terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Sociologia de Max Weber ( Julien Freund )

 Sociologia de Max Weber de Julien Freund
Resumo escrito por: Pablo Medeiros

No debate metodológico no final do século XIX, sobre o estatuto das ciências humanas, chega-se a afirmação de duas espécies de métodos principais, um generalizante e outro individualizante, que para Weber qualquer ciência pode utilizar um ou outro método, é a necessidade da pesquisa que vai definir o caminho a ser tomado, portanto é falso afirmar que as ciências da natureza utilizam o processo generalizante, e as da cultura o processo individualizante. Weber nega que o conhecimento seja uma cópia fiel da realidade, o problema está nas relações entre lei e história, entre conceito e realidade. Se utilizarmos o método generalizante à realidade perde seus aspectos particulares, reduzem-se as diferentes qualidades, a quantidades formando uma proposição geral da realidade, já o método individualizante não utiliza o que há de geral, trabalha apenas com as características qualitativas e singulares dos fenômenos. Mas para Weber não existe um método pronto, acabado, tudo varia de acordo com os problemas a resolver.  Para Weber a atividade social é qualquer atividade que o individuo faz orientando-se pela ação de outros, e ela só existe quando o individuo tenta estabelecer algum tipo de comunicação, a partir de suas ações, com os demais. Nem toda atividade será social, mas aquelas que impliquem alguma orientação significativa visando outros indivíduos. Weber tenta definir a atividade social pelo seu caráter mais racional. Para isso distingue a atividade racional por finalidade, a atividade racional por valor, a atividade afetiva e a tradicional. Só a pessoa individual é um agente compreensível de uma atividade orientada significativamente. Todo apelo a um sentido supõe uma consciência, e esta é individual. Os conceitos coletivos só se tornam sociologicamente inteligíveis a partir das relações significativas que as condutas individuais comportam. Tanto na conceituação da atividade social, como nos seus diferentes tipos, percebe-se que Weber não analisa as regras e normas sociais como sendo exteriores aos indivíduos, mas como resultante do conjunto de acções individuais, sendo que os agentes possuem diferentes formas de conduta, e de escolhas, constantes ou não, pois o Estado, a religião, só existe porque muitos indivíduos orientam-se reciprocamente suas ações num determinado sentido.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Primeiro email foi enviado há 40 anos ( 29 de Outubro de 1969 )

Fernando Zamith *


Primeira mensagem de correio electrónico foi "LO", porque o sistema foi abaixo e o email ficou a meio.

A primeira mensagem de correio electrónico entre dois computadores (e-mail em rede) situados em locais distantes foi enviada em 29 de Outubro de 1969, quase dois meses depois do primeiro nó que deu origem à Internet.

O texto dessa primeira mensagem continha apenas duas letras e um ponto - "LO.". O investigador da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) Leonard Kleinrock queria escrever "LOGIN", mas o sistema foi abaixo a meio da transmissão.

A mensagem seguiu do computador do laboratório de Kleinrock na UCLA para o de Douglas Engelbart no Stanford Research Institute, utilizando como suporte a recém-criada rede da ARPA (Advanced Research Projects Agency), agência financiada pelo governo norte-americano.

O primeiro nó de ligação entre dois computadores da Arpanet tinha sido estabelecido pouco tempo antes, em 02 de Setembro de 1969, pelo que a história da Internet e do e-mail em rede se confundem.

No início da década de 1960, surgiram alguns sistemas de troca de mensagens entre terminais de um mesmo computador, em tempo diferido (1961) e em tempo real (1965), mas o primeiro e-mail em rede foi transmitido apenas em 1969.

Dois anos depois, em 1971, Ray Tomlinson inventou os primeiros programas para envio de e-mails em rede através da Arpanet e criou a arroba ( " hut ", em Inglês - @) para separar o login do utilizador do domínio do servidor.

Em 1976, a rainha de Inglaterra, Isabel II, enviou o seu primeiro e-mail, e em 1978 surgiu o primeiro spam, entendido como mensagem de correio electrónico enviada para múltiplos destinatários sem consentimento destes.

Quarenta anos depois, 70 por cento dos e-mails enviados diariamente são "spam", uma "praga" que acompanha o crescimento dos vírus e do marketing na Internet, mas que tem sido combatida, com relativo sucesso, por diversos sistemas de filtragem entretanto desenvolvidos.

O "spam" não é, contudo, o único adversário do e-mail, que encontra cada vez mais concorrentes noutros sistemas de comunicação de texto, áudio e vídeo, de envio de ficheiros e de troca de mensagens instantâneas, através de ferramentas como o Messenger, Skype e Twitter, a que se juntará em breve o Google Wave.

"Pela sua formalidade, o e-mail é algo pouco apelativo para os utilizadores mais jovens. Os blogs e o Twitter ocupam um espaço menos informal", disse à agência Lusa Libório Silva, autor do livro sobre correio electrónico mais vendido em Portugal, "e-mail", editado em 2008.

Libório Silva afirmou que o e-mail continua a ser uma ferramenta em expansão em todo o Mundo, pela facilidade de utilização e pela capacidade de envio de ficheiros associados a mensagens.

Libório Silva destacou como principal ruptura na história do e-mail o surgimento dos serviços de webmail, que são actualmente líderes de mercado entre utilizadores individuais, mas não nas empresas, que continuam a preferir servidores internos.

Outro momento importante foi o surgimento do e-mail da Google (gmail), oferecendo um gigabyte de capacidade, quando os serviços de então ofereciam apenas quatro megabytes, "250 vezes menos".

Apesar de popular, o e-mail continua a ser utilizado pela esmagadora maioria das pessoas sem certificados digitais de segurança, pelo que cada mensagem pode ser interceptada por "um qualquer técnico de informática que tenha acesso a um dos 'routers' por onde passa".

"Mais de 99 por cento dos e-mails são como postais, sem terem envelope por fora", comparou Libório Silva, realçando que só um por cento são "cartas lacradas".

Outros dos pioneiros da Internet em Portugal, Vítor Magalhães, disse à Lusa que "o e-mail continua a ser a funcionalidade da Internet que mais se mantém e que tem tido um desenvolvimento normal", sendo os fóruns de discussão e o Twitter "alternativas e não concorrentes".

Para Vítor Magalhães, "a tentativa da Google de destruir o e-mail através do Google Wave" não deverá ter o sucesso que a empresa prevê, porque o novo serviço contém o mesmo mecanismo e funcionalidade básica do e-mail, de comunicação textual e de transferência de conteúdo multimédia, pelo que não há uma mudança de conceito.

* Agência Lusa

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Manicómios, Prisões e Conventos - Erving Goffman

Por: Victor Simões

Introdução

               Erving Goffman nasceu em Manville, Alberta – Canadá em 11 de Junho de 1922 e faleceu em Filadélfia no Estado da Pensilvânia nos Estados Unidos da América no dia 19 de Novembro de 1982. Obteve o grau de bacharel pela Universidade de Toronto em 1945, tendo obtido os graus de mestre em 1949 e o de Doutor em 1953 na Universidade de Chicago, onde estudou tanto Sociologia como Antropologia Social. Em 1958 passou a integrar o corpo docente da Universidade da Califórnia em Berkeley, tendo sido promovido a Professor Titular em 1962. Ingressou na Universidade da Pensilvânia em 1968, onde foi professor de Antropologia e Sociologia. Em 1977 obteve o prémio Guggenheim. Foi presidente da Sociedade Americana de Sociologia, em 1981-1982. Efectuou pesquisas na linha da sociologia interpretativa e cultural, iniciada por Max Weber.

              Em La mise en scène de la vie quotidienne, Goffman desenvolve a ideia que mais identifica a sua obra: o mundo é um teatro e cada um de nós, individualmente ou em grupo, teatraliza ou é actor consoante as circunstâncias em que nos encontremos, marcados por rituais posições distintivas relativamente a outros indivíduos ou grupos. Goffman aplicou ao estudo da civilização moderna os mesmos métodos de observação da antropologia cultural.

              Decorridos 27 anos após a sua morte, parece ser pacífica e não ser objecto de discussão a mais-valia da contribuição teórica de Goffman para as ciências sociais. Segundo vários autores que analisaram e comentaram a sua obra (Giddens, 1984, 1988; Collins, 1988; Strong, 1988, e outros). Para alguns, ele foi um dos grandes sociólogos do pós-Guerra (Giddens, 1988, p. 250); para os mais entusiastas, o maior sociólogo da segunda metade do século XX (Collins, 1988, p. 41). Na disputa teórica dos anos de 1980 e 1990, que se dava em torno da constituição de uma teoria da prática, os seus estudos foram fundamentais. As noções de consciência prática e de agência na teoria da estruturação de Giddens (1984) muito devem às análises de Goffman sobre as ocasiões situadas e a co-presença em que parte substancial das informações veículadas depende da actividade corporal dos agentes sociais.

