochism). Diversos estudos mostram que a sexual bondage pode coexistir com outras variantes do comportamento sexual, tais como sadomasoquismo (Spengler, 1977), travestismo (Blanchard & Heecker, 1991), asfixia auto-erótica (Blanchard & Heecker, 1991; Innala & Ernulf, 1989) e homossexualidade (Townsend, 1983).
Em termos muito gerais, podemos dizer que D & S é usado frequentemente como um quadro-geral que inclui os outros termos, bem como um conjunto de outras variantes sexuais, tais como fetichismo e travestismo, quando os comportamentos sexuais implicam a troca ou mudança de poder (exchange of power). No seu sentido restrito, B & D refere-se ao uso no comportamento sexual de materiais ou dispositivos fisicamente restritivos, ou à utilização de ordens (commands) psicologicamente restritivas. Estas ordens podem impor obediência, servidão ou escravidão, sem induzir dor física. Também pode envolver alguma punição física, a qual é distinta da sadomasoquismo, porque a punição não é imposta para induzir dor física, mas como expressão de disciplina sexual psicológica. S & M refere-se aos comportamentos sexuais que incluem imposição e/ou recepção de dor física ou psicológica. A sujeição sexual faz parte integrante da Bondage and Discipline. A disciplina significa neste quadro limitações psicológicas, tais como controle, tratamento e punição não-física. Os indivíduos podem controlar os parceiros, ordenando-lhes a realização ou não de determinados comportamentos sexuais, ou podem pedir-lhes para realizar comportamentos não-sexuais erotizados. Tais comportamentos podem incluir "corridas errantes", limpar a casa ou vestir de uma maneira especial. A recompensa ou a punição são dadas em função do modo como estes comportamentos são executados ou desempenhados.
Com o advento do "politicamente correcto", a investigação destes comportamentos sexuais declinou, embora tenham sido realizados alguns estudos com amostras não-clínicas para compreender melhor a B & D, bem como com modelos patologicamente orientados. Scott (1983) relatou que alguns homens apreciadores de sexual bondage recordaram que tinham tido previamente fantasias submissas ou que tinham gozado quando, em crianças, foram capturados ou amarrados no decurso dos jogos "Cowboys and Indians". Porém, outros homens só descobriram o seu lado submisso já no decorrer da vida adulta, obtendo grande gratificação sexual com a realização de tais comportamentos. Alguns destes homens ainda recordavam a primeira excitação submissa que experimentaram quando um amante os amarrou por brincadeira. Heilbreen & Seif (1988) estudaram 54 homens com idade universitária, submetendo-os à visão de gravuras eróticas de mulheres a praticar bondage que exibiam angústia física. Estes homens achavam estas gravuras mais sexualmente estimulantes do que as gravuras onde as mulheres manifestavam afecto positivo. Zillman & Bryant (1986) estudaram homens e mulheres, estudantes e não-estudantes, sujeitos à exposição contínua de pornografia não-violenta disponível no mercado. A pornografia expunha exclusivamente cenas de comportamento heterossexual consentido entre adultos. Os resultados mostraram que havia maior interesse na pornografia que expunha menos frequentemente actividades sexuais, como por exemplo a sexual bondage. Scott (1983) observou que as mulheres que tinham interesse em B & D não relatavam fantasias sexuais precoces, tal como sucedia com os homens. Muitas mulheres foram introduzidas na disciplina sexual durante uma relação emocional e não por considerarem inicialmente esta prática erótica. Das poucas mulheres que descobriram a disciplina sexual por sua própria iniciativa, a maior parte tinha geralmente backgrounds invulgares ou treino em psicologia ou em ciências sociais, que as levaram a ser mais abertas em relação à sexualidade ou a querer compreender melhor as formas invulgares de comportamento sexual.
As fantasias sexuais desempenham um papel nuclear, isto é, estruturante, na sexual bondage, já que os parceiros tendem geralmente a negociar um acordo prévio sobre os cenários de fantasia antes de agirem ou realizarem essas fantasias na prática. Eve & Renslow (1980) estudaram 72 homens e mulheres estudantes, com uma média de idade de 24 anos. 13% destes sujeitos relataram excitação sexual quando fantasiavam em ser amarrados ou limitados de alguma outra forma. Porém, as fantasias nem sempre são realizadas e, como mostrou Scott (983), algumas têm o seu maior efeito de excitação quando não são concretizadas. Winick (1985) estudou a B & D com base em magazines sexualmente explicitas, cujas gravuras exibem relações com papéis de poder desiguais. Os resultados mostraram que os homens eram dominantes em 71% dos casos, e submissos em 29% das situações. Crepault & Couture (1980) estudaram 94 homens que viveram com uma mulher durante pelo menos um ano. O conteúdo das suas fantasias sexuais ocorridas durante a actividade heterossexual centrava-se sobre três temas principais: confirmação do poder sexual, agressividade e fantasias masoquistas. Destes homens, 39% fantasiaram algumas vezes com uma "cena em que amarram uma mulher e a estimulam sexualmente", e 36% fantasiaram frequentemente com uma "cena em que eram amarrados e estimulados sexualmente por uma mulher".
Diversos estudos americanos e europeus demonstraram que os profissionais de colarinho-branco de determinados sectores das "elites do poder" (Janus et al., 1977), portanto, homens que ocupam posições dominantes na sociedade, recorrem regularmente ao serviço de prostitutas para os dominar. Isto significa que estes homens que ocupam posições dominantes na sociedade, tais como políticos ou empresários bem sucedidos, são homens submissos que, devido à dificuldade de encontrar mulheres heterossexuais dominantes (Baumeister, 1988; Weinrich, 1987), recorrem ao negócio emergente denominado «dominatrix»: mulheres dominadoras profissionais («dominatrices») que satisfazem as necessidades sexuais de homens submissos-receptivos, supostamente não-homossexuais (Scott, 1983). Quer sejam prostitutas ou não, estas mulheres dominadoras podem atar ou acorrentar os seus clientes de colarinho-branco, dar-lhes palmadas ou chicotadas, açoitá-los, dominá-los e humilhá-los. Muitas destas práticas são suficientes para satisfazer as necessidades dos seus clientes, que também podem masturbar-se durante a sessão de submissão ou de sujeição sexual. Baumeister (1988) interpretou este desejo de desempenhar um papel submisso-receptor na sexual bondage como um sinal de masoquismo, portanto, como um desejo de eliminar a liberdade de acção e a iniciativa, que, nalguns casos observados por mim, aponta no sentido da auto-destruição ou da auto-mutilação corporal (De Sousa, 2006). Assim, o indivíduo que pratica a submissão sexual é aliviado ou liberto da iniciativa, da escolha e da responsabilidade por actos sexuais que, de outro modo, poderiam gerar conflito interno. A submissão sexual constitui uma espécie de fuga ou escape de elevados níveis de consciência do self: a sua prática evita que tome a decisão e assuma a responsabilidade pelos actos praticados. Ao ser amarrado ou limitado, o self promove nível baixo de auto-consciência imediata e concentra a atenção sobre o desamparo e a vulnerabilidade.
Porém, os indivíduos que apreciam sexual bondage raramente se envolvem em episódios de coerção sexual. Este comportamento está intimamente relacionado com o narcisismo (Bushman et al., 2003; Baumeister et al., 2002). Os narcisistas acreditam cegamente nos mitos convencionais da violação, vêem as vítimas como culpadas e sentem menos empatia pelos outros. Além disso, são muito favoráveis aos filmes com cenas de descrição de violações e, na realidade, reagem muito negativamente à rejeição das mulheres. Por isso, como não aceitam facilmente que as parceiras recusem os seus avanços sexuais, podem recorrer à força para fazer sexo não-consentido. Malamuth (1996) falou mesmo de uma síndrome de masculinidade hostil, caracterizada por um forte desejo de controlar as mulheres e por uma atitude insegura mas hostil em relação a elas. Esta síndrome combina-se com a preferência por sexo anónimo ou impessoal e a agressão sexual (De Sousa, 1998, 2006, 2007).
Alguns Dados Portugueses. A minha pesquisa mostrou claramente que as práticas de sexual bondage são muito frequentes entre os portugueses e que um número significativo de homens portugueses prefere o papel submisso-receptor, mesmo que não sejam homossexuais. Muitos desses homens ocupam efectivamente posições de relevo na sociedade portuguesa. Contudo, no que se refere aos homens homossexuais e bissexuais, convém frisar que, neste grupo, um número significativo desses homens prefere o papel dominador e executa actos muito hipermasculinos, tais como rimming, dildo, cookbinding, watersports, enema, fistfucking, scatologia e catheter. Com raras excepções, além das profissionais do sexo, as mulheres portuguesas participam pouco nas práticas de sexual bondage e, quando o fazem, são submissas. A escassez de mulheres justifica em parte a ocorrência de sessões de sadomasoquismo ou de disciplina sexual mistas, envolvendo os dois sexos e as diversas orientações sexuais. De um modo geral, os homens portugueses referem o sadomasoquismo, o exibicionismo, o voyeurismo, o fetichismo, os
piercings íntimos e tattoos como práticas associadas à B & D. Os homens auto-intitulados bissexuais, sobretudo os que são casados com mulheres, quase todos pais, envolvem-se facilmente nestas práticas sexuais, num ritmo quase diário, desempenhando frequentemente o papel submisso e de receptores anais. Os homens portugueses que praticam sexual bondage experimentam elevado prazer sexual intensificado, em comparação com o comportamento sexual convencional, chamado na sua linguagem "vanilla sex".
Estes resultados são congruentes, em termos genéricos, com os resultados do estudo mediado por computador realizado por Ernulf & Innala (1995), onde foram analisadas 514 mensagens, provenientes dos USA, Austrália, Canadá, Finlândia, Alemanha, Japão, Holanda, Noruega, Suécia e Reino Unido, com o objectivo de compreender melhor as experiências dos indivíduos, homens e mulheres, que praticam sexual bondage. 72% das mensagens foram escritas por homens, 24% por mulheres e 4% não referiam o sexo. Nas mensagens masculinas, 81% declararam ser heterossexuais, 18% homossexuais e 1% bissexuais. Nas mensagens femininas, 87% eram heterossexuais, 10% lésbicas e 3% bissexuais. Em 33% das mensagens, os participantes referiram o sadomasoquismo, e apenas 7 mencionaram o exibicionismo, a zoofilia, o voyeurismo, o fetichismo pelo pé e piercing. Neste estudo, somente 4 mulheres heterossexuais disseram preferir o papel dominador-iniciador, e 16 homens heterossexuais preferiam o papel submisso-receptor. Isto significa que os homens heterossexuais que preferem o papel submisso têm dificuldade em descobrir mulheres heterossexuais que desejam ser dominantes. Nas mensagens, 89% das mulheres heterossexuais preferiam o papel submisso-receptor, enquanto a maioria dos homens heterossexuais preferiam o papel dominador. Isto indica boa compatibilidade entre os sexos e, segundo os meus estudos, esta compatibilidade sexual estende-se também aos universos homossexuais, embora no estudo de Ernulf & Innala (1995) apenas 1 homem homossexual preferisse o papel dominador. Neste aspecto, não há congruência entre os dois estudos. Em Portugal, não tenho verificado uma desproporção entre o número de homens homossexuais que preferem o papel submisso e o papel dominante. Nalgumas situações pontuais, verifica-se um excesso de dominadores em relação aos submissos, sobretudo nas sessões de sadomasoquismo cujos participantes são recrutados via Internet. A versatilidade de papéis é desejável na comunidade gay e pode assentar na diferença entre os papéis que os homens gay preferem e os papéis que podem desempenhar. Outra discrepância entre estes dois estudos diz respeito aos papéis desempenhados pelos homens heterossexuais. Muitos homens heterossexuais portugueses preferem efectivamente desempenhar o papel submisso, executando ordens sexuais muito pouco congruentes com a sua orientação sexual. E o número daqueles que dizem preferir praticar o coito anal nas suas relações heterossexuais cresce cada vez mais.
Estes resultados exigem a problematização da heterossexualidade masculina, levando-nos a colocar a questão: O que é efectivamente um macho heterossexual? O heterosexismo dominante e a sua noção de masculinidade hegemónica (J.W. Connell & J.W. Hesserschmidt, 2005) iludem esta questão, apresentando a heterossexualidade como orientação sexual normal. Porém, quando observamos os homens heterossexuais em acção, detectamos rapidamente que aquilo que fazem não corresponde à imagem social do homem heterossexual. Não só não sabemos explicar a heterossexualidade como também somos forçados a constatar que algo errado se passa actualmente com a heterossexualidade masculina. Na minha amostra interactiva, mediada por computador (De Sousa, 2002, 2006, 2007), um número significativo de homens auto-intitulados heterossexuais, alguns casados, outros solteiros, nacionais e estrangeiros, que são "meus escravos sexuais", tanto no "perfil masculino", como no "perfil feminino", independentemente da orientação sexual simulada, obedece prontamente e pratica "auto-felação" ou penetra dildos ou dedos ou outro objecto qualquer no ânus, entre outras actividades. As sexualidades de género masculino são muito mais rígidas do que as sexualidades femininas de género (Baumeister, 2000; Diamond, 2000, 2004; De Sousa, 2006). Porém, verifica-se no momento presente que os homens heterossexuais estão cada vez mais plásticos em termos de prazeres e actividades sexuais realizadas, praticando frequentemente actividades sexualmente atípicas. Esta aparente plasticidade erótica da sexualidade masculina merece atenção, porque põe em causa aparentemente os estudos biológicos da orientação sexual. (Existem factores biologicamente activos que podem explicar este fenómeno.)
Nota: Este post foi editado originariamente aqui. O desenvolvimento deste ciberestudo encontra-se aqui, aqui ou, de modo integrado, aqui.
J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Sociologia e Religião - II