            Segundo Goffman a sua obra Manicómios, Prisões e Conventos, é o resultado de uma pesquisa de três anos de estudos de comportamentos em enfermarias dos Institutos Nacionais do Centro Clínico de Saúde, dos quais, um ano foi dedicado a um trabalho de campo no Hospital Elizabeths, em Washington, nos Estados Unidos.

            O objectivo da pesquisa foi conhecer e peceber o mundo vivênciado e percepcionado pelos internados em instituições totais. "Uma instituição total pode ser definida como um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada” Goffman (2003, p.11):. O interesse fundamental de Goffman é chegar a uma versão sociológica da estrutura do eu. O autor afirma que o trabalho não sofreu influências ou restrições capazes de limitar a liberdade do pesquisador.

 
1. “Manicómios, Prisões e Conventos”


A obra trata de instituições totais de modo geral e foca o mundo do internado e não ao mundo do pessoal dirigente e está dividida em quatro ensaios:

O primeiro, "As características das Instituições Totais", analisa a vida em instituições totais trabalha com dois exemplos – hospitais para doentes mentais e prisões. Os demais são:

"A carreira moral do doente mental", são considerados os efeitos iniciais da institucionalização nas relações sociais que o indivíduo tinha antes de ser internado.

"A vida íntima de uma instituição pública", que se refere à ligação que o interno manifesta relativamente à sua cela e, a forma como os internados possam manter uma dada distancia entre si.

"O modelo médico e a hospitalização de doentes mentais", que reporta a uma chamada de atenção às equipas especializadas, para considerarem a perspectiva médica na apresentação, ao internado, dos factos relativos à sua situação.

O autor foca-se, essencialmente, no carácter fechado destas instituições, que pelas suas características e modo de funcionar não permitem qualquer contacto entre o internado e o mundo exterior, até porque o objectivo é excluí-lo completamente do mundo social de origem, de modo que o internado assimile totalmente as regras internas, evitando comparações, prejudiciais ao seu processo de "aprendizagem". Estas instituições podem ser divididas em cinco grupos:

- Um primeiro grupo, instituições criadas para cuidar das pessoas que, são incapazes e inofensivas; neste caso estão as diferentes instituições para cegos, velhos, órfãos e indigentes.

- Num segundo grupo, há locais estabelecidos para cuidar de pessoas consideradas incapazes de cuidar de si mesmas e que são também uma ameaça à comunidade, embora de maneira não intencional; sanatórios para tuberculosos, hospitais para doentes mentais etc.

- Um terceiro grupo é organizado para proteger a comunidade contra perigos intencionais; cadeias, penitenciárias, campos de prisioneiros de guerra, campos de concentração.

- Um quarto grupo, instituições estabelecidas com a intenção de realizar de modo mais adequado alguma tarefa de trabalho, e que se justificam apenas através de tais fundamentos instrumentais: quartéis, navios, escolas internas, campos de trabalho, colónias etc.

- Um quinto grupo, os estabelecimentos destinados a servir de refúgio do mundo, embora muitas vezes sirvam também como locais de instrução para os religiosos; entre exemplos de tais instituições, é possível citar abadias, mosteiros, conventos e outros claustros (Goffman 2003, p. 16-17).

              No interior das instituições habitam não apenas as equipas dirigentes, mas, também os internados, os prisioneiros, os que optam por uma vida solitária. Na passagem de uma vida no exterior para uma vida de confinamento espacial e social, o indivíduo passa por processos de modificação. Em qualquer dos casos, seja a institucionalização forçada do sujeito ou seja por sua iniciativa, inicia-se um processo de mortificação do eu inicial do sujeito, pelas concessões de adaptação às novas regras institucionais. “Na linguagem exata de alguma de nossas mais antigas instituições totais, começa a uma série de rebaixamentos, degradações, humilhações e profanações do eu. O seu eu é sistematicamente, embora muitas vezes não intencionalmente, mortificado “. (Goffman, 2003, p.24)”.O indivíduo é despido da sua personalidade real e a personalidade que lhe é induzida, não só pela instituição como por toda a sociedade. Goffman analisa ainda a questão do tempo vivido no interior da instituição, nomeadamente a organização do tempo dos internados ou prisioneiros, segundo actividades programadas milimetricamente, cuja função, para além de disciplinar os sujeitos, os inibe em termos de desenvolvimento pessoal.

O indivíduo “começa a passar por algumas mudanças radicais na sua carreira moral, uma carreira composta pelas progressivas mudanças que ocorrem nas crenças que têm a seu respeito e a respeito dos outros que são significativos para ele.
              Os processos pelos quais o eu da pessoa é mortificado são relativamente padronizados nas instituições totais”.(Goffman, 2003, p.24).
              A mortificação do eu, é a tensão entre o mundo doméstico e o mundo institucional: O primeiro processo de ‘mortificação do eu’ é a barreira posta pela instituição entre o interno e o mundo exterior. Uma ‘morte civil’, em cujos processos de admissão tenta-se obter a história de vida, partindo de um interrogatório do interno. A lógica da obediência e castigo compõe os processos de admissão como formas de iniciação.
              O segundo processo de ‘mortificação’ designa-se por mutação do eu: perda do nome, separação das posses, dos seus bens (deformação pessoal); maus tratos, marcas e perdas dos membros do corpo (desfiguração pessoal); violação do território do eu, invasão das fronteiras entre o ser dos indivíduos e o ambiente (exposição contaminadora). A violação é um modelo de contaminação interpessoal, o exame e o examinador violam o território do eu. Para suavizar essas mortificações – os sistemas de privilégios. Há três elementos deste sistema:
 a) as regras da casa;
 b) a obediência a essas regras;
 c) prémios e privilégios a quem obedece a essas regras. “A construção de um mundo em torno desses privilégios secundários é talvez o aspecto mais importante da cultura dos internados,(…)” (Goffman, 2003, p.51).

             Nas instituições totais dos três tipos estudadas por Goffman, as justificações para a mortificação do “eu”, são segundo Goffman, “simples racionalizações, criadas por esforços para controlar a vida diária de grande número de pessoas em espaço restrito e com pouco gasto de recursos. Além disso, as mutilações do eu ocorrem nos três tipos, mesmo quando o internado está cooperando e a direção tem interesses ideais pelo seu bem estar.” (Goffman, 2003, p.24).

             O sistema de privilégios e os processos de mortificação são as condições a que o internado se tem de adaptar, o mesmo internado poderá empregar diferentes táticas de adaptação nas diferentes fases da sua carreira moral, poderá também alternar entre diferentes tácticas ao mesmo tempo. Essas tácticas representam coerência de comportamentos, mas segundo o autor poucos são os internados que as seguem por muito tempo, preferindo a maioria o caminho designado por “ se virar”. Adoptando uma combinação de ajustamentos secundários, como conversão, colonização, e lealdade ao grupo de internados, de forma a obter a possibilidade máxima de não sofrer física ou psicológicamente.

             Nesta obra, Goffman conclui que muitas instituições totais, parecem funcionar apenas como depósito de internados, embora sejam vistas pelo público como organizações racionais, com planeamento e eficazes nos seus objectivos, estaremos assim perante um faz de conta, entre o que parece e o que na verdade é e se faz, este será o contexto básico do trabalho da equipa dirigente sendo certo que encontram diferentes contigências que a instituição tem de enfrentar e que a torna menos ineficiente. É reconhecido que as instituições ficam muitas vezes longe dos seus objectivos oficiais. Em relação à carreira moral, “ Cada carreira moral, e, atrás desta, cada eu, se desenvolvem dentro dos limites de um sistema institucional,(…) Neste sentido o eu não é uma propriedade da pessoa a que é atribuído, mas reside no padrão de controle social que é exercido pela pessoa e por aqueles que a cercam”. (Goffman, 2003, p. 142).

            Goffman, para desenvolver a sua análise vai apropriar-se de conceitos introduzidos por Mead: I – O “eu” espontâneo; Me – o “eu” socializado o autor centra-se, fundamentalmente, no “eu” socializado e as interacções do co-presença física, para tal, previlegia a observação “in loco” de modo a analisar os elementos quer físicos quer expressivos. Temos, deste modo, um estudo ao “nível micro”, em que o investigador interage no mesmo espaço onde estão os seus objectos de observação. Isto porque, segundo Goffman, é nestas interacções face a face, que vemos como os indivíduos representam o seu “eu”.

“ No ciclo usual de socialização de adultos, esperamos que a alienação e a mortificação sejam seguidas por um novo conjunto de crenças a respeito do mundo e uma nova maneira de conceber os eus.” (Goffman, 2003, p. 143).


Referências bibliográficas:

GOFFMAN, Erving ( 2003 ) – Manicómios, Prisões e Conventos, Brasil, Editora Perspectivas S.A.

GIDDENS, A. (1984), The constitution of society: outline of the theory of structuration. Berkeley, University of California Press.

GIDDENS, Anthony (2008) – Sociologia. 6ª edição, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. ISBN 978-972-31-1075-3.