Outro autor clássico da Sociologia,Karl Marx,também analisa a importância da religião para as sociedades,mas de uma outra forma:

A religião é o suspiro da criatura oprimida,o coração de um mundo sem coração,assim como é o espírito de uma situação sem espiritualidade,ela é o ópio do povo.

Para Marx,a religião não faz o homem,mas é o homem que faz a religião.A religião é a expressão de um sofrimento real dos homens,ou seja, eles têm necessidade de acreditar em algo para aliviar seus sofimentos,como o ópio.Por outro lado,segundo Marx, as classes dominantes utilizam-se da religião como ideologia para dominar os oprimidos e explorados.Portanto, a religião é vista como ilusão, ideologia que contribui para justificar uma dominação de classe. Marx e os marxistas fornecem exemplos disso: quando as igrejas afirmam que os pobres devem se conformar com sua condição de pobreza,pois o mundo foi criado por Deus e assim sempre será.

Max Weber,foi outro sociólogo que também estudou as religiões. Para ele, é na compreensão dos comportamentos religiosos que podemos entender melhor a atividades humanas, pois a religiosidade influencia também outras atividades humanas como a ética, a economia, a política ou as artes. Em seus estudos, por exemplo, ele tentou provar que houve uma mudança na concepção de trabalho a partir da ética protestante. Se na Antiguidadeo trabalho era visto pelos homens como uma coisa penosa e vil, na Idade Média, como fruto do pecado original e como tortura, com o aparecimento do capitalismo, combinando com a nova ética protestante, o trabalho passa a ser visto como êxito da vida mundana,expressão das bençãos divinas, pois, assim, se cumprirá uma vocação e a garantia da graça divina. Segundo Weber, essa concepção de trabalho, protestante e puritana, servirá perfeitamente para o aparecimento do capitalismo, que necessitava de trabalhadores para gerar capital e lucros para a burguesia.

Sociologia para jovens do século XXI- Luiz Fernandes de Oliveira e Ricardo Cesar Rocha da Costa

terça-feira, 17 de março de 2009

Sociologia e Religião- I



Comida

Titãs

Composição: Arnaldo Antunes / Marcelo Fromer / Sérgio Britto

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte...

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer...

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...

A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Prá aliviar a dor...

A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade...

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...


Diversão e arte
Para qualquer parte
Diversão, balé
Como a vida quer
Desejo, necessidade, vontade
Necessidade, desejo, eh!
Necessidade, vontade, eh!
Necessidade...



Émile Durkheim,um dos fundadores da Sociologia,escreveu no século XIX:

Diz-se que a ciência,em princípio,nega a religião.Mas a religião existe.Constitui-se num sistema de fatos dados.Em uma palavra:como poderia a ciência negar tal realidade?

Para Durkheim,toda religião tem como característica separar o mundo em coisas profanas e coisas sagradas.Nas coisas profanas os indivíduos têm atitudes utilitárias,ou seja,objetos,idéias e coisas que,quando não servem mais,podem ser descartados,pois só têm valor na medida em que são úteis.Nas coisas sagradas ocorre o contrário,objetos,idéias e coisas assumem um valor superior ao homem,é reverenciado.O homem não é mais o centro do universo,nem a origem das coisas:

Sente-se dominado e envolvido por algo que dele dispõe e sobre ele impõe normas de comportamento que não podem ser transgredidas,mesmo que não apresentem utilidade alguma.

(Alves,1984).

Estas características,para Durkheim,revelam que a religião é uma das fontes na qual se criam regras de comportamento,normas e garantias de harmonia entre os homens.


Sociologia para jovens do século XXI-Luiz Fernandes e Ricardo Cesar Rocha da Costa


domingo, 1 de março de 2009

Sociologia e objectividade III



ir para:Texto anterior


  • I A perspectiva da sociologia
  • II Sociologia e perspectivação científica
  • a) O objecto de estudo da Sociologia
  • III Sociologia e objectividade





  • III. Sociologia e objectividade
    1. O sociólogo deve tentar evitar juízos de valor que ameacem a qualquer momento irromper na sua análise
    O sociólogo alemão Max Weber insistiu particularmente neste ponto distinguindo juízo de valor e referência aos valores: o juízo de valor, que consiste em expor os seus a prioris e em avaliar as acções de outrem a partir dos seus próprios princípios, é de proscrever em sociologia, ao passo que a referência aos valores pode, pelo contrário, guiar o sociólogo na sua actuação. Trata-se de seleccionar certos aspectos de um fenómeno em função das interrogações prévias do sociólogo: este, com efeito, recorta a realidade social que escolhe estudar em função dos seus próprios centros de interesse.
    Para Weber, o sociólogo deve principalmente esforçar--se por obter a significação que um indivíduo dá à sua acção. É a razão pela qual a actuação que ele preconiza é chamada «compreensiva»: visa compreender os motivos que levam o indivíduo a adoptar um tipo de comportamento. Weber distingue assim quatro formas de acção social, isto é, vários modelos de acção possíveis para um indivíduo.
    A acção tradicional apoia-se nos costumes e nos hábitos adquiridos e caracteriza o conjunto das actividades familiares ao indivíduo: obedecer ao seu pai é uma acção tradicional.

    A acção afectiva é orientada por pulsões tais como o amor ou o ódio sentido em relação a outrem.
    A acção racional referente a valores visa a conformidade com as convicções sem dar importância às suas consequências práticas: o militar que, após uma derrota, se mata fornece disso uma ilustração.
    A acção racional em termos de finalidades consiste em avaliar os meios disponíveis a fim de atingir um objectivo previamente fixado: o engenheiro que manda construir uma ponte procede dessa maneira.
    Estas categorias de acção não pretendem enumerar precisamente as actividades sociais em toda a sua extensão, posto que Weber assinala que a maioria de entre elas relevam, na prática, de formas mistas. Elas derivam do método do ideal-tipo segundo a definição que dele dá Weber, isto é, um «quadro de pensamento» ou um modelo abstracto elaborado a partir de certos traços voluntariamente salientados de um fenómeno: o sociólogo aprecia então o desvio existente entre a «realidade» que observa e o quadro imaginário que constrói. Esta abordagem não está muito afastada da análise do economista (o que não é surpreendente, pois Max Weber foi economista antes de se virar para a sociologia) que confronta o modelo do mercado de concorrência pura e perfeita com os diferentes tipos de mercados existentes. O ideal-tipo permite assim a Weber entregar-se a uma tarefa de sociologia comparativa, pondo à prova a sua definição ideal-típica da cidade, da burocracia, do capitalismo ... em situações observáveis nas diversas sociedades e em diferentes épocas.

    2. Se o sociólogo não faz prova de uma «objectividade perfeita» que permanece ilusória, deve, contudo, esforçar-se por analisar com precisão a sua relação com o objecto
    Max Weber preconizava a neutralidade axiológica, isto é, a separação nitída entre os juízos morais próprios do investigador e a sua análise científica. Esta louvável intenção é, no entanto, frequentemente difícil de aplicar: não basta que o sociólogo proclame não agir senão en função da sua «ética» científica para que o problema desapareça. O sociólogo não «flutua no ar», não está separado de toda a trama prática, uma vez que ocupa necessariamente uma posição específica no espaço social, é originário de um meio social, possui «gostos» e «repulsas» particulares ... Este agente social tem a «missão» singular de compreender o que fazem os agentes sociais e de dar conta disso mesmo. Ele não pode, por conseguinte, apresentar a sua «ciência» e adoptar uma posição «de superioridade», cara ao analista que se pronuncia «com toda a objectividade», isto é, em nome da ciência, para dar solução a debates cujas tramas nem sempre têm que ver com questões de ordem científica («Quais são as prioridades dos Franceses?», dando apenas um exemplo).

    O sociólogo ganha em esclarecer a distância ou a proximidade — obstáculos que aliás se podem sobrepor — que mantém com o seu objecto de estudo. Dito de outra maneira, deve renunciar a fazer crer que os seus «títulos» constituem um passaporte suficiente para a compreensão sem dificuldade de uma situação social. Segundo a fórmula do sociólogo francês Pierre Bourdieu, o sociólogo tem todo o interesse em objectivar a objectivação, isto é, em encarar o mundo social como um objecto (como preconizava Durkheim) e, do mesmo passo, em incluir-se na análise sociológica. Se um olhar neutro sobre o objecto parece efectivamente impossível, uma socioanálise permite levar em conta o «olhar» particular que o sociólogo lança sobre o seu objecto e o incita a redobrar a vigilância perante as prenoções que ameaçam sempre imiscuir-se na análise.


    terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

    O objecto de estudo da sociologia foi determinado por Émile Durkheim em As Regras do Método Sociológico (1895)




    Ler capítulo anterior:

    Sociologia e perspectivação científica( capítulo II )



    PRIMEIRAS LIÇÕES DE SOCIOLOGIA
    por: Philippe Riutort

    tradução de: Eduardo de Freitas
    Nº de páginas 140
    Ano de edição 1999
    ISBN: 972-662-692-7
    Editora Gradiva



    2. O objecto de estudo da sociologia foi determinado por Émile Durkheim em As Regras do Método Sociológico (1895)
    No seu difícil empreendimento de construção da sociologia como disciplina de corpo inteiro (durante muito tempo titular de uma cadeira de Ciências da Educação, não é, com efeito, senão em 1913 que ele obtém o título de professor de Sociologia e Ciências da Educação na Sorbonne), Durkheim dedica-se a conferir um objecto próprio à sociologia, que, segundo ele, se deve demarcar das outras disciplinas existentes, tais como a Psicologia, a História, a Economia ...


    Para Durkheim, a singularidade da sociologia reside no estudo do facto social, irredutível, em virtude das suas características próprias, ao facto psicológico e que exige uma investigação específica. Ao escolher estudar o suicídio, Durkheim recusa assim globalmente as abordagens psicológicas e afirma que (contrariamente às aparências) este fenómeno constitui na verdade um facto social, isto é, o contexto social exerce uma influência mensurável através da análise das variações da taxa de suicídio. O suicídio preenche os critérios do facto social enunciados em As Regras do Método Sociológico: um facto social consiste, segundo Durkheim, «em maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo dotadas de um poder de coerção por força da qual se impõem àquele». Dito de outra maneira, o facto social apresenta as características seguintes: trata-se de um fenómeno colectivo, anterior e exterior à consciência individual sobre a qual aquele exerce um constrangimento. Durkheim insiste em As Regras no facto de o indivíduo, enquanto ser social, interiorizar um conjunto de princípios que influenciam as suas acções sem que disso se dê necessariamente conta.