FROIS, Catarina. Erving Goffman: desbravador do cotidiano. Anál. Social, jul. 2005, no.175, p.435-438. ISSN 0003-2573.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Vida e Morte no Trabalho: Acidentes do Trabalho e a Produção social do erro

Por: Carlos Machado de Freitas
Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

 Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(9):2193-2196, set, 2008




VIDA E MORTE NO TRABALHO: ACIDENTES DO TRABALHO E A PRODUÇÃO SOCIAL DO ERRO.


Dwyer T. São Paulo: Editora da Unicamp/Multiação


Editorial; 407 pp.


ISBN: 85-26807-17


Para Giddens (*1), em seu livro As Conseqüências da Modernidade (1990), o industrialismo constitui um dos feixes organizacionais de modernidade. Sua principal

característica é constituir uma organização social regularizada que tem como objetivo coordenar atividades humanas, máquinas e aplicações de matérias-primas para a produção de bens. Assim, embora tenha emergido na Europa do século XVII, enquanto feixe organizacional da modernidade suas influências se estenderam no tempo (aplicando-se mesmo aos cenários atuais de alta tecnologia) e no espaço, atingindo não só as diferentes partes do planeta, como se expandindo para além dos locais do trabalho e afetando transportes, comunicações e a vida doméstica, só para citar alguns

exemplos. Historicamente, esse feixe organizacional que ganhou materialidade nas indústrias, com a máquina a vapor, e na busca de fontes de energia, nas minas de

carvão, teve como um de seus custos humanos acidentes e mortes de trabalhadores. Assim, se para a maioria da população os acidentes decorrentes da industrialização eram e ainda são uma preocupação distante, para uma minoria estes foram e ainda são uma realidade cotidiana.

Tom Dwyer em seu livro Vida e Morte no Trabalho

– Acidentes do Trabalho e a Produção Social do Erro

(2006) não nos permite esquecer isso.

Quinze anos após a primeira publicação em inglês do livro Life and Death at Work – Industrial Accidents as a Case of Socially Produced Error, finalmente o leitor brasileiro foi presenteado com a publicação da tradução desta obra de referência para todos aqueles que estudam a origem e as causas dos acidentes industriais que têm como principais vítimas os trabalhadores. Em um esforço de construção de uma sociologia dos acidentes de trabalho, este é um importante livro para todos os que se dedicam às questões relacionadas à saúde e à segurança dos trabalhadores (profissionais como ergonomistas, engenheiros, psicólogos, médicos, sindicalistas e pesquisadores, por exemplo).

Inicialmente, o autor nos remete ao processo histórico em que o emprego de novas tecnologias no processo de produção industrial e de seus acidentes já surgia como um problema público, provocando intervenções técnicas, bem como uma incipiente e limitada legislação com o objetivo de controlar e prevenir

acidentes industriais. Demonstra como, por meio das intervenções técnicas e das políticas de compensações para os acidentes, principalmente no período entre o

fim da I Guerra Mundial e os anos 60 do século XX, consolida-se um processo iniciado no século XIX, ou seja, a retirada da esfera pública da visibilidade dos acidentes e da miséria de suas vítimas. A partir daí, Tom Dwyer constrói sua teoria dos acidentes

industriais enquanto erros produzidos socialmente, conceituando que as relações entre os trabalhadores em seus ambientes de trabalho são gerenciadas por meio de relações sociais de trabalho, que, nas indústrias, podem ser identificadas em quatro níveis.

O primeiro é o nível de recompensa, que envolve

dos incentivos financeiros aos simbólicos que premiam

a ampliação do trabalho que ocorre muitas vezes

em detrimento das condições de segurança.

O segundo nível é o de comando, que envolve o autoritarismo e as restrições da autonomia dos trabalhadores, com implicações sobre os grupos de trabalhos,

ocasionando a desintegração dos mesmos e, por conseguinte, dos conhecimentos e capacidades de resistência coletiva. Neste nível encontra-se também o que o autor denomina de servidão voluntária, em que trabalhadores consideram normal o trabalho em ambientes insalubres, preferindo estar em harmonia com os objetivos do empregador ao invés de confrontá-lo.





O terceiro é o organizacional, envolvendo a baixa qualificação dos trabalhadores, a rotina com empobrecimento do conteúdo do trabalho e a desorganização da indústria expressa na dissociação entre manutenção e operação, na busca de atalhos perigosos no processo produtivo para manter os níveis de produção, nos erros imprevistos dos sistemas complexos com processos altamente interligados.





O quarto nível é o do indivíduo e sua autonomia. Neste o trabalhador não é totalmente organizado, comandado e nem recompensado, de modo que os empregadores não governam e controlam suas conseqüências. Assim, ainda que integrando uma organização e afetado e influenciado pelas relações sociais dentro da mesma, o trabalhador detém certo grau de autonomia, sobre a qual as empresas procuram desenvolver técnicas de administração (seleção, disciplina, rotina

de trabalho etc.) de modo a restringi-la.







Tem como base um amplo levantamento bibliográfico dos estudos sobre acidentes e a teoria social, uma robusta formulação teórica e conceitual e um amplo trabalho empírico sobre o trabalho em turno e acidentes de três fábricas, em que procura testar sua teoria dos acidentes industriais em cada um dos níveis propostos.

Esses elementos permitem que no último capítulo, denominado “reajustando o prisma”, Tom Dwyer utilize os exemplos dos acidentes industriais ampliados ocorridos nos anos 70 e 80 como desencadeadores de um processo de crise e renovação das intervenções de profissionais e de governos nos países industrializados. Tom Dwyer nos oferece não só o prazer de ler um trabalho científico muito bem construído, mas também uma série de insights para se refletir e investigar sobre muitas questões relacionadas aos acidentes de trabalho e industriais. Chamamos a atenção para duas.

A primeira é a invisibilidade dos acidentes de trabalho, cuja face mais conhecida para a Saúde Pública no Brasil é o ainda elevado nível de subnotificações destes

eventos.

A segunda, que se relaciona à primeira, é sobre os mecanismos sociais que contribuem para que ainda perdure no país a culpabilização das vítimas pelas

causas dos acidentes que afetam ou interrompem suas vidas.

Tornar os acidentes invisíveis e culpar as vítimas dos mesmos quando se tornam visíveis são processos que se encontram relacionados no papel que o Brasil ocupa dentro do industrialismo como uma das dimensões da globalização. Como observa Giddens , a expansão da divisão global do trabalho é um dos aspectos do industrialismo enquanto feixe organizacional da modernidade, e que inclui diferenciações tanto

entre áreas mais e menos industrializadas do mundo no mundo, como no que se refere à especialização regional

em termos de tipo de indústria, capacitações e a produção de matérias-primas. É esta divisão do trabalho, que resulta em uma subseqüente divisão global

dos riscos e dos custos humanos, que permite que o Brasil ainda não tenha vivido uma crise de renovação das intervenções de profissionais e de governos, pois se a tivesse, não teríamos mais a possibilidade de subnotificações e também da culpabilização das vítimas. Em relação a essa segunda questão, basta lembrarmos como em todas as vezes que ocorre um acidente industrial, nos transportes (aviões e trens, por exemplo) ou na busca de fontes de energias (plataformas de petróleo, por exemplo), antes mesmo de investigar suas causas, profissionais e governos se apressam em culpar os trabalhadores, procurando assim reafirmar que o industrialismo, enquanto organização social, vai bem e continuará operando de modo seguro. Perigosos são os trabalhadores.



Se este é o quadro atual, não podemos deixar de ter a esperança que Tom Dwyer deposita no seu último

capítulo:

“...a esperança de que os atores sociais e as relações

sociais concretas passarão a ser considerados de

maneira mais ampla como responsáveis pela produção

de acidentes...” (p. 28).



Essa esperança não só transformaria os acidentes em eventos capazes de resultar em um aprendizado social, mas também em medidas de controle e prevenção mais contextualizadas e efetivas.


*1. Giddens A. As conseqüências da modernidade.


São Paulo: Editora Unesp; 1990.

POLÍTICAS PÚBLICAS NO BRASIL. Hochman G,

Arretche M, Marques E, organizadores. Rio de

Janeiro: Editora Fiocruz, 2007. 398 pp.

ISBN: 978-85-7541-124-7

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Conferência Internacional sobre Redes Sociais

Promovida por pessoas conectadas à Escola-de-Redes, uma rede de mais de 3 mil pessoas coligadas para estudar, investigar e experimentar redes sociais e desenvolver novas tecnologias de netweaving (articulação e animação de redes), ocorrerá em Curitiba, entre os dias 11 e 13 de março de 2010, a Conferência Internacional sobre Redes Sociais (a sigla é CIRS).

Três grandes palestras, em auditório com capacidade para mais de 1 mil pessoas, constituirão o ponto alto do encontro:

A primeira, O Poder de Organizar sem Organização será ministrada por Clay Shirky, palestrante internacional com grande projeção no momento. Shirky (Nova York) é escritor (seu último livro, ainda inédito no Brasil, tem como subtítulo o tema da palestra), professor de Efeitos Econômicos e Sociais das Tecnologias da Internet e de New Media na New York University.