    "Quando me entrego à minha tarefa de irmão, de cônjuge ou de cidadão, quando realizo os compromissos que contraí, cumpro os deveres que estão definidos, exteriores a mim e aos meus actos, no direito e nos costumes."

    Se a sociologia tem por domínio o estudo dos factos sociais que devem ser apreendidos como «coisas», então o sociólogo deve aplicar-se a «explicar o social pelo social» e afastar assim todo o tipo de explicação «extra-social» que não é do seu foro. Em O Suicídio, Durkheim examina uma a uma as explicações de ordem psicopatológica que imputam o suicídio, nomeadamente, à loucura, às considerações assentes na hereditariedade, ao clima, à imitação, explicações que ele tem o cuidado de ir invalidando sucessivamente. Seguidamente, com o apoio das estatísticas, vem mostrar uma tipologia de suicídios pela qual distingue três tipos principais: o suicídio egoísta, o suicídio altruísta, o suicídio anómico e, em esboço, um quarto: o suicídio fatalista. Existe para Durkheim uma relação entre a taxa de suicídio verificada e o nível de integração e de regulação sociais.


    • O suicídio egoísta é a manifestação de uma integração social demasiado fraca (quando a sociedade não exerce senão um fraco controlo sobre o indivíduo, aparece uma «indivualização desmesurada») e observa-se em diferentes domínios da vida social: a taxa de suicídio é, por exemplo, sensivelmente mais elevada nos protestantes do que nos católicos e mais alta nos católicos do que nos judeus. A ex-plicação reside, para Durkheim, no grau de individualismo próprio a cada religião: este é muito fraco nos judeus, onde o sentimento de pertença a uma comunidade é muito elevado, é mais considerável nos católicos, que conhecem não obstante uma integração social forte ligada à influência da Igreja, enquanto é entre os protestantes que o «livre arbítrio» está mais desenvolvido e o clero menos presente na vida social. Durkheim pode daí concluir que a religião preserva do suicídio, não porque o dogma religioso condene esse acto, mas porque ela participa na integração social dos indivíduos, inserindo-os num grupo, o que tem por efeito reforçar as suas relações sociais.

    O suicídio altruísta caracteriza-se, ao invés do suicídio egoísta, por uma integração social demasiado forte. Como escreve Durkheim: «Quando o homem está desvinculado da sociedade, mata-se facilmente, e mata-se também quando está fortemente integrado nela». Este caso de suicídio é característico das sociedades primitivas onde o individualismo é muito fraco. Subsiste também como forma de sobrevivência nas sociedades modernas, como na sociedade militar (Durkheim nota que a taxa de suicídio é mais elevada nos militares do que nos civis), quando a pressão da hierarquia se impõe fortemente ao indivíduo.
    • Durkheim define enfim o suicídio anómico (este tipo de suicídio é aquele ao qual ele concede mais importância), que corresponde a uma falta de regulação social e se opõe directamente ao suicídio altruísta relacionado com uma regulação social excessiva. O suicídio anómico representa assim a forma mais corrente de suicídio nas sociedades modernas. As desregulações sociais sobrevêm quando à sociedade se deparam mutações profundas: os indivíduos encontram-se por isso numa situação inédita, visto que as suas referências habituais já não são operantes, o que significa que os seus desejos já não são socialmente circunscritos (são ilimitados), enquanto os objectivos que lhes são oferecidos, vulgarmente definidos de modo claro, se tornam indeterminados. Durkheim observa sobre este assunto um facto que, à primeira vista, poderia parecer surpreendente: os suicídios progridem durante os períodos de transformações económicas, tanto nos momentos de crise como nos de forte crescimento. De facto, nestas situações de mudança social rápida, a influência moderadora da sociedade, que habitualmente modela os desejos dos indivíduos, afrouxa, enquanto as aspiraçõe tendem a aumentar bruscamente sem que possam necessariamente ser satisfeitas.
    "Porque a prosperidade aumentou, os desejos estão exacerbados. A presa mais rica que lhes é oferecida estimula-os, torna-os mais exigentes, mais impacientes a respeito de qualquer regra, justamente quando as regras tradicionais perderam a sua autoridade."


    Durkheim considera em consequência que o suicídio anómico é particularmente preocupante nas sociedades modernas, visto estar estreitamente ligado à falta de controlo que nelas a sociedade exerce sobre o indivíduo. Ele nota, a este propósito, que as funções industriais e comerciais, que são objecto de uma fraca regulamentação, são igualmente as mais tocadas pelo suicídio.
    Durkheim demonstrou assim magistralmente no seu estudo, contrariando o «senso comum», para o qual o suicídio não pode resultar senão de uma decisão individual, que as lógicas sociais podem influenciar as variações das taxas de suicídio de uma população.


    Admitindo-se, na sequência de Durkheim, que o suicídio constitui um facto social, pode-se então perguntar até onde o sociólogo deve prosseguir a sua pesquisa a fim de «cercar» a presença do social nos diversos comportamentos humanos. O «social», efectivamente, não tem limites, posto que se manifesta pelo conjunto de acções do indivíduo na sociedade, mesmo através das que parecem a priori «íntimas» e «pessoais».




    • Os sociólogos puderam assim demonstrar que a «escolha do cônjuge», longe de resultar apenas do «acaso», obedece a regularidades sociais, visto que, com efeito, o que quer que pensem os implicados, «a ‘faísca’, quando cai, não cai em qualquer lado». A homogamia, isto é, o facto de se escolher o cônjuge no mesmo meio social, constitui assim uma tendência afirmada no seio da sociedade francesa, já que, por exemplo, perto de 8 em cada 10 agricultores casam com uma agricultora, enquanto menos de 2 % de quadros partilham a sua existência com uma operária. O casamento mais frequente em França é o de um operário e uma empregada (abrange perto de 60 % dos operários, os outros desposando maioritariamente operárias, menos numerosas do que os operários na população activa).
    Como explicar a regularidade deste facto social, já assinalado nos finais dos anos 50 pelo sociólogo francês Alain Girard, quando o sentimento amoroso se substituiu progressivamente à influência familiar, cuja pressão sobre os cônjuges já não se exerce senão de forma indirecta? Primeiro elemento: para casar com alguém é preciso primeiro tê-lo encontrado! É assim possível estabelecer relações entre os lugares de encontro dos (futuros) cônjuges e as suas propriedades sociais. Os membros dos meios populares travam maioritariamente conhecimento nos lugares públicos (festa, baile, rua, café, centro comercial), os quadros do sector privado em lugares privados (festas de família ou entre amigos), ao passo que as categorias fortemente escolarizadas se encontram na maior parte das vezes em lugares reservados (universidade, associação, clube desportivo). Os lugares de sociabilidade diferem sensivelmente em função do meio social, mas por si sós não poderiam explicar a homogamia. As qualidades procuradas no cônjuge revelam-se, com efeito, variáveis em função da posição ocupada no espaço social e fornecem assim uma ilustração da diversidade de princípios do juízo amoroso. As mulheres dos quadros superiores, inter-rogadas sobre as suas expectativas, dão prioridade ao lado «securizante» e à «inteligência» dos seus cônjuges, enquanto as mulheres de operários apreciam particularmente o lado «sério» e o facto de os seus maridos serem «trabalhadores». Os juízos sociais referentes aos parceiros são portanto indissociáveis do conjunto de juízos de «gosto» e, a este título, informam sobre a identidade social da pessoa que os enuncia. À maneira da senhora de Quesnay ao invocar o casamento das suas filhas sem ter necessariamente consciência do que estava a dizer: «Para todas foi o jogo do acaso, o acaso total. A mais velha, que casou com um d’Arsonval, família que conhecemos desde sempre, foi convidada para uma caçada, mas não tinha meio de transporte para lá se deslocar. E muito simplesmente alguém lhe disse ‘mas telefonai a Hubert d’Arsonval’, e pronto!»

    sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

    Trabalho e religião andam juntos

    Nossa vida cotidiana é social.Estabelecemos relações com outros indivíduos,criamos regras de convivência,inventamos moda,fala e discursos.Os direitos e deveres do indivíduo estão garantidos na Constituição.As pessoas são incentivadas à competitividade no mundo do trabalho,de forma quase agressiva.São tantas metas a cumprir,que muitas vezes não há tempo para falar em religião.
    quem quer crescer profissionalmente,na maioria das vezes se pergunta ou se questiona se a espiritualidade deve ser mantida à parte do exercício do trabalho,para que suas crenças não influenciem no que fazem.Como viver as convicções espirituais e exercer a carreira profissional ao mesmo tempo,nessa "luta de gladiadores"que se tornou o mundo do trabalho?
    Eis a questão.Mas,será que o papel que a fé desempenha no exercício da profissão não é fator primordial para manter o equilíbrio em meio a tormentas,lutas por melhores salários etc?O indivíduo que sabe que suas crenças espirituais e convicções pessoais não andam separadas do profissional,sabe também que deve administrar sua vida guiado pelos valores morais como ética,justiça,compromisso.Ele é transparente,não nega sua identidade,não vai mentir ou prejudicar colegas de profissão,nem viver de acordo com seu próprio código moral,pois tem na religião um dos pilares que o mantém em pé,ao lado da família e do trabalho.

    sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

    Sociologia e perspectivação científica



    Ler capítulo anterior: O Que é a Sociologia? ( capítulo precedente )


    PRIMEIRAS LIÇÕES DE SOCIOLOGIA
    por: Philippe Riutort
    tradução de: Eduardo de Freitas
    Nº de páginas 140
    Ano de edição 1999
    ISBN: 972-662-692-7
    Editora Gradiva

    II. Sociologia e perspectivação científica
    1. A constituição da sociologia como disciplina científica está estreitamente ligada à obra de Émile Durkheim, que define os princípios do método sociológico
    De formação filosófica, Durkheim vira-se rapidamente para o estudo da vida social e procura dotar a sociologia de uma metodologia própria.

    Na sua obra As Regras do Método Sociológico (1895) afirma que «os factos sociais devem ser tratados como coisas», o que significa que o sociólogo deve conservar uma certa distância relativamente ao seu objecto de estudo, a fim de afastar sistematicamente todas as prenoções, isto é, os preconceitos e as falsas evidências que ameaçam, em cada instante, introduzir-se na sua análise. O sociólogo, como todo o cientista, deve assim desconfiar da ilusão do saber imediato, visto que não é senão após ter construído previamente com rigor o seu objecto de estudo que se encontra em condições de fazer uma «descoberta».
    De uma certa maneira, os obstáculos parecem mais consideráveis em sociologia e, em geral, nas ciências sociais (psicologia, antropologia, economia, ciência política ...) do que nas ciências da natureza. O estudo dos fenómenos sociais não constitui senão raramente um «monopólio» de facto para o sociólogo: a sua análise toma lugar entre um conjunto de intervenções (de homens políticos, de jornalistas, de administradores ... ou mesmo de todos em conjunto) que visam determinar quais são os «problemas sociais» do momento. Se o sociólogo não pode refugiar-se numa torre de marfim a fim de se isolar do mundo social que é suposto estudar, não pode também retomar à sua conta, sem crítica prévia, as questões colocadas por outros, com preocupações muito frequentemente afastadas do exclusivo intento de conhecimento científico.


    Perguntar se «a classe operária está em vias de desaparecimento» ou circunscrever as causas do «mal-estar das áreas suburbanas» pode parecer legítimo, mas estes assuntos, encarados de um ponto de vista sociológico, necessitam de ser colocados de outro modo, posto que a linguagem empregue para descrever estas «realidades» sociais transporta já em si mesma todo um conjunto de «problemas» que o sociólogo se deve esforçar por desenredar. A questão do «fim da classe operária» obriga, com efeito, a uma interrogação prévia sobre as transformações desencadeadas no seio do mundo operário desde — pelo menos — a crise económica de 1974 (evolução numérica, transformação dos empregos operários, aparecimento durável de um desemprego de massa e mudanças na maneira de «viver» a condição operária). Convém igualmente focar retrospectivamente a diversidade do mundo operário francês (diferenças de estatuto, de qualificação, mas também particularidades ligadas às tradições locais, aos tipos de profissões), a fim de fazer voar em estilhaços a imagem de Épinal de uma «classe operária unida», a qual se precipitaria num «inexorável declínio» que impediria nomeadamente a captação das recomposições em curso. Quanto à «doença das áreas suburbanas», é preciso lembrar tudo quanto esta questão deve à encenação jornalística que estabelece demasiado frequentemente uma comparação «selvagem» entre a situação francesa e a situação americana, sendo suposto a primeira reproduzir o «modelo» da segunda. Se é verdade que certos «factos objectivos» se encontram tanto nas «áreas suburbanas francesas» como nos «guetos americanos» (forte presença de minorias étnicas, aumento sensível e rápido da população, nomeadamente juvenil, taxa de desemprego elevada), vários traços distinguem nitidamente os dois universos: uma diferença de dimensão de mais de um para dez que faz do gueto americano uma verdadeira «cidade», ao passo que o subúrbio francês permanece um bairro periférico; a segregação racial, que é uma característica maior do gueto enquanto a pluralidade étnica é geralmente a regra nas aglomerações suburbanas. Por outro lado, a amplitude da pobreza e da criminalidade e a degradação do quadro de vida atingem dimensões no gueto dificilmente imagináveis nas aglomerações suburbanas. Existe pois aqui uma diferença de natureza, e não somente de grau, entre as duas situações. É preciso portanto desconfiar das comparações apressadas, cujo objectivo (inconsciente?) consiste, na maior parte das vezes, em «dramatizar» um problema, o que leva muitas vezes ao seu obscurecimento sob a capa da simplificação.


    O sociólogo arrisca pois a ver-se arrastado num terreno que não é o seu ao ceder à tentação do profetismo e, armado apenas com o «ar do tempo», acha-se transformado em arauto do futuro («A que se assemelhará a sociedade francesa no ano 2020?»). Faz então lembrar a cartomância e as suas «predições» são para apreciar com a maior prudência.
    O sociólogo deve apetrechar-se metodologicamente a fim de afastar as falsas evidências e redefinir o problema que lhe é colocado a partir das suas próprias preo-cupações, isto é, com o intuito de produzir conhecimento. Émile Dukheim alertava já contra essses perigos, visando assegurar a ruptura com as prenoções. Defendeu designadamente o uso das estatísticas, assim como o recurso ao método da definição prévia, a fim de se ganhar distância relativamente às significações ordinárias de um fenómeno. Numa obra tornada um clássico da sociologia, O Suicídio (1897), Durkheim demonstra que este acto, que tem, aparentemente, todos os atributos do acto individual, obedece, na realidade, a regularidades sociais. Ele propõe, assim, uma definição prévia do suicídio apreendido como «qualquer caso de morte que resulta directa ou indirectamente de um acto positivo ou negativo, realizado pela própria vítima que sabe que o resultado se vai produzir». Ele inclui, por exemplo, no seu objecto de pesquisa o sacrifício do combatente ou do mártir e demarca-se deste modo da definição habitual de suicídio. Durkheim interessa-se, de facto, através deste estudo, pelo que designa como taxa social de suicídio, que mede «a relação entre o número global de mortes voluntárias e a população de qualquer idade e de ambos os sexos». A utilização de estatísticas permite-lhe assim verificar a regularidade da taxa de suicídio num período longo e cingir, a partir de variáveis tais como a idade, o sexo, o lugar de residência, a religião, o estado civil ..., as características sociais dos suicidados, a fim de explicar as determinações sociais que pesam sobre este acto.


    • Uma outra via de ruptura possível com as prenoções consiste em realizar um inquérito no terreno. O sociólogo americano Samuel Stouffer, num estudo colectivo publicado em 1949 sobre o «soldado americano», faz notar um facto surpreendente: ainda que as oportunidades «objectivas» de promoção social sejam mais numerosas na aviação do que na polícia, as satisfações profissionais sentidas pelos agentes da polícia são mais importantes do que as dos da aviação. Assim, como escreveu o sociólogo americano Robert Merton, «quanto menos elevado é o ritmo de promoção, mais as pessoas têm opiniões favoráveis sobre as suas oportunidades de promoção». Este paradoxo revelado pelo inquérito suscitou o aparecimento de um novo conceito: a frustração relativa. Os analistas deram-se conta de que, na realidade, ao indivíduo não importa tanto a situação «objectiva» em que vive como as normas de seu grupo de referência, isto é, aquele com o qual o mesmo indivíduo se identifica duradouramente e que por vezes pode, de resto, diferir daquele a que realmente pertence. Uma promoção rápida não é verdadeiramente imaginável para aquele que pertence a uma organização (tal como a polícia nos Estados Unidos no momento do inquérito ao «soldado americano») no seio da qual as ascensões são habitualmente lentas e pouco frequentes. A mesma promoção é da ordem da evidência para aquele que evolui num grupo de forte mobilidade, tanto mais quanto ele for, por exemplo, fortemente escolarizado. Quando ela não se concretiza, o indivíduo sentirá uma certa frustração, posto que não serão satisfeitas as suas expectativas perante as normas em vigor no seu grupo de referência. A frustração social não está portanto necessariamente ligada a uma situação «objectiva», mas mais à percepção que dela se tem. Procede assim de um desencontro entre as esperanças forjadas pelos indivíduos e a situação que são levados a encontrar ulteriormente: esta teoria subestima o «senso comum», demonstrando que não são necessariamente os indivíduos colocados numa situação «objectivamente» mais desfavorável que vivem um sentimento de frustração e que podem ser levados, seguidamente, a manifestar o seu descontentamento.

    segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

    UMA LEITURA TEOLÓGICA DOS PROBLEMAS MODERNOS

    " À luz do mesmo carácter moral, que é essencial ao desenvolvimento, devem ser considerados também os obstáculos que a ele se opõem. Se durante os anos decorridos desde a publicação da Encíclica de Paulo VI o desenvolvimento não se verificou — ou se verificou em medida escassa, irregular, se não mesmo contraditória — as razões não podem ser só de natureza económica. Como já se fez alusão, acima, intervêm nele também móbeis políticos. As decisões que impulsionam ou refreiam o desenvolvimento dos povos, outra coisa não são, efectivamente, senão factores de carácter político. Para superar os mecanismos perversos, já recordados, e substituí-los com outros novos, mais justos e mais conformes ao bem comum da humanidade, é necessária uma vontade política eficaz. Infelizmente, depois de se ter analisado a situação, é forçoso concluir que ela foi insuficiente." (ponto 35 - uma leitura Teológica dos problemas dos tempos modernos)

    "A doutrina social da Igreja não é uma «terceira via» entre capitalismo liberalista e colectivismo marxista, nem sequer uma possível alternativa a outras soluções menos radicalmente contrapostas: ela constitui por si mesma uma categoria. Não é tampouco uma ideologia, mas a formulação acurada dos resultados de uma reflexão atenta sobre as complexas realidades da existência do homem, na sociedade e no contexto internacional, à luz da fé e da tradição eclesial. A sua finalidade principal é interpretar estas realidades, examinando a sua conformidade ou desconformidade com as linhas do ensinamento do Evangelho sobre o homem e sobre a sua vocação terrena e ao mesmo tempo transcendente; visa, pois, orientar o comportamento cristão. Ela pertence, por conseguinte, não ao dominio da ideologia, mas da teologia e especialmente da teologia moral." (ponto 41 - algumas orientações particulares )
    João Paulo II - Encíclicas com Instrumento de Estudo Sollicitudo rei socialis

    quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

    O QUE É A SOCIOLOGIA?


    PRIMEIRAS LIÇÕES DE SOCIOLOGIA
    por: Philippe Riutort


    tradução de: Eduardo de Freitas
    Nº de páginas 140
    Ano de edição 1999
    ISBN: 972-662-692-7
    Editora Gradiva
    O QUE É A SOCIOLOGIA?


    A perspectiva da sociologia
    Como se pode ser sociólogo?
    A sociologia enquanto disciplina científica teve o seu aparecimento no decurso do século XIX. É precedida por múltiplos saberes saídos de diversas correntes do pensamento que procuram explicações e sobretudo «remédios» para os «problemas» ligados às transformações sociais de grande amplitude que atingiram as sociedades europeias a partir do fim do século XVIII. A emergência de «questões sociais» de um novo género gera assim o nascimento da sociologia, que, progressivamente, ao emancipar-se da filosofia social, formula as suas próprias interrogações de alcance científico, com a ajuda de princípios enunciados desde o fim do século passado pelos seus «pais fundadores».


    I. A emergência da sociologia no século XIX

    1. A sociologia surge enquanto disciplina científica no decurso do século XIX.
    O século XIX é marcado na Europa por profundas mutações. As transformações políticas inscrevem-se no prolongamento da Revolução Francesa. O afundamento do Antigo Regime conduz a que fique em causa a ordem tradicional, fundada na monarquia absoluta, a divisão da sociedade em ordens, assim como o lugar central concedido à religião na vida social. A Revolução Francesa, ao proclamar a igualdade jurídica entre os cidadãos, põe em questão os fundamentos da ordem política. Esta não procede daí em diante da vontade do príncipe, posto que o absolutismo é recusado em nome da proclamação de novos princípios, tais como a liberdade, a razão, o progresso ... As transformações económicas e sociais estão ligadas à revolução industrial, que, do fim do século XVIII ao princípio do século XIX, com origem na Grã-Bretanha, ganha progressivamente os outros países europeus e, seguidamente, os Estados Unidos e o Japão. Caracteriza-se pela passagem de uma sociedade rural a uma sociedade urbana, o que arrasta uma profunda mudança das estruturas sociais existentes (desaparecimento progressivo, por exemplo, das solidariedades camponesas fundadas num conjunto de tradições e de práticas de sociabilidade tais como as festas populares, os ritos de passagem ...). O sociólogo alemão Ferdinand Tönnies (1855-1936) sublinha, em 1887, a oposição entre dois tipos de organização social: a comunidade e a sociedade. A primeira, dominada pelos vínculos tradicionais, a afectividade e o espírito de grupo, apoia-se principalmente na família e nas solidariedades locais, enquanto a segunda, que assenta mais no interesse individual, no cálculo e nas relações impessoais, tende a impor-se no seio da sociedade industrial.
    Em paralelo, a revolução agrícola realizada no decurso do século xviii permite progressivamente às actividades industriais beneficiar de um afluxo de mão-de-obra. O desenvolvimento da indústia acompanha-se, com efeito, de uma urbanização maciça que provém sobretudo do êxodo rural. A organização da sociedade encontra-se então profundamente transformada, o que modifica sensivelmente os «equilíbrios» estabelecidos entre grupos sociais: assiste-se, assim, no decurso do processo de urbanização, à formação da classe operária, ao crecimento contínuo da burguesia, assim como ao declínio relativo da nobreza.
    Os principais sociólogos do século XIX interrogam--se sobre a amplitude das transformações das sociedades europeias que se desenrolam sob os seus olhos no momento em que concebem as suas obras. O pensamento de três figuras centrais da sociologia do século XIX e do início do século XX estão profundamente impregnados disso mesmo.
    Émile Durkheim (1858-1917), fundador da escola francesa de sociologia, preocupado com os fundamentos da coesão social e da sua evolução, estuda assim a passagem da solidariedade mecânica, fundada na similitude, característica das sociedades tradicionais, à solidariedade orgânica, fundada na complementaridade e produzida pelo processo de divisão do trabalho, que se afirma na sociedade industrial.
    Karl Marx (1818-1883), militante revolucionário, filósofo, economista, mas igualmente sociólogo, ao tornar-se o teórico de um socialismo que anuncia como científico, interessa-se pelo processo de desenvolvimento capitalista e tenta revelar as suas contradições internas, insistindo particularmente nas oposições de classe, segundo ele, inelutáveis no seio da sociedade capitalista e que prefiguram o advento de uma sociedade sem classes: a sociedade comunista.
    Max Weber (1864-1920), um dos primeiros e dos principais sociólogos alemães, abre o caminho à sociologia comparativa ao interrogar-se sobre as particularidades da civilização ocidental, caracterizada, segundo ele, por um processo de racionalização ou, segundo a sua célebre fórmula, de «desencantamento do mundo», que é traduzido pelo recurso crescente à previsão e ao cálculo, assim como ao abandono progressivo dos impulos mágicos no conjunto dos domínios da vida social: da ciência à arte, passando pela religião, pelo poder político e pela economia.
    Se as obras dos principais sociólogos do século XIX e do início do século XX dão testemunho das preocupações sociais do seu tempo, elas sustentam-se igualmente num saber prévio, que se prende já ao desencadear de conhecimentos, a partir de uma observação minuciosa da sociedade.