A segunda, Redes sociais e emergência, será proferida por Steven Johnson (também de Nova York), outro palestrante de renome internacional, autor de 6 best-sellers sobre intersecção entre ciências, tecnologia e experiências pessoais. Seus livros têm influenciado desde a forma de campanhas políticas utilizarem a internet até as idéias mais inovadoras de planejamento urbano, passando pela batalha contra o terrorismo do século 21.

A terceira palestra, O futuro da investigação sobre redes sociais, será ministrada por Pierre Lévy (Ontário), filósofo, escritor e professor do Departamento de Comunicação na Universidade de Ottawa, Canadá e da Universidade Paris VIII. Lévy estuda o conceito de inteligência coletiva e sociedades baseadas no conhecimento. É um pensador mundialmente reconhecido no campo da cibercultura.

Haverá ainda uma discussão, desafiadora e polêmica, sobre a nova educação na sociedade em rede, intitulada Sistemas Sócio-Educativos: Comunidades de Aprendizagem em Rede (Arranjos Educativos Locais). Nessa atividade deverão ser questionados pela raiz não apenas os métodos de ensino ainda utilizados, mas o próprio conceito de educação como ensino, a instituição chamada escola e o papel (anacrônico) do professor. A grande estrela aqui será José Pacheco (Portugal), educador, escritor, mestre em Ciência da Educação. Ele foi o idealizador e coordenador da famosa Escola da Ponte, projeto educativo baseado na autonomia dos estudantes.

O evento também abrigará dois minicursos. O primeiro, Netweaving (Articulação e Animação de Redes), será ministrado por Augusto de Franco (São Paulo), netweaver da Escola-de-Redes e autor de mais de vinte livros sobre desenvolvimento local, capital social, redes sociais e democracia. O segundo minicurso, Introdução à Análise de Redes Sociais, será ministrado por Clara Pelaez Alvarez, analista de sistemas pela PUC de São Paulo, CEO da Neuroredes, empresa brasileira de consultoria em gerenciamento e especialista em Neurometria: mapeamento, desenho e análise de redes de conhecimento.

Para os promotores da Conferência o mais importante, porém, é o Simpósio da Escola de Redes, que ocorrerá nos dois primeiros dias do encontro: uma espécie de Open Space (ou “Desconferência”) onde os membros conectados à Escola-de-Redes vão, eles mesmos, definir a pauta e as atividades que serão desenvolvidas. Mais uma vez aqui a CIRS inova, seguindo a orientação – que tudo indica será predominante nos tempos que chegam – de organizar sem organização.

Uma característica inovadora da CIRS é o seu processo de realização: o evento está sendo divulgado e organizado de modo distribuído. Ou seja, cada pessoa que quiser colaborar pode divulgar o evento como se fosse seu: pode inventar uma marca, fazer e distribuir um folheto ou um cartaz, criar um banner para publicar no seu site, blog ou plataforma de rede na Internet – tudo isso sem a necessidade de pedir autorização, receber orientação e sem precisar entrar em contato com alguém. Patrocinadores ou apoiadores podem colocar a sua marca comercial nas peças publicitárias que veicularem, também sem qualquer necessidade de entendimento prévio. Em suma, como diz o tema da palestra de Clay Shirky, uma das mega-estrelas do evento, a CIRS está testando o poder de organizar sem organização.

Para quem já investiga, estuda ou trabalha com o assunto ou para quem quiser ficar atualizado com o tema, a Conferência Internacional sobre Redes Sociais é uma oportunidade imperdível.

Serviço

Inscrições e mais informações na plataforma interativa da Escola-de-Redes:
A CIRS – Conferência Internacional sobre Redes Sociais será realizada de 11-13 de março de 2010, no CIETEP (no Centro de Convenções da FIEP - Federação das Indústrias do Estado do Paraná): Avenida Comendador Franco 1341, Jardim Botânico, Curitiba, Paraná, Brasil.

A CIRS, embora organizada autonomamente, compõe a constelação de atividades aninhadas na Conferência Internacional de Cidades Inovadoras (CI-CI 2010): CIETEP, Curitiba 10-13 de março de 2010. Para mais informações sobre a CI-CI 2010 clique no link: http://www.cici2010.org.br/

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Nós não podemos nos dispersar


É necessário "indignar-se contra a violência, a pobreza,a miséria,a falta de solidariedade,a manipulação dos meios de comunicação e informação..."

É necessário "defender a utilização de todos os meios necessários e éticos que estiverem ao alcance para se evitar que milhões de seres humanos sofram e morram por questões que poderiam ser tão simples de serem resolvidas..."

Precisamos começar a construir um outro mundo possível.


imagem- net

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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Repressão Sexual e Trabalho em Herbert Marcuse " Eros e Civilização"

Por: Victor Adlung
Universidade Braz Cubas



Em Eros e Civilização, Marcuse se utiliza de conceitos psicanalíticos para uma melhor compreensão da Repressão Sexual, utilizada por nossa sociedade para sua auto-conservação. Ele nomeia essa sociedade unidimensional – ou seja, sem dimensões e/ou diferenciações de valores. Tudo equivale a tudo, todos a todos (como se, basicamente, tudo fosse mercadoria), numa condição de objetos de consumo.

Também a nomeia sociedade administrada – isto é, não há real (pura) liberdade de expressão. Tudo o que dizemos, fazemos, pensamos, gostamos e não...tudo é controlado por uma força maior, inapontável e incombatível.

Marcuse fala também de Super-Repressão, que é um conjunto de restrições e imposições que auxiliam a “domesticação” do Homem para o convívio em sociedade, indo além do Recalque e da Contenção do Princípio de Prazer por exigências do Princípio de Realidade de Freud, nos quais há simplesmente uma demanda de sobrevivência do indivíduo – já na Super-Repressão, a finalidade não é simplesmente a conservação da integridade e existência do indivíduo, mas da sociedade em primeiro lugar.

Quando Freud expõe a Contenção do Princípio de Prazer, ele explica como: “O Homem vive em constantes angústia e penúria, assim devendo trabalhar para sobreviver a esse desgosto”. Com isso, não só a Libido é sublimada e convertida num melhor rendimento, mas também o prazer “é ensinado” a se protelar para suportar frustrações e angústias longas (às vezes definitivas).

No entanto, indo mais além, Marcuse aponta que Freud não considerou um aspecto essencial desse contexto: a desigualdade. Ele pontua que se deve considerar que somos indivíduos diferentes, com diferentes necessidades e capacidades e, além disso, há aqueles cuja penúria e angústia são resolvidas com a “condenação permanente” de outros, de diferentes classes sociais e econômicas.

E a Super-Repressão, assim como fragmenta as condições existenciais desses indivíduos sociais quase que absolutamente, fragmenta também a sexualidade.

Para que o trabalho seja aceito como valor e virtude central, ocorre a dessexualização e deserotização do indivíduo – “destruindo” as múltiplas zonas erógenas que possui afirmando que qualquer estímulo a elas é imoral, perverso e criminoso –, reduzindo a sexualidade então a mera cópula com fins reprodutivos, limitando-a à genitalidade (ainda assim controlada e contida).

Porém, a Super-Repressão não visa à dominação por si só, mas sim à funcionalização do Homem – transforma o trabalho que era virtude em trabalho alienado, privador de satisfação, prazer, alegria e compensações (sendo essas últimas adiadas, mas nunca alcançadas), assim “destornando-o” fonte de criação e sublimação. Acaba por “matar” o prazer.

Para que a Super-Repressão ocorra devidamente é necessário, contudo, que ela esteja internalizada; e, para que possa ser internalizada, recorre à divisão do tempo e espaço, limitando-os e suas possibilidades de propiciarem um momento para a sexualidade. E, para piorar, essa limitação de tempo-espaço não ocorre só com o sexo, mas também com o lazer.

Essa problemática implica num terrível dilema: o tempo possível de ser dedicado ao lazer é o mesmo da sexualidade. A solução mais exercida para a solução desse dilema – que não é a melhor, mas a “menos pior” – é a fusão de ambos pelo consumo de pornografia, motel, sauna, “casa de massagem”, trazendo uma ilusão de liberdade sexual.

E é por esse caminho que a Super-Repressão se articula com o Princípio de Rendimento. Marcuse o determina como forma contemporânea do princípio de realidade: consumir para produzir e produzir para consumir. Com isso, o indivíduo sente-se humilhado se não atinge às demandas de consumo e produção impostas pela sociedade.

Com isso, a identidade do indivíduo não depende mais da relação [corpo-psique-ics-consciência <–> Natureza-cultura], mas dos critérios de avaliação social. Deixamos de ser autônomos quanto à sexualidade e nossas próprias vidas para sermos heterônomos – ou seja, deixamos de seguir nossas próprias leis e passamos a ser determinados por leis alheias.

Super-Repressão e Princípio de Rendimento, dessa forma, reduzem o Eros a quase zero e alimentam Thanatos em seu cruel e perverso desejo de morte, vazio e fim.

Acontece que, assim como o recalcado retorna, retorna a Libido reprimida igualmente, que assume três modalidades de manifestação:

• Princípio de destruição, agressividade realizando o prazer (nazismo, fascismo, massacres, destruição da Natureza...).

• Infantilização e conformismo, dessublimação repressiva (exibição do nu em propagandas visto como profanação).

• Revolta de Eros e negação do existente em vez de sua afirmação (“perversões” sexuais como fontes de vida e saúde).

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Recensão da obra de Herbert Marcuse, "O Homem Unidimensional" ( III )

Por:
João Valente Aguiar 

Recensão da obra One-dimensional man de Herbert Marcuse: MARCUSE, Herbert (2002 [1964]) – One-dimensional man. London: Routledge. ISBN 0-415-28977-7. p.3-86

                                                  III Capítulo

O terceiro capítulo de “Homem Uni-Dimensional” – “A conquista da consciência infeliz [unhappy]” – gira à volta do conceito de desublimação repressiva.

«A integração na área da cultura (...) na lógica do progresso da racionalidade tecnológica» (Marcuse, idem, p.59) é sinónimo do fechamento do universo cultural. O «(...) campo das produções culturais (...)» (Bourdieu, 2001, p.37) tinha como pólo de diferenciação funcional – a distinção – a alta cultura. Segundo Marcuse, a «(...) alta cultura esteve sempre em contradição com a realidade social» (Marcuse, idem, p.60), o que assegurava a existência de duas dimensões na sociedade. O fim desta díade dimensional ocorreu, não por obra da «(...) negação e rejeição dos valores culturais, mas através da sua incorporação global nos parâmetros da ordem estabelecida, por intermédio da sua oferta e reprodução numa escala massiva» (Marcuse, idem, p.60). Ou seja, estamos diante o que Walter Benjamin denominou de “reproductibilidade técnica da obra de arte”, em que «quanto maior o significado social de uma [obra de] arte, diminui e tanto mais se afastam no público as atitudes críticas e de fruição (...)» (Benjamin, 1992, p.104). Na realidade, a massificação do uso (e usufruto) da obra de arte, na sua forma reproduzida, obedece ao princípio de «(...) tornar a alta cultura parte da cultura material» (Marcuse, idem, p.61). Porém, esta expansão da produção artística para o terreno da vida do comum mortal não é significado de democratização cultural. De um lado, temos a perda da aura da obra de arte, expressa no «(...) valor singular da obra de arte autêntica que tem o seu fundamento no ritual em que adquiriu o seu valor de uso original e primeiro (...)» (Benjamin, 1992, p.82). De outro lado, temos «a invalidação da sua força subversiva, o seu conteúdo destruidor (...)» (Marcuse, idem, p.64). O exemplo da proliferação do quadro “Guernica”[12] de Picasso, é sintomático desta tendência de banalização das suas potencialidades subversivas e/ou revolucionárias.


Estamos diante de uma análise bastante interessante de Marcuse – aliás, onde se nota a influência da Escola de Frankfurt – faltando-lhe apenas uma categorização social mais apurada. Quer dizer, a alta cultura, a cultura das práticas cultivadas, tinha (e tem) o seu estatuto de distinção, no sentido mais bourdiano do termo. Objecto de fruição das classes dominantes, a alta cultura assume foros distintivos face a outras expressões culturais, porque congrega uma distância entre si e os outros – isto é, tem um uso social – porque esta cultura de elite «(...) só se transforma numa diferença visível, perceptível, não-indiferente, socialmente pertinente, se for percebida por alguém capaz de estabelecer a diferença» (Bourdieu, 2001, p.10).


A «(...) reconciliação cultural (...)», fruto do «(...) poder absorvente da sociedade (...)» desvanece «a dimensão artística por assimilação dos conteúdos antagónicos» (Marcuse, idem, p.64), reflecte-se, dessa forma, na própria percepção de personagens literárias. Se no século XIX o poeta rebelde (Lord Byron, Georg Büchner), o diabo (Drácula) ou o louco (Raskolnikov), eram sintoma de uma certa oposição à realidade social e de criação livre do artista, hoje, não passam de banais figuras passíveis de consumo e entretenimento acríticos: Spiderman, Mr. Bean, Margarida Rebelo Pinto, etc.


No sentido de se perceber a perda da aura artística, Marcuse vai focalizar o poder de negação que a arte (já não) possui. Este poder da ficção apela, precisamente «(...) para a subversão da experiência quotidiana, e mostra-a mutilada e falsa» (Marcuse, idem, p.65). Franz Kafka disse, mais ou menos, o mesmo: «a lenda procura explicar o inexplicável. Como ela nasce de um fundo de verdade, tem de voltar ao inexplicável» (Kafka, 2001, p.16), com a acentuação da autonomia relativa do campo artístico, espelhada no vaivém: inexplicável (arte/lenda) – verdade (real) – inexplicável (arte/lenda).

A exposição anterior concretiza-se numa necessidade de delimitar o nível social da produção de conteúdos artísticos com as suas funcionalidades específicas e sua subordinação, em última instância, à lógica capitalista.


Portanto, a «(...) decisiva distinção e diferenciação entre realidade social e artística (...)» (Marcuse, idem, p.66), obedece ao que Raymond Williams denominou de «(...) imaginação criativa: ou seja, a capacidade de encontrar e organizar novas descrições da experiência» (Williams citado por Cevasco, 2001, p.53).

Aliás, o pensador húngaro Georgy Lukacs, vai propor o conceito de realismo como uma «(...) tomada de posição perante a realidade (...)» como um «(...) critério para julgar a produção artística» (Lukacs citado por Frederico, 1997, p.34). Dessa forma, os maiores artistas são aqueles capazes de resgatar e recriar a totalidade da vida humana, onde numa sociedade degradada como a capitalista, em que o social e o individual estão inelutavelmente dissociados, cabe ao artista uni-los de novo numa totalidade – consagrada na personificação como a textualidade de um poema ou a variedade cromática do óleo na tela – através do realismo.

Marcuse percebeu que a circulação de bens culturais controlada pelo mercado dos capitalistas privados, e não apenas no mercado dos bens simbólicos, obriga à sua transformação em objectos comerciais. Assim, a privação de uma linguagem e de um código de leitura da expressão artística criou os meios de para uma sobreposição castrante da lei do valor sobre as produções culturais.

A partir deste momento, a lógica dominante da criação de arte, passou a ser a do best-seller, do leilão de quadros, do número de entrevistas, dos prémios recebidos, do exacerbar do ego(ísmo). Nas franjas, no underground, a criação do belo e a combinação da estética com o desvendamento do mundo, são continuamente ostracizadas pelos agentes de divulgação cultural (museus, editoras, televisões, escolas de belas-artes, etc.) – não só porque não são vendáveis para um mercado cada vez mais esterilizado, mas também porque os seus códigos de expressividade estética não coincidem com os do pólo dominante do campo.

Concordamos, neste ponto, com Marcuse, que as várias formas de expressão artísticas não foram capazes de obstaculizar a perda de uma certa radicalidade discursiva e performativa.

Todavia, consideramos que a instância artística não se estilhaçou por completo e não perdeu toda e qualquer fronteira com os outros campos sociais.

Do nosso ponto de vista sucedeu-se, de facto, uma penetração acentuada das dinâmicas das leis económicas viabilizadoras da mercadorização dos bens e produtos sociais. Entrada (sub-reptícia) nos vocabulários da arte, a dois níveis diferenciados:

1. nível económico-artístico; dada a predominância do campo de produção de mercadorias numa formação social, só a obra de arte que proporcionar lucro é que existe. Tudo o que não caiba no mainstream, marcado pela dominação do económico, é como se não fizesse parte da realidade social, acabando marginalizado.

2. nível artístico propriamente dito; o precário grau de autonomia do campo cultural, sofre a invasão da ideologia típica do economicismo: o individualismo. A propensão para enaltecer o mérito individual, a vitória sobre (e o passar por cima dos) outros, em íntima associação com o espírito comercial marcam novos traços nos habitus dos artistas.

Neste cenário, a resposta advogada por Marcuse, tributária do teatro de Brecht[13], parte da problematização da possibilidade de representar (a mimésis) o mundo contemporâneo na arte. A partir daí, o «(...) mundo contemporâneo pode ser representado, mas apenas se o for enquanto sujeito para a mudança – como estado de negatividade do que está negado na sociedade» (Marcuse, idem, p.69-70). Denota-se, nesta transcrição, que o pessimismo de Marcuse, no que diz respeito à mudança social, é aqui atenuado por uma resistência confinada, apenas, ao mundo artístico.

Mais para o final do capítulo, o autor, numa linha fortemente influenciada pela psicanálise, vai enfatizar a repressão da libido sexual.

Utilizando uma exposição comparativa entre “fazer amor” num bosque ou num automóvel, ou, dar um passeio com a companheira no campo ou numa rua de Manhattan, Marcuse acentua o facto de que «o ambiente mecanizado parece bloquear a auto-transcendência da libido (...)» (Marcuse, idem, p.75). Logo, a «(...) diminuição do erotismo e a intensificação da energia sexual, em resultado da realidade tecnológica, limita o alcance da sublimação» (Marcuse, idem, p.77).Assim, o corpo vai ocupar um papel central na exteriorização da procura de satisfação sexual, mais do que erótica.