    2. Um saber sobre a sociedade anterior à sociologia
    A sociologia nascente enquanto disciplina constituída não poderia emergir dos cérebros de alguns «inventores». Todo um conjunto de interrogações precedem ou acompanham o seu aparecimento. O exercício que consiste em determinar com precisão as origens da sociologia parece vão, posto que reverteria, ao lançar-se numa pesquisa interminável, em fazer surgir o seu aparecimento num passado sempre mais longínquo («Há em germe um pensamento sociológico em Platão?», com os riscos de anacronismo que esta questão recobre). É no entanto útil insistir sobre diferentes questionamentos, a maior parte anteriores à afirmação da disciplina sociológica e que, embora distintos em numerosos pontos, partilham o desejo da descoberta de princípios que regem a organização da vida em socie- dade.
    • Vários autores tradicionalistas, do escritor britânico Edmund Burke (1729-1797) aos autores franceses Joseph de Maistre (1753-1821) e Louis de Bonald (1754-1840), criticam o individualismo proclamado pela Revolução Francesa, que é tido por uma pura abstracção vazia de sentido, visto que, segundo eles, a sociedade não poderia proceder apenas da razão, insensível às redes de relações concretas que encerram o indivíduo numa comunidade de pertença. A corrente tradicionalista interessa à sociologia, pois vai dar lugar, a partir de uma visão critíca — simultaneamente da Revolução Francesa e da industrialização —, a vastos inquéritos: a obra de Frédéric Le Play (1806-1882), que foi engenheiro e senador sob o Segundo Império (1867), em particular Os Operários Europeus (1885), caracteriza-se por uma viva preocupação de descrição das condições de vida dos meios populares e desemboca na realização de monografias1.

    Trata-se, praticando-se a observação directa, de reunir um grande número de factos que dão conta das condições de existência da vida operária. O trabalho de Le Play, apoiando-se em amplos inquéritos no terreno, abre a porta ao método etnográfico, que visa a recolha de um conjunto de informações sobre uma dada população e permite realizar comparações no tempo e no espaço. Esta perspectiva não é todavia redutível à sua dimensão qualitativa, posto que tenta igualmente quantificar os dados recolhidos: Le Play procura, com efeito, por meio dos seus inquéritos, estabelecer um instrumento de medida objectivo, como o orçamento familiar, que ele utiliza como indicador do modo de vida operário e das suas transformações. A obra de Le Play permanece no entanto essencialmente preocupada com um projecto global de Reforma Social, em conformidade com o título da sua obra surgida em 1864, que preconiza o reforço das estruturas familiares, particularmente da família alargada (que reúne sob o mesmo tecto o pai, a mãe, o rapaz herdeiro, a sua mulher, os seus filhos e os outros parentes celibatários), e promove o paternalismo (a colaboração entre patrões e operários), assim como o respeito absoluto pela propriedade privada.
    • A «questão social» que designava no século XIX o conjunto de problemas ligados ao aparecimento do mundo operário dá lugar a uma corrente crítica da industrialização, o «socialismo utópico», encarnado em França por Claude-Henri de Saint-Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1837) e Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Preocupa igualmente as camadas dirigentes: a concentração de uma população miserável nas cidades desencadeia os medos relacionados com a promiscuidade. Numerosos estudos são assim realizados pelos poderes públicos e pelas sociedades científicas a fim de circunscrever essa população «com problemas»: um dos inquéritos mais importantes foi conduzido pelo Dr. Villermé, que, no Quadro do Estado Físico e Moral dos Operários Empregados nas Manufacturas de Algodão, de Lã e de Seda (1840), traça um retrato sem complacência da condição operária.
    • A sociologia nascente é igualmente influenciada por uma outra tradição que se inscreve no racionalismo saído das Luzes: concretiza-se a partir da observação de Montesquieu (1869-1755), que, no Espírito das Leis (1748), proclama não ter retirado os seus princípios dos seus preconceitos, mas da natureza das coisas, desejando consagrar-se «ao que é, e não ao que deve ser», assim como dos trabalhos de Condorcet (1743-1794), que, no seu Esboço de Um Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano (1793) introduz a «matemática social», isto é, a elaboração de leis científicas fundadas na observação das regularidades estatísticas. Os progressos realizados, a partir do início da século XIX, pela estatística, primitivamente encarregue, em nome do estado, da demografia (o recenseamento da população), permitem-lhe ganhar novos domínios. Tomando a designação de «estatística moral», estende-se tanto à economia, a fim de avaliar os recursos potenciais do estado, como às questões judiciárias: a estatística judiciária conhece assim um desenvolvimento fulgurante em França com a implantação, a partir de 1827, da Contabilidade Geral da Administração da Justiça e com os trabalhos de Gabriel Tarde (1843-1904). O matemático, astrónomo e estatístico belga Adolphe Quetelet (1796-1874) tenta igualmente analisar o que designa como «propensão para o crime» e sua distribuição na sociedade com a ajuda de séries estatísticas destinadas a medir-lhe a permanência.
    Na encruzilhada destas diferentes tradições emerge a corrente positivista, que se caracteriza, segundo os termos do seu principal representante, Auguste Comte (1798-1857), por uma recusa do «espírito metafísico». Para o positivismo, com efeito, nenhum conhecimento pode proceder a não ser da observação e da experiência. Comte, que foi o inventor do termo «sociologia», fala igualmente de «física social» para designar o estudo «científico» do mundo social, posto que, confiando nos progressos da ciência, entende que a sociologia pode atingir num futuro próximo o rigor das «ciências da natureza». Enuncia assim a lei dos três estados, segundo a qual o desenvolvimento da humanidade passaria por três fases sucessivas.
    O estado teológico é dominado pelo sobrenatural e corresponde historicamente à Idade Média.
    O estado metafísico está marcado pelo aparecimento de princípios abstractos que enunciam uma ideia geral do homem e triunfam sob a Revolução francesa.
    O estado positivo corresponde à fase de maturidade caracterizada, aquando do aparecimento da sociedade industrial, pela descoberta, graças à observação científica, dos princípios organizadores da sociedade.
    Se o pensamento de Comte, profundamente evolucionista (a humanidade é suposta evoluir por etapas, cada uma das quais constituiria um progresso relativamente à precedente), foi criticado neste ponto, a sua preocupação em dotar a sociologia de bases científicas constitui um contributo considerável, tendo sido notável a sua influência sobre a sociologia francesa nascente e em particular sobre Émile Durkheim.

    terça-feira, 2 de dezembro de 2008

    Análise Orientada do Texto “As Regras do Método Sociológico – E. Durkheim

    Descrever o “indivíduo X Colectivo” na teoria de Durkheim:

    Para Durkheim, o indivíduo - visto de maneira isolada - não pode ser considerado objecto ideal para o estudo da Sociologia, sendo, portanto, um elemento inadequado para o estudo e a compreensão apropriada do conceito de “facto social”. O que realmente interessa à vertente durkheimiana é o enfoque no indivíduo inserido no contexto de uma realidade social objectiva que, encontrando-se acima dele em termos de prioridade, caracteriza-se por ser eminentemente grupal - e, por conseguinte, colectiva. Durkheim foi um dos pioneiros na análise dos factores coercitivos que levam o indivíduo, desde cedo, a moldar-se segundo os parâmetros historicamente impostos pelo grupo social ao qual pertence, ou melhor, no qual se encontra circunstancialmente inserido.