Esta desublimação ajustada pelo «(...) progresso tecnológico e pelo conforto do modo de vida actual, permite a inclusão dos componentes libidinais no quadro da produção e troca de mercadorias» (Marcuse, idem, p.79), com inevitáveis consequências no enfraquecimento da racionalidade de protesto. Esta ocorrência assim sucede, pois o espírito humano conforma-se com uma mera satisfação fisiológica e sensitiva. Os reflexos no consumo são evidentes, com a transmutação dos bens adquiridos em instrumentos de concretizar, mais vincadamente, o princípio do prazer, já que este não é prorrogado pelas vias normais (erotismo, satisfação das necessidades reais e não mercantis). Marcuse, por seu turno, chega mesmo a afirmar que esta satisfação não passa de «uma capa superficial sobre o medo, a frustração e o desgosto» (Marcuse, idem, p.80) latentes.

O Thanatos (pulsão da morte) vai, desse modo, tornar-se reflexo, incarnado pelos agentes sociais, «(...) da capacidade para manipular o progresso técnico, extensível à capacidade para manipular os instintos, isto é, o indivíduo satisfaz-se produtivamente» (Marcuse, idem, p.82) [itálicos da nossa autoria]. Por outras palavras, a produtividade do dia-a-dia é a pedra de toque da satisfação do sujeito, que entra num ciclo de consumo recíproco: o instinto, então exacerbado, procura o equilíbrio – entre o princípio da realidade e do prazer – através do consumo (efémero) de bens à sua disposição no mercado. Por sua vez, este consumo é efeito da produção industrial e capitalista, que precisa desse consumo para realizar valor (transformação da mais-valia incorporada no produto final do trabalho, em lucro) com a venda de mercadorias.

Neste âmbito, a teoria da alienação (ou do estranhamento) do jovem Marx acrescenta importantes contributos à crítica do homo economicus: «a extensão dos produtos e das necessidades tornam-no [ao indivíduo] escravo inventivo e sempre calculista de apetites inumanos, refinados, inaturais e imaginários – a propriedade privada não sabe tornar a necessidade rude numa necessidade humana» (Marx, 1994, p.129).

Rematando este ensaio, importa perceber a importância desta obra para uma compreensão mais cabal dos efeitos perversos que o modo de produção capitalista provoca nas classes assalariadas, nos excluídos, nos desempregados. Contudo, Marcuse é manifestamente insuficiente na crítica que faz ao capitalismo (confundido, em primeira mão com a sociedade industrial), porque se oferece interessantes instrumentos para a constituição de uma teoria da dominação, há que os fundear numa teoria da exploração – primordial face à dominância do económico numa formação social capitalista – como Marx (tão bem) o fez. Sem interligar e articular as diversas instâncias, com referência ao processo de produção de mais-valia, qualquer tentativa para perceber a fundo os fenómenos sociais e encontrar vectores possíveis de engendrar novas relações sociais afigura-se, estamos em crer, pobre e parcial.


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Notas:

[1] Que também podemos considerar como uma introdução do livro e da matriz teórica subjacente à redacção desta obra.




[2] Atente-se no enfatizar contínuo da homogeneização dos consumos. Desde o mesmo programa de televisão ao mesmo local de férias, toda uma série de práticas sociais são consideradas como a-classistas. Ora, Bourdieu demonstrou que isto não se passa exactamente assim: «a cada classe de posições [no espaço social composto pela combinação de capital económico e cultural] corresponde uma classe de habitus (ou de gostos) produzidos pelos condicionamentos sociais associados à condição correspondente e, por intermédio destes habitus e das suas capacidades generativas, um conjunto sistemático de bens e de propriedades, unidos entre si por uma afinidade de estilo» (Bourdieu, 2001, p.9). Sintetizando, pode-se afirmar que a diferentes práticas e consumos culturais pelas várias classes e fracções de classe, corresponde uma matriz simbólica que recobre e dá um carácter de unidade às acções dos agentes sociais: a ideologia dominante numa dada formação social. No caso das sociedades capitalistas, encontramos o individualismo como a forma mais acabada de dominação ideológica.



[3] Castells, quarenta anos mais tarde, vai defender – especificando estas teses numa tecnologia própria – que a Internet «(...) é o meio de comunicação que constitui a forma organizativa das novas sociedades (...)» (Castells, 2004).



[4] Não deixa de ser curioso verificar a desfocagem epistemológica do autor, em torno da centralidade do trabalho, para uma posterior recolocação do núcleo da sua análise na tecnologia. Elucidativo deste movimento é a seguinte afirmação retirada de “Razão e Revolução”: «(...) o processo de trabalho determina a totalidade da existência humana e, pois, constitui o modelo básico da sociedade» (Marcuse, 1969, p.268), em absoluta contradição com as teses da uni-dimensionalidade.



[5] Contudo, de um ponto de vista epistemológico, Herbert Marcuse rejeita o empirismo, derivado do pensamento uni-dimensional. A uni-dimensionalidade lógico-cognitiva presente na «(...) redução e no repelir do universo do discurso dos temas deste universo [das sociedades industriais]» (Marcuse, 2002, p.14) tem consequências nas próprias mentes dos intelectuais. Estes não se propõem fazer mais do que «representações de operações particulares no tratamento dos conceitos» (Marcuse, idem, ibidem), isto é, passam a conceber o fenómeno social como «(...) por si e em si, e a constituir na imediatez do seu aparecer empírico, a totalidade do próprio ser» (Moura, 1997, p. 77). Ressalta a ideia de que o indagar da complexidade e interpenetração da múltiplas linhas axiais de causalidade diferenciada é menorizada em relação a uma mera facticidade aparente de um registo observado momentaneamente. Resumindo, Marcuse, neste âmbito, trabalha bem a negação do empirismo e desenvolve conceitos tendentes a uma radicalidade social, apesar das insuficiências já apontadas.



[6] Marcuse critica correctamente, a conciliação e o reformismo dos Partidos Comunistas ocidentais à ordem vigente, quando afirma que «fortes Partidos [Comunistas] em França e Itália, tornaram-se testemunhas da tendência geral ao aderirem a um programa mínimo que abandona a perspectiva revolucionária do poder e se adequa às regras do jogo parlamentar» (Marcuse, idem, p.23), apesar de nunca oferecer um paradigma alternativo ao cortejo de exploração, exclusão e barbárie capitalistas, sintoma da sua incapacidade de romper cabal e completamente com a cortina de fumo da ideologia dominante.



[7] Autonomia que, diga-se em boa verdade, não é contemplada por Marcuse, na medida em que reduz todas as dimensões da sociedade a um epifenómeno da tecnologia, que surge como algo de transcendental às próprias relações sociais que, na base, estipulam os formatos de aplicação da tecnologia no real.



[8] Por colocar a primazia, de forma unilateral, no desenvolvimento das forças produtivas sobre as relações e interacções que os homens estabelecem entre si e com o meio ambiente, Marcuse acusa a teoria clássica marxista de congeminar que «(...) o proletariado destrói o aparato político do capitalismo, mas mantém o aparato tecnológico» (Marcuse, idem, p.24) inalterado. Esta apreciação que o próprio Max Weber enunciou na crítica ao materialismo histórico, é infirmada por um dos mais importantes pensadores (e dirigentes políticos) marxistas da primeira metade do século XX – Nicolai Bukharine – que condensa a visão marxiana no que toca à (falsa) neutralidade tecnológica, ao fazer notar a «(...) revolucionarização dos métodos técnicos, a modificação e a rápida melhoria da técnica social racionalizada» (Bukharine, 1974, p.43), numa sociedade socialista.



[9] O alto funcionário da administração de Lyndon Johnson, Walter Rostow não diria melhor, quando generaliza uma sequência de etapas definidas a priori e aplicáveis a todos os contextos sócio-económicos e que deveriam ser copiadas por todas as nações. Aqui prevalece a noção de um fixo modelo de desenvolvimento, assente na especialização produtiva (Rostow, 1963).



[10] Todavia não devemos esquecer as chacinas que alguns dos mais proeminentes e “democráticos” Estados-Providência realizaram no pós-guerra. Basta olhar, por exemplo, para a guerra que a França protagonizou na Argélia, nos anos 50, contra a independência daquele país africano, provocando mais de um milhão de mortos. Outras guerras poderiam ser mencionadas como a do Vietname (três milhões de mortos), ou o apoio que os EUA deram na implementação das ditaduras militares na América Latina (Argentina, Chile, Brasil).



[11] Os conselhos operários enquanto forma avançada de poder político e económico da classe proletária, têm a característica fundamental de a «(...) fonte de poder não estar numa lei previamente discutida e aprovada pelo parlamento, mas na iniciativa directa das massas populares partindo de baixo e à escala local, pelo poder imediato do próprio povo» (Lenine, 1978, p.18).



[12] Não podemos deixar de referir um episódio delicioso relativo à história deste quadro. Em 1940, quando os nazis conquistam Paris, uma patrulha, entre muitas outras, dirige-se ao atelier de Pablo Picasso. Chegados lá, um oficial interpela o pintor acerca de “Guernica”: «Foi você que fez isto?», ao que o artista espanhol retorquiu, com um notável sentido de humor e uma fina ironia: «Não! Foram vocês!».



[13] Um dos grandes dramaturgos do século XX, autor de obras como “O Círculo do Giz Caucasiano”, “Miséria e Esplendor do III Reich” ou “Mãe Coragem”, Brecht proponha um teatro esteticamente inovador e que, paralelamente, apela-se à racionalidade do espectador. Em Portugal autores como Luís de Sttau Monteiro, Bernardo Santareno ou Luiz Francisco Rebello, ou encenadores como Joaquim Benite (actual director do Festival Internacional de Almada) foram os mais destacados seguidores das propostas brechtianas.


Recensão da obra de Herbert Marcuse, "O Homem Unidimensional" ( II )



Por: João Valente Aguiar

Recensão da obra One-dimensional man de Herbert Marcuse: MARCUSE, Herbert (2002 [1964]) – One-dimensional man. London: Routledge. ISBN 0-415-28977-7. p.3-86
                                               
                                 II Capítulo

No segundo capítulo da sua obra, Marcuse vai debruçar-se sobre o “fechamento do universo político”. Este fechamento é sintetizado na «(...) possibilidade de pacificação nos campos dos ganhos técnicos e intelectuais. Aí, a sociedade industrial moderna fecha-se a si mesma contra a alternativa» (Marcuse, idem, p.21). Paul Mattick, num ensaio de crítica a Marcuse, descreve as teses daquele como «(...) o suposto sucesso do sistema capitalista em canalizar os antagonismos num sentido em que os pode manipular, (...) tanto material como ideologicamente (...)», retirando as consequências teóricas (e políticas) do postulado marcusiano: «(...) é como se uma suposta sociedade sem classes estivesse a emergir na sociedade de classes, como se os antigos antagonistas[6] estivessem agora num interesse na preservação e equilíbrio do status quo institucional» (Mattick, 1972).




A questão do fechamento do sistema revela, quanto a nós, dois tipos de insuficiências fundamentais. Em primeiro lugar, no que concerne à topografia espacial de uma formação social, Marcuse adopta uma posição de defesa de uma totalidade social estruturada em vários níveis de acção social (cultura, política, economia) equivalentes entre si, girando em torno do primado da tecnologia. Em nosso entender, partindo da dominância do campo económico numa formação social capitalista, há que percepcionar a hierarquização das instâncias sociais (Poulantzas, 1978), no sistema social global.



Num segundo nível de análise referente às coordenadas temporais de articulação das instâncias (ou dos campos), há que tomar em linha de conta o evidenciar do lugar da diferenciada «(...) periodização entre [por exemplo] as instâncias política e económica» (Poulantzas, 1978, p.238). Assim, poderemos perceber a autonomia relativa do campo político (face ao económico), porque se encontra marcado por diferentes ritmos e dinâmicas de funcionamento. Todo este depósito de postulados teóricos demonstra, por um lado, uma certa autonomia[7] da luta de classes política em relação à económica (e à tecnologia) e, por outro lado, a capacidade – em determinadas circunstâncias específicas como a simultaneidade de uma crise em várias instâncias ou níveis sociais – de romper o ciclo do fechamento.



De seguida, o pensador germânico, imbuído de uma dose substancial de pessimismo na possibilidade de delinear linhas diversificadas e complexas de libertar o ser humano do ciclo de valorização do capital, vai enunciar o que considera serem três das grandes transformações que estariam na base da repressão da mudança social[8] – processo que, como já vimos, está no cerne do fechamento do campo político.



A primeira grande transformação, para Marcuse, seria a evidência de que «a mecanização está a reduzir a quantidade e intensidade de energia física gasta sob a forma de trabalho» com efeitos importantes na «(...) incorporação [dos trabalhadores] na comunidade tecnológica da população administrada» (Marcuse, idem, p.26-28). Se a enunciação das causas são, em parte, correctas, a coincidência de posições entre as classes operárias e a burguesia, camufla a importância do trabalho vivo (o proletariado expandido) na produção de valor e o seu rebaixamento à condição de subordinado e prisioneiro da relação de exploração de trabalho não pago. Marx é quem, por seu lado, imprime uma crítica tenaz ao modo de produção capitalista e permite entrever a cisão entre a classe que vive da venda da sua força de trabalho e a classe que acumula capital: «o capital é trabalho morto [capital constante: a maquinaria acumulada posse da classe dominante] que apenas se anima, à maneira de um vampiro, pela sucção de trabalho vivo, e que vive tanto mais quanto mais dele sugar. O tempo durante o qual o operário trabalha é o tempo durante o qual o capitalista consome a força de trabalho por ele comprada» (Marx, 1990, p. 264). Sem grandes dúvidas, acaba-se por rejeitar a unidade e compromisso do proletariado com a burguesia, afirmando o seu antagonismo social de classe.



A transformação número dois diz respeito «(...) aos sectores-chave da indústria, aonde a força de trabalho de colarinho azul está em declínio em relação aos elementos de colarinho branco e o número de trabalhadores não produtivos aumenta» (Marcuse, idem, p.30). Mais uma vez, não estamos de acordo com Marcuse. Se é verdade que o operariado industrial da era fordista, da grande unidade fabril, diminuiu nos países do centro do sistema-mundo capitalista, ele não deixou de assumir proporções crescentemente significativas em zonas de periferias recém-industrializadas (México, Brasil, Índia, África do Sul, Europa de Leste). Em paralelo, o crescimento dos sectores de serviços não comprova o fim das classes trabalhadoras mas, pelo contrário, acentua a sua expansão na sociedade a sectores de actividade económica anteriormente não sujeitos a assalariamento. Ou seja, o número de indivíduos que têm de vender a sua capacidade física e intelectual para produzir unidades de valor de uso (com um determinado valor de troca incorporado), em troca de um salário a fim de subsistirem enquanto seres humanos tem aumentado.



Por outro lado, Marcuse não faz qualquer tipo de distinção no seio dos “colarinhos brancos”. A diferenciação entre os trabalhadores dos serviços não é efectuada o que leva a pôr no mesmo tabuleiro o executivo de uma multinacional (tarefa de gestão de uma empresa), a secretária que introduz dados num computador (tarefa não-manual, nada criativa, para além de ser monótona e repetitiva) ou o programador de software para um sistema informático de uma empresa (tarefa intelectual e criativa, produtora de conteúdos, se bem que imateriais).



A terceira grande transformação apontada por Marcuse é uma consequência da primeira e manifesta-se na «integração social e cultural das classes laboriosas na sociedade capitalista» (Marcuse, idem, p.32). Pensamos que já criticamos suficientemente esta visão do mundo – que resvala tendencionalmente para expressões canhestras que propugnam que, segundo a fina teoria de Marx, o «(...) homem não pertence a nenhuma classe, que nem sequer pertence à realidade, que pertence apenas ao céu da fantasmagoria filosófica» (Marx, 1975, p.93) – pelo que não nos vamos deter aqui.



A conclusão das três transformações recenseadas por Marcuse desemboca «(...) no enfraquecimento da posição negativa [de contestação e revolta] da classe operária, e não mais aparece como a contradição viva da sociedade estabelecida» (Marcuse, idem, p.35). Não somos apologistas de Marcuse mas importa assinalar a seguinte “separação de águas”. Marcuse rejeita o carácter revolucionário das classes dominadas, não porque, como hoje em dia determinados demagogos defendem que vivemos no “melhor dos mundos” e que isso da emancipação humana – como resultado do fim das sociedades de classes – é irrealista. Marcuse, pelo que lhe toca, vê a sua “recusa” de apalpar terrenos de superação da actualidade vigente porque «os escravos da civilização industrial são escravos sublimados» (Marcuse, idem, p.36), quer dizer, o autor considera que os dominados estão tão alienados (e por isso incorporados no sistema), que não se conseguem libertar das amarras do capitalismo.



Em contradição com Marcuse, Lukacs suporta a ideia que «na sua imediatidade [à superfície], a realidade objectiva do ser social é a “mesma” para o proletariado e para a burguesia. Mas isso não impede que, como consequência das diferentes posições que ocupam as duas classes no “mesmo” processo económico, venham a ser fundamentalmente diversas as categorias específicas da mediação [as estruturas sociais] por meio das quais a realidade puramente imediata se transforma para ambas na realidade objectivamente propriamente dita» (Lukacs citado por Frederico, 1997, p.169). Esta explanação de Lukacs pode ser descodificada da sua linguagem mais hermética e, a partir daí, podemos atender a uma importante distinção invocada entre a aparência – proletariado e burguesia supostamente em igualdade de circunstâncias sociais e económicas numa dada formação social – e a essência – tanto o proletariado como a burguesia têm pressupostos de visão e divisão do mundo opostos, derivados do seu diferenciado lugar que ocupam no espaço social, a vários níveis (relações de produção assentes no despojamento do operário do seu produto de trabalho; exclusão do controlo do poder de Estado; diferente acesso a bens culturais).