    Esta estruturação do indivíduo segundo padrões pré-estabelecidos e exteriores ao próprio, perpassa pelo psicológico, pelo moral, pelos hábitos e costumes, pelo comportamento, enfim, por toda cultura. Tal processo é, até certo ponto, inconsciente, e será determinante no sentido de conferir um maior ou menor engajamento social (ou comprometimento) do indivíduo nos processos colectivos que permeiam as actividade sociais. Durkheim preocupa-se em analisar a maneira pela qual o meio social, através de aparelhos de coerção e da própria instituição educativa, contribui para regular, controlar e moldar permanentemente o comportamento individual, tornando os processos colectivos aparentemente harmónicos e estáveis. O processo de coerção (ou de conversão) do indivíduo acontece desde cedo, sendo primordial para a garantia da coexistência pacífica entre os indivíduos que, por sua vez, tornará possível uma convivência colectiva estável e pacífica.


    Segundo o autor no seu livro “As Regras do Método Sociológico”:“(...) o devoto, ao nascer, encontra prontas as crenças e as práticas da vida religiosa; as quais existindo antes dele, é porque existem fora dele. O sistema de sinais de que me sirvo para exprimir pensamentos, o sistema de moedas que emprego para pagar dívidas, os instrumentos de crédito que utilizo nas relações comerciais, (...), etc, funcionam independentemente do uso que faço delas. (...). Estamos, pois, diante de maneiras de agir, de pensar e de sentir que apresentam a propriedade marcante de existir fora das consciências individuais”. – e, portanto, independente das mesmas. Por este motivo, para Durkheim, os processos colectivos, em termos de análise académica, possuem uma incontestável primazia sobre os indivíduos que, por sua vez, são obrigados a orbitar, desde o berço, em torno de algo naturalmente imposto que se apresenta mais forte que cada um deles; algo que, regulando e moldando permanentemente as suas vontades individuais (pejorativamente tachadas de egoísmo, individualismo, etc), permite a convivência – mesmo que conflituosa - do homem em sociedade. O custo psicológico para o indivíduo resume-se basicamente ao controlo dos seus impulsos individuais – talvez algum dia ainda venha a existir uma sociedade em que valha a pena chamar este “custo” (ou perda) de “investimento natural e necessário”. Porém, cabe frisar que a análise de Durkheim é sociológica colectiva, e não psicológica individual. Para Durkheim, qualquer conflito precisa ser superado.


    2) Quando o indivíduo entra na Sociedade para Durkheim? (teoria da socialização).Segundo o autor na obra que analisamos: “Toda a educação consiste num esforço contínuo para impor às crianças maneiras [adequadas] de ver, sentir e agir às quais elas [supostamente] não chegariam espontaneamente – (...). Desde os primeiros anos de vida, são as crianças forçadas a beber comer e dormir em horários regulares; são constrangidas a terem hábitos higiénicos, a serem calmas e obedientes; mais tarde, obrigamo-las a aprender a pensar nos demais, a respeitar usos e conveniências; forçamo-las ao trabalho, etc. (...)”. E, a seguir, ainda no mesmo parágrafo:“(...) a educação tem justamente por objeto formar o ser social; pode-se então perceber, (...), de que maneira este se constitui através da história. A pressão de todos os instantes que sofre a criança é a própria pressão do meio social tendendo [permanentemente] a moldá-la à sua imagem e semelhança.” Portanto, baseado neste trecho escrito por Durkheim, pode-se observar que, segundo o próprio autor, o indivíduo ingressa na sociedade no momento em que, dentro dela, nasce. No mesmo instante de seu nascimento, ele já começa a ser moldado pelas instituições que compõem a sociedade: primeiramente, o indivíduo sofre influência da própria família(caso possua uma); depois, mais tarde, de seu bairro, município, de sua escola, etc. A partir daí, o indivíduo assimila (ou não), os hábitos, a moral, os costumes, enfim, toda forma de lei não escrita que rege a convivência do seu grupo. Geralmente, o indivíduo procura agregar as regras do grupo ao seu sistema individual de valores, procurando agir em conformidade com o grupo, pois sabe que estará às margens do mesmo se assim não o fizer. Quando o processo acima mencionado não chega a acontecer adequadamente, o indivíduo marginaliza-se em relação aos processos sociais colectivos. Para Durkheim, este facto é considerado um suicídio social, que acaba levando o indivíduo ao suicídio de facto. O autor não confere o enfoque puramente psicológico ao facto de alguém se suicidar, pois, como a sua análise dos factos é sociológica, ele busca uma fundamentação social e colectiva para as manifestações suicidas individuais: o suicida, por algum motivo dentro de seu grupo, se mata por se encontrar às margens da sociedade, por não ter encontrado identificação no seio grupal e, por isto, encontra-se solitário e isolado.


    3) O que é “facto social” e o que o caracteriza? O facto social encontra-se intrinsecamente relacionado aos processos culturais, hábitos e costumes colectivos de um determinado grupo de indivíduos ou sociedade. Tais elementos, além de conferirem unidade e identidade ao grupo social, servem de controlo e parâmetros às actividades individuais que, em princípio, não devem causar desarmonia no corpo social, ou melhor, na convivência oriunda das relações individuais.O facto social precisa pertencer ao histórico grupal, encontrando-se igualmente relacionado com a maneira de pensar, sentir e agir colectiva do homem. São justamente estes elementos - o pensar, sentir e agir peculiares a cada grupo - que irão permear a ideologia do mesmo. Isto não implica na inexistência de conflitos. Numa sociedade complexa, vários grupos podem existir e, por conseguinte, diversas ideologias diferentes podem coexistir dentro de uma mesma cultura. Daí, num ambiente complexo de pluralidade cultural, existe maior possibilidade de geração de conflitos originados de idéias antagónicas. Assim, sempre que existe o conflito, a ideologia dominante tenta (geralmente com muito sucesso) disseminar um falso ar de estabilidade, igualdade e permanente harmonia, mascarando as realidades sociais. Caso este mecanismo não funcione, tem-se a coerção policial... A ideologia dominante, vista como um conjunto de formas cristalizadas de pensa, sentir e agir das elites hegemonicas, funciona - em nível simbólico e imaginário - como uma espécie de anestésico no sentido em conter a dor da necessária repressão dos desejos individuais. Esta repressão viabilizará a convivência grupal – aparentemente harmonica. A ideologia do grupo, portanto, serve como um amortecedor para os desejos individuais, procurando conciliá-los, sempre que possível , aos interesses colectivos (ou ditoscoletivos) que, estando acima dos interesses individuais ou oligárquicos, deveriam, por sua vez, serem capazes de promover o bem comum, ou o bem geral. Como exemplo de facto social, podemos citar: a ascensão, na década de 30, no século passado, dos regimes de cunho Nacional Socialista na Alemanha de Hitler e na Itália fascista de Moussolinni; e, mais próximo ao nosso tempo e ao nosso contexto histórico: o movimento pelas “Directas Já”, em 1985, promovido por vários sectores da sociedade civil e pelo povo brasileiro, que retomou o rumo democrático de nosso país após 20 anos de ditadura militar.Portanto, outro factor que caracteriza um facto social é a sua aceitabilidade por parte da maioria, por parte do próprio colectivo dentro da sociedade. Esta aceitação é o produto de uma maneira peculiar e circunstancial de pensar, sentir e agir de um grupo, num dado momento histórico e contexto social. O acontecimento de um facto considerado social é um fenómeno colectivo que requer a aceitação do da maioria, o que não deve necessariamente ser confundido com consenso geral, posto que, em sociedades mais complexas, os conflitos e oposições de idéias devem ser considerados elementos naturais na dialética das relações interpessoais do ser humano – relações estas que permeiam nossa vida colectiva quotidiana.


    Professor Elias Celso Galvêas in A Sociologia de Émile Durkheim

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