Após a identificação da repressão da mudança social, Marcuse volta-se para o questionar das perspectivas dessa repressão. Para isso, recorre ao esquema da base e da superestrutura de Marx – de forma unilateral como iremos observar mais à frente – de modo a realçar o constante reequilíbrio e unidade das sociedades industriais.



Na base material encontramos o progresso técnico, e os esforços do sistema social «(...) para se ver livre do excesso de capacidade, para criar a necessidade de se comprarem os bens que devem ser vendidos de forma lucrativa». As consequências desta forma de organização da base material vão ganhar forma na «total administração e total dependência na administração pelos regulamentos [o Estado] e a gestão privada [publicidade, mass media] que aumentam a harmonia pré-estabelecida entre o interesse das grandes corporações públicas e privadas, e o mesmo interesse dos consumidores e dos trabalhadores» (Marcuse, idem, p.38). Os limites desta concepção encontram-se em dois planos: 1) o já referido fechamento do sistema instilador de uma homogeneidade dos interesses opostos; 2) a articulação infra-estrutura (aqui reduzida ao aspecto tecnológico – forças produtivas – pondo de lado as relações sociais de produção) e superestrutura é mecânica, na medida em que esta «(...) não é um simples adorno expletivo; pelo contrário, é um componente fundamental do sistema, destinada a, no âmbito deste, desempenhar os papéis específicos e diversificados que constitutivamente lhe correspondem. É neste marco que a sua autonomia relativa se insinua (...)» (Moura, 1997, p.50) [itálicos da nossa autoria].



A subordinação do espaço social (homogéneo e indiferenciado no que à distribuição de poder e arranjos de hierarquia e funções diz respeito) à acção da máquina, acarreta efeitos de imutabilidade nas reciprocidades sociais – tónus da actividade humana.



Mesmo quando Marcuse se ocupa de indagar uma socialidade nova, não deixa de focar que «numa sociedade industrial livre e madura, esta continuaria a depender da divisão do trabalho com a toda a insolvência de desigualdade de funções» (Marcuse, idem, p.47). A toada repetitiva na cristalização e naturalização das sociedades industriais, no que à sua potencialidade de reconfiguração social diz respeito, significa, porventura, o pessimismo do autor em meados dos anos 60, quando confrontado com o recuo da radicalidade das organizações políticas das classes trabalhadoras (enleadas na procura da conciliação e institucionalização da movimentação sindical e partidária vis-à-vis ao Estado) e com a sucessiva vaga de derrotas do movimento operário face ao avanço mundial dos intricados e cada vez mais insidiosos mecanismos de submissão e /ou repressão do “mundo do trabalho” aos imperativos do lucro.



No que toca à análise das sociedades periféricas (ou subdesenvolvidas), Marcuse vai tecer considerações bastante dúbias e que são muito pouco contestatárias do pensamento liberal dominante. Dizemos isto porque quando o então professor na Universidade da Califórnia (São Diego) assinala que «(...) o terrível nível de vida [no Terceiro Mundo] demanda a mecanização e estandardização em massa da produção[9] e distribuição» (Marcuse, idem, p.50) [itálicos da nossa autoria]. Por outras palavras, Marcuse cai no eurocentrismo, porque herda «(...) certa percepção evolucionista que (...) propõe uma homogeneização do mundo que o capitalismo não pode realizar (...)» e, simultaneamente, não se consegue livrar da ganga do desenvolvimentismo típico da linha preconizada pela Conferência dos países não-alinhados de Bandung (1955), já que «nega-se a relacionar as características fundamentais do capitalismo realmente existente com a polarização centros/periferias» (Amin, 1999, p.82-83). O mesmo é dizer que omite o enjaulamento da periferia relativamente ao centro da economia-mundo capitalista, assente nos mecanismos da troca desigual, da dívida externa, no não acesso a tecnologia de ponta, no fechar das fronteiras do centro do sistema à entrada em massa de mão-de-obra imigrante, às guerras imperialistas de rapinas dos recursos naturais (Iraque, Afeganistão, etc.), à sustentação de Estados clientelares das potências centrais.



O Estado-Providência também é alvo da atenção da atenção de Marcuse. A sua análise vai centrar-se no «(...) contrabalançar dos poderes (...)» existentes no seio do próprio Estado. Apesar de apontar o seu «(...) padrão de administração da vida, de regulamentação sufocante e persistente das sociabilidades», o Estado-Providência é reconhecido, paradoxalmente, como o melhor possível para a humanidade nas sociedades industriais, porque a «(...) sociedade é um sistema com instituições em competição [Estado com a igreja; tribunais com o poder governamental] que, dada a sua amplitude de pluralismo, uma instituição pode proteger um indivíduo de outra» (Marcuse, idem, p.52-54). De facto, não se compreende como Marcuse define, por um lado, o Estado em termos basicamente correctos – pelo menos ao nível dos efeitos nefastos sobre os seus cidadãos – ao corroborar com o seguinte enunciado: « o Estado forma um tremendo corpo parasita que cobre como uma membrana o corpo da sociedade e lhe tapa todos os poros» (Marx citado por Thomas, 2003, p.60), para depois se socorrer do Estado para garantir as liberdades que... o próprio Estado é causa! Se é evidente que o Estado-Providência (ou do Bem-Estar) não comporta tendências tão exacerbadas de violência física e de uso da força[10] contra as classes dominadas como o Estado fascista, ele não deixa de impedir o controlo dos meios de trabalho e da vida por parte das classes que vivem da venda da sua força de trabalho. Isto porque o Estado, independentemente da forma que tomar, é o mais potente instrumento da desorganização política e ideológica do proletariado (Poulantzas, 1978). O Estado é determinante para o isolamento da luta proletária na esfera económica, a partir de reivindicações e palavras de ordem acerca de problemas imediatos, relegando, quando não desconsiderando completamente, a luta política contra o Estado, contra o centro de organização política da burguesia (ver ensaio V). A luta (económica) acaba por ser integrada nos limites do sistema, actuando como alavanca de regulação de conflitos sociais pelo Estado. Assim, Marcuse entra em contradição com o que avançou no início da sua obra, quando dizia que «a eleição livre dos mestres não vai abolir os mestres ou os escravos» (Marcuse, idem, p.10).



Estamos, com efeito, perante um autor radical que rejeita as consequências mais gravosas e indefensáveis da civilização capitalista, mas que recua perante a necessidade e possibilidade de superar [Aufhebung] o sistema social dominante na actualidade. Instado a problematizar «(...) no sentido de desenvolvimento de arregimentação do mercado, se a competição alivia ou intensifica a corrida por uma maior e mais rápida obsolescência dos bens produzidos; se os partidos políticos competem pela pacificação ou pelo incremento dos gastos militares (...)» (Marcuse, idem, p.55), o autor sucumbe, enredado numa tensão perene entre a crítica e a resignação: «a democracia parece ser o sistema mais eficiente de dominação» (Marcuse, idem, p.56). Quer dizer, o dito Estado “democrático” é responsável por uma série de atrocidades, mas dada a sua eficácia estrutural para reproduzir a produção de capital é assumido, por Herbert Marcuse, como insuperável!



Portanto, Marcuse tem noção do carácter intrinsecamente perverso do tipo capitalista de Estado, contudo, vê nele – prenúncio da vaga pós-modernista?; germes da Nova Esquerda, posteriormente institucionalizada e ligada à reprodução da ordem social? – o fim último das formas de organização política da humanidade.



No final deste capítulo, Marcuse avança com o desígnio da pacificação e unificação entre as duas superpotências da época – EUA e URSS – rumo a um governo mundial. Para além de a História não lhe ter dado razão – face à desagregação da União Soviética em 1991 – Marcuse “sonhava” com uma interpenetração utópica entre «(...) as sociedades capitalistas e as sociedades comunistas contemporâneas» (Marcuse, idem, p.57).



Ora, não podemos concordar com a classificação de senso comum atribuída à ex-URSS (e os países do Bloco de Leste) de país(es) comunista(s). O que encontrá(va)mos naqueles Estados do “socialismo real” era uma completa descaracterização do projecto comunista e mais não foram do que processos de instauração do modo de produção capitalista, com a diferença relativamente ao Ocidente associada ao papel atribuído ao Estado (em detrimento do mercado) para protagonizar a acumulação de capital. Instauração do capitalismo (de Estado) conseguida, ao longo de um extenso período de tempo, através de sucessivas derrotas das classes trabalhadoras. Estas, até meados dos anos 20, organizadas nos seus orgãos de poder operário – os conselhos operários[11] – foram vencidas pela acção das burocracias estatais que abafaram a sua capacidade de iniciativa. Não é por acaso que Staline, e a sua camarilha de tecnocratas, assassinaram grande parte dos revolucionários que protagonizaram a Revolução de Outubro.

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